“O implante coclear me fez nascer de novo”

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“O implante coclear me fez nascer de novo”

Pessoas que convivem com a surdez destacam as mudanças com uso de equipamento na parte interna do ouvido. Especialista do Hospital das Clínicas de São Paulo explica quando o procedimento é indicado e quais são os impedimentos. Organização Mundial de Saúde prevê 1 bilhão de pessoas com deficiência auditiva no mundo até 2020. Brasil tem 10 milhões de habitantes com perda auditiva e mais de 8,3 mil implantes cocleares registrados.

Luiz Alexandre Souza Ventura

22 de julho de 2019 | 14h40


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Descrição da imagem #pracegover: Foto dupla de Catherine Hamasaki, de 12 anos. No lado esquerdo, a menina olha para a câmera e sorri. Ela tem cabelos pretos, lisos e compridos, usa óculos de cor lilás e veste casaco cinza com estrelas pretas. No lado direito da imagem, ela mostra o implante coclear no ouvido esquerdo. Crédito: Arquivo Pessoal / Nanilda Hamasaki.


“As coisas mais simples da vida, para nós surdos profundos reabilitados, são momentos inesquecíveis. O barulho da chuva, a campainha de casa, os fogos de artifício na virada do ano, o canto do Bem-Te-Vi logo pela manhã. Meus implantes cocleares me trouxeram os sons da vida novamente”, diz Walter Kuhne, de 56 anos, que ficou surdo aos 42, depois de enfrentar dois anos de quimioterapia para combater um linfoma e usar antibióticos ototóxicos, que são muito fortes, para tratar uma meningite viral e uma infecção renal (nefrite).

“Foi como nascer de novo, reconhecer as músicas que sempre gostei, ouvir um jogo de futebol pelo rádio (adoro!), falar ao telefone e ouvir a pessoa direto nos meus processadores, por bluetooth, aprender uma outra língua (finalizei recentemente o meu curso de espanhol) e ouvir as mordidas de meus cães naquelas torradinhas que eles adoram comer”, comenta Kuhne.

“Antes do implante, na fase da surdez, eu instintivamente usava a leitura labial para me comunicar com as pessoas. O mundo sem nenhum som, para mim, que já tinha sido ouvinte, era sem graça, até mesmo quando eu ia com a minha família para a praia e não ouvia o barulho das ondas. Certa vez, quase fui atropelado na calçada quando um motoboy passou em alta velocidade. Ele deve ter buzinado antes, mas eu não ouvi. E achei que estar na calçada pudesse me dar segurança”, afirma.


Descrição da imagem #pracegover: Menina de cabelos loiros usa um implante coclear. Crédito: Divulgação / Cochlear América Latina.


ALTERNATIVA – “O implante coclear é uma alternativa porque, em alguns graus de perda auditiva neurossensorial severa ou profunda, apenas aumentar o volume com aparelhos de amplificação convencionais não é suficiente se o dano auditivo acomete a orelha interna nesses graus”, explica a otorrinolaringologista Paula Tardim, do Hospital das Clínicas de São Paulo.

“Será preciso estimular diretamente as células ciliadas da cóclea com o feixe de eletrodos que levará estímulo elétrico pelo nervo auditivo até o cérebro”, ressalta a médica. “Em diagnósticos de ausência ou má formação do nervo auditivo, o implante coclear pode não ser eficaz, porque o estímulo elétrico não consegue chegar até o cérebro porque percorreria o caminho pelo nervo”, alerta a especialista.

NASCEU SURDA – “A vida pré-implante era só insegurança. Depois, com muita estimulação e acompanhamento, minha filha é outra criança, fala bem, consegue se comunicar comigo. No dia a dia, fez total diferença em nossas vidas”, conta Nanilda Hamasaki, mãe de Catherine Kise de Lima Hamasaki, de 12 anos, que nasceu surda.


Descrição da imagem #pracegover: Mulher dá banho em um bebê na banheira. O menino usa um implante coclear e está sorrindo. Crédito: Divulgação / Cochlear América Latina.


