O isolamento cruel da mãe atípica

O isolamento cruel da mãe atípica

Mulher de 39 anos, que morava sozinha com o filho, um menino autista de 6, morreu em casa após sofrer um infarto fulminante, e a criança ficou 12 dias sozinha no imóvel.

Luiz Alexandre Souza Ventura

19 de maio de 2022 | 11h45

Banner de fundo cinza com a frase 'Eu sinto muito, Ana Paula' em letras brancas.

Publicação sobre a morte da mãe de uma criança autista chama atenção para a invisibilidade de mulheres que têm filhos com deficiência. Foto: Reprodução.


“Eu sinto muito, Ana Paula” é o título de uma publicação da jornalista e escritora Andrea Werner no Instagram, onde tem mais de 59 mil seguidores, sobre a morte de uma mulher de 39 anos em São Sebastião do Paraíso, na região sul de Minas Gerais. Ana Paula faleceu em casa após sofrer um infarto fulminante e o filho dela, um menino autista de 6 anos que ainda não aprendeu a falar, ficou 12 dias sozinho no imóvel, comendo o que havia por lá. O corpo dela foi sepultado nesta quarta-feira, 18.

Mães de pessoas com deficiência costumam ser chamadas, até se apresentam, como atípicas. É fato que a maternidade, de maneira geral, no caso de filhos com ou sem deficiência, sempre exige muita energia e dedicação, e não considero justo classificar como menor ou mais fácil o empenho de quem cuida de suas crias porque essas não têm restrições de mobilidade, condições intelectuais ou sensoriais diferentes.

Ser mãe é ser mãe. Podemos acrescentar que, quando há uma criança com deficiência, tudo deixa de ser comum, regular, habitual ou típico.

Mães atípicas convivem com uma semelhança muito cruel, o isolamento provocado pela maneira preconceituosa como nossa sociedade ainda trata pessoas com deficiência, principalmente crianças com sequelas severas. E esse era o caso de Ana Paula.

Recebo relatos constantes de mães que não sabem mais a quem recorrer porque seus filhos com deficiência são negligenciados nas escolas, são atacados em grupos de pais ou do condomínio no WhatsApp, são alvo de piadas maldosas até mesmo entre familiares.

Andrea Werner é uma mãe atípica, tem um filho autista prestes a completar 14 anos. Fundou o Instituto Lagarta Vira Pupa, que faz acolhimento materno, dá apoio às famílias de pessoas com deficiência e também constrói mobilização social e política.


Print do post de Andrea Werner no Instagram. Texto completo está no final da matéria.

“Esse mito da mãe especial esconde muitos abandonos”, diz Andrea Werner.


“Meu marido viu a notícia sobre a Ana Paula e me mandou. A situação mexeu muito comigo, porque não é a primeira”, diz Andrea.

No ano passado, em Jataí (GO), a 320 quilômetros de Goiânia, uma criança autista de 7 anos ficou trancada dentro da própria casa, sozinha, por vários dias, depois que a mãe dela, Renata Duarte de Oliveira, de 28 anos, morreu de causas naturais. A criança usou o celular para avisar conhecidos e até fez imagens da mãe caída, mas não havia sinal de internet e os pedidos de ajuda não chegaram.

Em outubro de 2021, em Uberlândia (MG), os corpos de mãe e filho foram encontrados dentro da casa ondem moravam juntos. Ilza Maria Assunção, de 56 anos, ficou quatro dias sem se comunicar com a família e um de seus irmãos foi até residência. Ela estava caída e Breno dos Reis Gomes de Assunção, de 19 anos, filho de Ilza, um jovem com deficiência, tetraplégico, que era cuidado pela mãe, também estava sem vida.

“Ana Paula não foi a primeira e não será a última, são muitas mães nessa situação”, afirma Andrea Werner. O post que ela compartilhou no Instagram nesta quarta-feira, 18, se espalhou rapidamente e já tem mais de 6,6 mil compartilhamentos.

“O isolamento e a invisibilidade das mães de pessoas com deficiência, das mãe atípicas, são resultados de muita coisa, do machismo estrutural e do ensinamento de que o cuidado é um dom feminino. Não é à toa que 78% dos pais abandonam a família quando um filho é diagnosticado com doença rara ou deficiência. E, tanto para sociedade quanto para o Estado, é mais fácil dar um tapinha nas costas e chamar de ‘guerreira escolhida por Deus’ do que acolher, incluir e criar políticas públicas, cuidar de quem cuida. Esse mito da mãe especial esconde muitos abandonos. Nesses casos é inevitável a gente se perguntar: cadê o pai? É normal não ter notícias do filho por 12 dias? Tudo bem isso? Não deram falta dele na escola? Muitas estruturas de proteção social falharam”, completa Andrea.


Cópia do post de Andrea Werner mostra mais de 12 mil curtidas e mais de 6,6 mil compartilhamentos.

Publicação de Andrea Werner repercutiu rapidamente. Foto: Reprodução.


Leia a íntegra do texto publicado por Andrea Werner.

“Ana Paula morava em São Sebastião do Paraíso, interior de Minas, sozinha com seu filho de 6 anos, que é autista.

Ana Paula teve um infarto e faleceu aos 39 anos. Só foi achada cerca de 12 dias depois, no seu quarto, por um irmão que deu falta. Seu filho estava na cozinha. Ele não fala, e não conseguiu pedir ajuda.

Eu sinto muito, Ana Paula.

Sinto pela sua solidão. Sinto pelo fato de só notarem a sua ausência 12 dias depois. Se minha irmã fica um dia sem aparecer, eu já fico preocupada…

Eu sinto muito pelo que o seu filho passou. Eu imagino que isso era um dos seus piores pesadelos, e ele aconteceu.

Aconteceu porque mães atípicas, muitas vezes, recebem um tapinha nas costas, são chamadas de guerreiras, e depois são abandonadas.

Aconteceu porque mães atípicas solo são tão sobrecarregadas que não conseguem cuidar da própria saúde.

Aconteceu porque tantas dificuldades e abandonos pesam…no corpo, na mente, no coração.

Aconteceu porque a sociedade e o Estado não acolhem, não cuidam de quem cuida, e nem veem o cuidado como um trabalho.

Eu sinto muito. Sinto tanto. Espero que seu filho seja acolhido pela sua família. Mas não sei nem o que esperar de uma família que demora 12 dias pra dar falta de alguém”.


Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.