‘No Limite’ transcende o capacitismo

‘No Limite’ transcende o capacitismo

Escolha de Fernando Fernandes para comandar o programa da TV Globo é totalmente coerente. Apresentador tem a cara do reality.

Luiz Alexandre Souza Ventura

07 de janeiro de 2022 | 11h27

Imagem de Fernando Fernandes.

“Um apresentador cheio de disposição”, diz Fernando Fernandes.


Sempre entendi que Fernando Fernandes tem a cara do programa ‘No Limite’, da TV Globo. Confirmei em 2014, quando o entrevistei pela primeira vez. “É a cabeça que determina o ritmo de uma pessoa com deficiência, não é o corpo”, disse ele naquela época. Para mim, é exatamente isso que precisa conduzir os participantes do reality, porque o preparo físico será inútil quando houver o esgotamento mental. E o competidor não conseguirá avançar.

Lembro de Elaine Cosmo de Melo, paulistana de 35 anos que venceu a primeira edição, quase 22 anos atrás. Obesa, desacreditada, subestimada e até ridicularizada por sua aparência, ela manteve o equilíbrio necessário para desbancar todos os oponentes, sarados ou não.

A escolha de Fernando Fernandes é totalmente coerente. O atleta, paracanoista, modelo e apresentador reúne a experiência perfeita para conduzir o show, exatamente porque vivencia a transcendência dos limites, algo habitual para um esportista de alto desempenho, com ou sem deficiência.

Isso não tem nenhuma relação com a tal ‘superação da deficiência’ porque Fernando Fernandes continua paraplégico e os detalhes dessa condição permanecem. São os detalhes que modificam a vida de uma pessoa com deficiência. A cadeira de rodas ainda é a aliada na mobilidade e as barreiras que nossa sociedade e nosso mundo erguem na frente de cadeirantes continuam lá.

Quando conversei com Fernando, em 2014, ele começava uma nova fase, quase cinco anos após sofrer o acidente de carro que o tornou paraplégico, estava a caminho de Áustria e Portugal, a primeira vez que foi para o exterior totalmente sozinho, concretizar o projeto de uma nova canoa.

Há muita comemoração pela conquista de Fernando, celebração pela presença de uma pessoa com deficiência no comando do programa. É justo e necessário chamar a atenção para esse detalhe, importante ressaltar que isso representa uma quebra de capacitismo, uma valorização do histórico e da competência do apresentador para a função.

É como diz o próprio Fernando Fernandes, “um apresentador cheio de disposição”.


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