“No Brasil, aproximadamente 10 milhões de pessoas têm perda auditiva. E já foram registrados 8.389 implantes cocleares”, diz Christopher Bertrand, presidente da Cochlear América Latina. “Apenas uma em cada 1.000 pessoas sabe o que é implante coclear. E estamos falamos de uma solução fundamental para saúde”, afirma o executivo.

A empresa investe 15% de sua receita anual em pesquisa e desenvolvimento. “Nossa estratégia tem sido ensinar as pessoas sobre o que é o implante coclear”, destaca Bertrand.

NÚMEROS – Segundo a Organização Mundial de Saúde, mais de 460 milhões de pessoas têm alguma deficiência auditiva no mundo. De acordo com previsões da OMS, esse número deve chegar a 1 bilhão até
2050, o equivalente a uma em cada dez pessoas no planeta. “Deste total, 15 milhões poderiam usar implantes cocleares”, diz o presidente da Cochlear América Latina.


Descrição da imagem #pracegover: Menina com implante coclear no ouvido direito. Crédito: Divulgação / Cochlear América Latina.


#blogVencerLimites – Como a surdez é constatada?

Paula Tardim – Ela é constatada por exames de audiometria e BERA.

(O exame BERA, também conhecido como PEATE (Potencial Evocado Auditivo do Tronco Encefálico), avalia todo o sistema auditivo, verificando ausência ou presença de perda auditiva, que pode ser provocada por lesão na cóclea, no nervo auditivo ou no tronco encefálico).

#blogVencerLimites – Quais são os graus?

Paula Tardim – Podem ser de grau leve, moderado, severo ou profundo.

#blogVencerLimites – Quais são as soluções para que os pessoas surdas possam ouvir?

Paula Tardim – Para cada grau de perda auditiva está recomendado um tipo específico de tratamento ou tecnologia, que varia do aparelho auditivo convencional, próteses auditivas de orelha média, próteses de ancoramento ósseo para os casos de perda por defeito na condução pelos ossinhos e membrana timpânica.

E para os casos de perda auditiva neurossensorial (por alteração na função das células ciliadas da cóclea) temos como soluções auditivas, em sua maioria, os aparelhos de audição convencional ou mesmo os implantes cocleares.

#blogVencerLimites – Por que o implante coclear é uma alternativa?

Paula Tardim – Ele é uma alternativa porque, em alguns graus de perda auditiva neurossensorial severa ou profunda, apenas aumentar o volume com aparelhos de amplificação convencionais não é suficientea se o dano auditivo acometer a orelha interna nesses graus. Será preciso estimular diretamente as células ciliadas da cóclea com o feixe de eletrodos que levará estímulo elétrico pelo nervo auditivo até o cérebro.

#blogVencerLimites – O que é o implante coclear?

Paula Tardim – O implante coclear consiste em um ímã e um eletrodo inserido dentro da cóclea (parte interna do ouvido), ambos ficam invisíveis após a cirurgia. Na parte externa, para captar os sons e enviar para a parte interna, o paciente deve utilizar um processador de som, conectado à parte interna através de um ímã. No ímã externo pode haver um processador de som auricular ou extra auricular, composto por antena e o processador de fala. Após conectado, o aparelho capta os sons e transfere-os diretamente para o nervo auditivo, de forma que o paciente comece a ouvir.

#blogVencerLimites – Para quais casos é recomendado?

Paula Tardim – A indicação principal é para casos de perda auditiva severa a profunda, neurossensorial bilateral, e quando não houve sucesso com um aparelho auditivo convencional.

#blogVencerLimites – Há algum diagnóstico em que a técnica não é eficaz?

Paula Tardim – Diagnósticos de ausência ou má formação do nervo auditivo. O implante coclear pode não ser eficaz porque o estímulo elétrico não consegue chegar até o cérebro, pois percorreria o caminho pelo nervo.

#blogVencerLimites – Como são pré e pós-operatório?

