“A neuromodulação é uma revolução na história da reabilitação”

“A neuromodulação é uma revolução na história da reabilitação”

Procedimento com uso de eletrodos ajuda pessoas com paraplegia e tetraplegia e ficar em pé. Equipe da Unifesp trabalha na técnica há três anos.

Luiz Alexandre Souza Ventura

09 de junho de 2015 | 11h00

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O que você precisa saber sobre pessoas com deficiência

A Neuromodulação ajuda pessoas com paraplegia e tetraplegia. Imagem: Reprodução

Neuromodulação ajuda pessoas com paraplegia e tetraplegia. Imagem: Reprodução

Revolucionário é aquilo – ou aquele – que provoca transformações radicais, inova, conduz ao progresso. Em determinados casos, gera mudanças tão profundas que se torna referência constante. Existem muitos exemplos históricos. Invenções, equipamentos, ferramentas, medicamentos e, principalmente, pessoas. Muitas vezes, o comportamento, os pensamentos e as descobertas são muito mais importantes. Em tempos de alta tecnologia, com acesso imediato e ilimitado a todo tipo de informação, nos tornamos testemunhas frequentes de mudanças fundamentais. E, mais uma vez, uma revolução surge muito perto de nós, desta vez no Setor de Neurodisfunções Pélvicas do Departamento de Ginecologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Há quase três anos, os médicos Beny SchmidtNucelio Luiz de Barros Moreira LemosAcary de Souza Bulle de Oliveiraa fisioterapeuta Salete Conde – e toda a equipe dos setores de Neurodisfunções Pélvicas do Departamento de Ginecologia e de Investigação de Doenças Neuromusculares do Departamento de Neurologia – têm obtido resultados substanciais na reabilitação de pessoas com paraplegia e tetraplegia. A técnica usada recebe o nome de neuromodulação, ou Implante Laparocópico de Neuromodulador – tradução de Laparoscopic Implantation of Neuroprosthesis (LION) – e consiste no implante, por videolaparoscopia, de eletrodos para estimular os nervos femorais, ciáticos e pudendos, localizados na região abdominal, responsáveis pelos movimentos de pernas e pés, e também pelo controle da bexiga e do reto.

“Quem começou tudo no Brasil foi o Nucelio (Lemos), que encontrou esse procedimento em Zurique (Suíça). Com a informação em mãos, ele procurou a Escola Paulista de Medicina”, explica o neuropatologista Beny Schmidt, fundador e chefe do laboratório neuromuscular da Unifesp (instituição que detém o maior acervo de doenças musculares do mundo, com mais de doze mil biópsias realizadas, e que ajudou a localizar, dentro da célula muscular, a proteína indispensável para o bom funcionamento do músculo esquelético – a distrofina.).

“O procedimento foi desenvolvido pelo professor Marc Possover com o intuito específico de melhorar a locomoção dos pacientes. O primeiro implante laparoscópico foi realizado há nove anos, na Suíça. Eu voltei ao Brasil com a técnica no final de 2010 e realizei o primeiro implante em setembro de 2012″, diz Nucelio Lemos, que é responsável pelo Ambulatório de Neurodisfunções Pélvicas do Departamento de Ginecologia da Unifesp.

O processo de neuromodulação funciona melhor em pessoas com lesão medular incompleta, mas funciona também em pacientes com lesão torácica completa.. Os estímulos elétricos começam no dia seguinte ao implante e servem como reguladores da atividade nervosa.

“Tudo depende do diagnóstico da condição neuromuscular. É um processo lento, sem ilusões, mas nós podemos afirmar que a neuromodulação é uma revolução na história da reabilitação. Acreditamos que pessoas com lesão medular poderão, por meio desse trabalho, resgatar a marcha. E poderá até haver casos nos quais o processo de neuroplasticidade permitirá a retirada dos eletrodos, principalmente em jovens, porque eles têm celulas ainda ‘imaturas’. De qualquer forma, essas previsões ainda estão no ambiente acadêmico”, explica Schimdt.

“O objetivo é que as pessoas voltem a caminhar com o auxílio de um andador ou muletas. Alguns poucos com lesões incompletas conseguem caminhar com bengala. Ninguém até hoje recuperou a marcha normal com o procedimento. Ninguém em nove anos retirou o neuromodulador”, afirma Lemos.

O neuromodulador utilizado no tratamento está registrado e aprovado para a neuromodulação periférica na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O procedimento consta do rol de Procedimentos de Cobertura Obrigatória da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e , por isso, tem a a cobertura de planos de saúde. “Até o momento, não enviamos o pedido de inclusão do procedimento no rol do Sistema Único de Saúde (SUS), uma vez que, para tanto, faltam estudos de custo/efetividade do procedimento, que é um dos fatores que analisaremos na universidade, com previsão de conclusão em 2019”, comenta Nucelio Lemos.

O custo do tratamento e da reabilitação específica é de aproximadamente R$ 500 mil. Segundo Nucélio Lemos, a Unifesp não tem agendamento para este procedimento. Serão recrutados 13 pacientes da grande São Paulo para o estudo de custo/efetividade.

“Os equipamentos já são aprovados na Anvisa há bastante tempo para diversos usos, incluindo a neuromodulação de nervos periféricos. O estudo está em análise para financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP)“, afirma Nucélio Lemos.

“A saúde pública do Brasil é hipócrita. O governo tem que pagar. A neuromodulação é uma das maiores atribuições da ciência e para a história da medicina”, defende o neuropatologista Beny Schmidt.

Beny Schmidt e Nucelio Lemos trabalham juntos na Unifesp. Foto: Reprodução

Beny Schmidt e Nucelio Lemos trabalham juntos na Unifesp. Foto: Reprodução

Saiba mais – Na neuromodulação, o implante é feito de forma pouco invasiva, com menor agressividade cirúrgica e possibilidade de tratamento sem necessidade de seccionar as raízes nervosas.

Os pacientes precisam atender a uma série de requisitos. “Pelas características da técnica, além da indicação do ponto de vista neurológico, é fundamental que ele tenha uma base psicológica e o apoio familiar para que consiga passar pela fase de reabilitação, que pode ser longa e demorada”, explica Schmidt.

Além de toda a ajuda gerada pelos exercícios na água, por meio da hidrocinesioterapia, outros elementos podem auxiliar na recuperação. “Existem suplementos e hormônios que, em pequena dose, são importantes aliados no ganho de massa muscular. Isso é fundamental na recuperação em casos de atrofia do músculo por desuso e inatividade”, explica.

Beny Schmidt destaca que a principal função do reabilitador é mostrar o caminho para que o paciente consiga voltar a andar, mas o grande responsável pela reabilitação é o próprio paciente. “A força de vontade para vencer essa luta tem que partir dele mesmo, com o apoio dos familiares. E a reabilitação não acaba no momento em que ele volta a andar, esse é apenas o primeiro passo. A jornada termina quando o paciente consegue a independência total e volta a ter a mesma vida que tinha antes do acidente”.

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