“O Brasil não gosta de pretos”

“O Brasil não gosta de pretos”

Vitor Del Rey, presidente do Instituto Guetto, fala ao #blogVencerLimites sobre a exclusão racial no mercado de trabalho. Pesquisa do site Indeed com o instituto destaca discriminação constante e mostra que profissionais negros não se sentem incluídos. "Empresas usam números para defender a diversidade, mas não agem para mudar o dia a dia".

Luiz Alexandre Souza Ventura

29 de maio de 2021 | 14h12

Foto de uma sala de aula com um professor negro e várias pessoas adultas negras. Crédito: Reprodução.

Descrição da imagem #pracegover: Foto de uma sala de aula com um professor negro e várias pessoas adultas negras. Crédito: Reprodução.


“O Brasil não enfrenta seu problema racial porque não gosta de preto. Temos aqui um racismo sem vergonha, com a propagação da mensagem de que existe no País uma harmonia social, sem tensão”, afirma Vitor Del Rey, presidente do Instituto Guetto, em entrevista ao #blogVencerLimites sobre a pesquisa feita em março deste ano pelo site de empregos Indeed, em parceria com o instituto, que entrevistou 245 profissionais negros por meio de um painel online.

Entre os entrevistados, 60% declararam terem sentido discriminação racial no ambiente de trabalho e 47% presenciaram cenas de segregação. “É a primeira pesquisa que ouve o profissional negro”, explica Del Rey. “A diversidade dá dinheiro. Empresas que contratam pretos têm aumento de performance, mas ignoram, por exemplo, o adoecimento e a saúde mental dos pretos”, destaca.

“Empresas adotam discursos em defesa da diversidade, com programas de recrutamento específicos para profissionais negros, mas não desenvolvem ações aplicadas que façam a diferença no dia a dia da empresa”, diz Del Rey, que é cientista social formado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), mestre em administração pública de empresas e aluno visitante do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (Massachusetts Institute of Technology – MIT), nos Estados Unidos.

Pertencimento – “Fui aluno de curso comunitário e bolsista na FGV porque não poderia pagar os R$ 4.600 de mensalidade. É fato que eu não teria a sensação de pertencimento naquela faculdade. Qual é o weberiano, o arquétipo daquele lugar? O jovem branco”, comenta Del Rey.

“Para a nossa sociedade, pretos e pobres não devem estudar economia. E a faculdade não trabalha para preencher seu próprio vazio representativo. Não há quase nenhum negro no corpo docente e não há disciplinas que abordem as temáticas da população negra”, ressalta o presidente do Instituto Guetto.

Na pesquisa do Indeed, 47.8% dos entrevistados disseram não ter senso de pertencimento nas empresas e 41% acreditam que ser reconhecido e ter suas contribuições valorizadas ajuda nesse processo.

“Criticar as empresas sobre as questões da diversidade é um problema, gera um impasse, porque isso é encarado como uma postura contrátia à contratação de negros”, observa Del Rey.

Desumanização – O presidente do Instituto Guetto reforça a afirmação de que é necessário resolver o problema do racismo na raiz. “Não falar sobre o racismo para isso acabar é como não falar sobre o coronavírus para acabar com a pandemia de covid-19”, diz. “Na história do Brasil, o preto nunca foi gente, sempre foi coisa, mercadoria. Temos 350 anos de escravidão, uma escolha do Brasil europeu, legitimada pela religião, pela igreja, pelo cristianismo”, afirma Del Rey.

“Analisando três grandes genocídios – dos indígenas, dos negros e dos judeus – somente os judeus, brancos, são lembrados”, completa o presidente do Instituto Guetto.


Foto de Vitor Del Rey, presidente do Instituto Guetto, homem negro, com cabelos curtos e barba cheia. Veste camisa clara e colete azul marinho. Está em pé, em um corredor com paredes de tijolos vermelhos aparentes. Sorri e olha para a câmera. Crédito: Divulgação.

Descrição da imagem #pracegover: Foto de Vitor Del Rey, presidente do Instituto Guetto, homem negro, com cabelos curtos e barba cheia. Veste camisa clara e colete azul marinho. Está em pé, em um corredor com paredes de tijolos vermelhos aparentes. Sorri e olha para a câmera. Crédito: Divulgação.


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