Paula Tardim – Tanto para o pré quanto para o pós-operatório será necessário acompanhamento multidisciplinar de equipe com fonoaudiólogo, otorrinolaringologista e psicólogo, todos especializados em implante coclear.

A cirurgia realizada pelo otorrinolaringologista é apenas um evento pontual. O psicólogo trabalha as expectativas e os resultados, além do suporte familiar.

E a equipe de fonoaudiologia faz diversos testes que comprovam a superioridade na indicação de uma cirurgia de implante coclear em comparação ao uso de aparelhos auditivos convencionais, bem como das programações e regulagens do implante em várias consultas após a cirurgia, aliado ao suporte de fonoterapia com o aprimoramento do aprendizado de leitura orofacial e/ou de Libras.

#blogVencerLimites – É preciso fazer manutenção? Como funciona o acompanhamento?

Paula Tardim – Após a cirurgia, o otorrinolaringologista tem o retorno com o paciente para avaliar a evolução da cicatrização, remoção dos pontos e reorientação dos cuidados.

A fonoaudióloga terá encontros mais frequentes para ativação dentro de um mês após a cirurgia e regulagens do aparelho, em média, a cada três meses, ou de acordo com a necessidade de ajustes para obter um melhor resultado.

A unidade externa – ou processador de fala – necessita de manutenção anual, para avaliar integridade mecânica do dispositivo.


Descrição da imagem #pracegover: Walter Kuhne veste terno e gravata cinza, camisa branca e colete claro. Está em pé, sorrido e olhando para a câmera, ao lado de uma obra de arte que tem formato de uma orelha e está colorida com pinturas de flores. Crédito: Arquivo Pessoal / Walter Kuhne.


#blogVencerLimites – Como foi constatada a surdez?

Walter Kuhne – Eu perdi a minha audição quando eu tinha 42 anos. Foi uma perda súbita motivada por três questões fortes. Eu havia passado por um processo de quimioterapia em virtude de um Linphoma Non-Hodjkin. Eu fiz dois anos de quimio (2002/2004) e, no fim, passei muito mal porque fui infectado com uma meningite viral. Ao mesmo tempo, estava com uma infecção renal, uma nefrite, que foi curada também com antibióticos fortíssimos.

Então, a minha perda súbita de audição está ligada a três motivos: quimioterapia, meningite e antibióticos ototóxicos que podem provocar a surdez.

Como eu estava passando mal, fui internado em um hospital, e ouvindo. Durante a noite, com a medicação e no dia seguinte, quando a equipe foi me dar boas vindas para explicar como seria todo o tratamento de acordo com o meu quadro clínico, eu já não estava mais ouvindo (2004).

Eu pedi para a equipe repetir o que estava falando porque eu não estava entendendo. Foi quando os médicos perceberam que eu estava falando muito alto. Eu queria me ouvir, mas não conseguia. Fui encaminhado para audiometria e constatou-se surdez neurossensorial bilateral profunda.

#blogVencerLimites – Como chegou ao implante coclear?

Walter Kuhne – Assim que fiquei surdo, uma prima informou que o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP realizava uma cirurgia para a reabilitação auditiva. Me inscrevi no programa, enviei todos os exames que tinha e fui chamado para a primeira consulta pela equipe multidisciplinar (otorrino, fonoaudióloga, psicóloga e assistente social).

Entre identificar a surdez e realizar a cirurgia, demorou um ano. Em 2006, fiz a primeira cirurgia para implante no lado esquerdo e, em 2009, a para o lado direito.

#blogVencerLimites – Como foi a recuperação?

Walter Kuhne – A primeira grande emoção foi no dia da ativação de meu implante coclear, em fevereiro de 2006. Assim que a fonoaudióloga ligou os eletrodos e fez os ajustes necessários pelo software, a minha esposa telefonou para a minha filha mais velha e me passou o telefone.

