O desafio da xícara de café

O desafio da xícara de café

Na batalha para eliminarmos as diferenças, acabamos esquecendo que elas são determinantes na nossa individualidade. O detalhe está na ponta dos dedos.

Luiz Alexandre Souza Ventura

07 Maio 2015 | 12h25

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Na ponta dos dedos, uma xícara pode pesar mais do que um botijão de gás. Foto: Luiz A. S. Ventura

Na ponta dos dedos, uma xícara pode pesar mais do que um botijão de gás. Foto: Luiz A. S. Ventura

É uma situação comum para quase todo mundo. Fazer uma pausa no trabalho ou no passeio para tomar um cafezinho. Aqueles poucos minutos de relaxamento, degustação e, talvez, um pouco de reflexão. O momento pode ser prolongado quando a companhia e a conversa permitem.

No meu caso, esses momentos são sempre desafiadores. E cercados de muita expectativa. Tudo depende da xícara e do formato da asa que usamos para segurá-la. É um detalhe fundamental para garantir o prazer ou provocar uma bagunça.

Eu explico.

O lado direito do meu corpo é mais afetado pela Síndrome de Charcot-Marie-Tooth. Em minha mão direita, a musculatura responsável pelo chamado ‘movimento fino’ está atrofiada, e essa condição atinge principalmente o polegar. Por isso, segurar uma xícara de café é muito mais difícil do que carregar um botijão de gás. Faço muita força, minha mão acaba tremendo e o conteúdo da xícara é derramado. Há casos nos quais a asa é muito pequena e eu sequer consigo segurá-la.

Após muitos acidentes, decidi explicar essa minha dificuldade a quem vai servir o café. Pergunto se haveria possibilidade de trocar a xícara por uma caneca. É interessante perceber que o ‘outro lado’ demora a entender e alguns até se recusam. Quando isso ocorre, peço o café para viagem, o que obriga a entrega em um copo.

A troca por uma caneca garante a segurança e a limpeza de um momento. Foto: Luiz A. S. Ventura

A troca por uma caneca garante a segurança e a limpeza de um momento. Foto: Luiz A. S. Ventura

Confesso que demorei para pedir essa substituição. Faz parte da aceitação, do processo de luta contra minha condição física, do limite que não preciso superar para provar que consigo, principalmente porque não é essa barreira que me define. Neste sentido, não tento ser quem não sou e, fundamentalmente, não trato a situação de forma exagerada, superdimensionada.

Também entendo que o ‘outro lado’ não consegue compreender meu pedido, na maioria das vezes, por falta de conhecimento, não sobre a minha deficiência, mas sim sobre as diferenças entre todos nós. E, na batalha para eliminarmos as diferenças, acabamos esquecendo que elas são determinantes na nossa individualidade.

E basta uma xícara de café para mostrar que, em nossas distinções, somos todos iguais, humanos, pessoas.

Uma pequena atrofia (quase) ninguém percebe. Foto: Luiz A. S. Ventura

Uma pequena atrofia (quase) ninguém percebe. Foto: Luiz A. S. Ventura

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