Música e inclusão no Complexo da Maré

Música e inclusão no Complexo da Maré

Participação de menina com paralisia cerebral em orquestra estimula outras crianças e adolescentes com deficiência. Pietra, de 7 anos, mostrou interesse pelo violino quando conheceu o instrumento na escola, dois anos atrás. "É uma quebra de paradigmas que as pessoas têm sobre a própria deficiência", diz maestro.

Luiz Alexandre Souza Ventura

08 de outubro de 2021 | 18h24


Pietra Mesquita, de apenas 7 anos, já é uma pioneira. Ela tem paralisia cerebral e, dois meses atrás, se tornou a primeira pessoa com deficiência a fazer parte da Orquestra Maré do Amanhã, projeto criado há 11 anos pelo maestro Carlos Eduardo Prazeres para identificar e formar jovens músicos nas 16 comunidades do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro.

O interesse pela música surgiu dois anos atrás, quando integrantes da orquestra foram dar aula na escola que Pietra frequentava. Logo no primeiro momento, o violino se tornou o instrumento preferido.

As dificuldades criadas pela pandemia afastaram Pietra da escola e da música, até que Juliana Mesquita, mãe da menina, procurou a orquestra para saber se uma criança com deficiência poderia fazer parte. A invisibilidade das pessoas com deficiência torna incompletos até mesmo projetos que realmente atuam pela inclusão, o que ainda exige de mães e pais atitudes para quebrar a redoma.

A chegada de Pietra à Orquestra Maré do Amanhã já modificou muita coisa, primeiro no ambiente interno. “É um marco na nossa história. Música, arte, educação e cultura são para todos. Temos aprendido muito com a Pietra. E tenho certeza que ela também aprende muito conosco”, afirma o maestro Carlos Eduardo Prazeres.

“Essa troca é extremamente importante, para ela e para nós. Só posso agradecer”, diz Prazeres.

“Acompanhar cada progresso no desenvolvimento da Pietra, cada nota correta tirada no violino e a sua resposta imediata aos comandos dos instrutores, é bastante recompensador”, comenta o maestro.


Foto do maestro Carlos Eduardo Prazeres com a menina Pietra Mesquita, de 7 anos. Ela está na cadeira de rodas e toca um violino. O maestro está sendo na na frente dela, ajudando no manuseio do instrumento.

Orquestra Maré do Amanhã recebe apoio do Grupo Assim Saúde por meio da Lei Rouanet. Crédito: Divulgação.


Os benefícios para Pietra também são claros, principalmente nos ganhos para a saúde física e emocional, postura e autoestima.

“A forma acolhedora com que todos da orquestra nos receberam, enxergando Pietra além da deficiência e com foco único na música. É extremamente gratificante vivenciar essa experiência, aplaudir cada avanço e conquista dela”, diz Juliana Mesquita.

“A música tem um grande poder de potencializar as habilidades e talentos de crianças e adolescentes, trazendo grandes benefícios para a saúde e o aumento da sensação de bem-estar e qualidade de vida. Além disso, é capaz de melhorar significativamente a capacidade de concentração, a escuta, as interações sociais e a coordenação motora, pontos que são bastante estimulados com todos os alunos, com ou sem deficiência, durante os ensaios”, ressalta o maestro.

A outra modificação provocada pela chegada de Pietra à orquestra vem de fora. A partir da presença dela no grupo, pais outras crianças e adolescentes com deficiência já procuraram o grupo para fazer inscrição.

Nos últimos quatro anos, a Orquestra Maré do Amanhã tem recebido apoio do Grupo Assim Saúde, por meio da Lei Rouanet.



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