Assim que coloquei o aparelho próximo dos microfones de meu processador de fala, eu ouvi: “Oi pai, tudo bem?”. A partir deste dia venho saboreando grandes conquistas graças à equipe que me assiste, minha família, aos meus amigos e aos colegas de trabalho.

#blogVencerLimites – Como é o acompanhamento?

Walter Kuhne – No início, após a ativação, comparecia às sessões de mapeamento no Hospital das Clínicas de São Paulo a cada três meses. Atualmente, é necessário comparecer uma vez por ano.

Tenho a oportunidade de atualizar o modelo de meus processadores externos de som do implante coclear e utilizo hoje o mais moderno e o menor processador do mercado, chamado de Nucleus 7 (Cochlear América Latina), com muitos recursos digitais, de conectividade por bluetooth e posso até nadar com os meus processadores, o que me deixa extremamente feliz.

#blogVencerLimites – Como você descreve sua vida pré e pós-implante?

Walter Kuhne – Antes do implante, na fase completa da surdez, eu instintivamente usava a leitura labial para me comunicar com as pessoas. O mundo sem nenhum som, para mim, que já tinha sido ouvinte, era sem graça, até mesmo quando eu ia com a minha família para a praia e não ouvia o barulho das ondas.

Certa vez quase fui atropelado, mas eu não estava atravessando a rua, eu estava andando na calçada, quando um motoboy veio e passou em alta velocidade, batendo inclusive no meu cotovelo. Ele deve ter buzinado antes, mas eu não ouvi. E achei que estar na calçada pudesse me dar segurança quanto a isso.

Pós-implante foi nascer de novo, reconhecer as músicas que sempre gostei, ouvir um jogo de futebol pelo rádio (adoro!), falar ao telefone e ouvir a pessoa direto nos meus processadores, por bluetooth, aprender uma outra língua (finalizei recentemente o meu curso de Espanhol) e ouvir as mordidas de meus cães naquelas torradinhas que eles adoram comer.

As coisas mais simples da vida, para nós, surdos profundos reabilitados, são momentos inesquecíveis, o barulho da chuva, a campainha de casa, os fogos de artifício na virada do ano, o canto do Bem-Te-Vi logo pela manhã. Meus implantes cocleares me trouxeram os sons da vida novamente.


Descrição da imagem #pracegover: Foto dupla de Catherine Hamasaki, de 12 anos. No lado esquerdo, a menina olha para a câmera e sorri. Ela tem cabelos pretos, lisos e compridos, usa óculos de cor lilás e veste casaco cinza com estrelas pretas. No lado direito da imagem, ela mostra o implante coclear no ouvido esquerdo. Crédito: Arquivo Pessoal / Nanilda Hamasaki.


#blogVencerLimites – Como foi constatada a surdez de sua filha Catherine?

Nanilda Hamasaki – Na maternidade, ainda nos primeiros dias de vida. A Catherine nasceu com uma síndrome não definida e com problemas cardíacos, além da deficiência auditiva. O diagnóstico da surdez bilateral profunda foi confirmado quando ela tinha 1 ano e 8 meses, após exames de BERA.

#blogVencerLimites – Como chegou ao implante coclear? Quanto tempo entre identificar a surdez e fazer a cirurgia? Como foi a recuperação? Como é o acompanhamento?

Nanilda Hamasaki – Ela recebeu o implante há oito anos. Com o diagnóstico confirmado, fui orientada a levar Catherine para fazer exames e o acompanhamento com uma fonoaudióloga, que indicou o implante e alguns médicos. Após isso, iniciou-se o processo para o implante, que durou quatro anos até a cirurgia. A recuperação foi ótima, ela só ficou um dia no hospital. O acompanhamento é com fonoaudiólogo e eu me dedico à estimulação.

#blogVencerLimites – Como você descreve a vida de Catherine e de sua família antes e depois do implante?

Nanilda Hamasaki – A vida antes do implante era só insegurança, medo do desconhecido. Após o implante, com muita estimulação e acompanhamento, Catherine é outra criança, fala bem e se comunica. O implante fez a diferença em nossas vidas.

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