“O preconceito é inimigo da liberdade”

“O preconceito é inimigo da liberdade”

Na semana de luta da pessoa com deficiência, o #blogVencerLimites publica uma série de artigos exclusivos, escritos por pessoas com e sem deficiência. A sequência começa com texto do médico Enã Rezende, que tem autismo e trabalha na rede pública de Rondonópolis (MT). O Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência é celebrado neste sábado, 21 de setembro.

Luiz Alexandre Souza Ventura

16 de setembro de 2019 | 11h21


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Descrição da imagem #pracegover: Foto do médico Enã Rezende num consultório médico. Ele está sentado, sorri e olha para a câmera. Tem cabelos curtos, escuros e ondulados, pele branca e olhos escuros. Veste um jaleco, tem um estetoscópio sobre os ombros e segura uma canela com a mão direita. Na mesa, formulário, blocos de papel e caixas de remédios. Crédito: Arquivo Pessoal.


Para celebrar a semana de luta da pessoa com deficiência, o #blogVencerLimites publica uma série de artigos exclusivos, escritos por pessoa com e sem deficiência.

O médico Enã Rezende Bispo do Nascimento, que tem o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e trabalha na rede municipal de saúde de Rondonópolis (MT), abre a sequência.

O Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, 21 de setembro, foi instituído em 1982 por iniciativa de movimentos sociais, liderados por Cândido Pinto de Melo, fundador do Movimento pelos Direitos das Pessoas Deficientes (MDPD), e oficializado pela Lei Nº 11.133, de 14 de julho de 2005.

A data foi escolhida para coincidir com o Dia da Árvore, representando o nascimento das reivindicações de cidadania e participação em igualdade de condições.

Em 2008, o Brasil ratificou a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, adotada pela Organização das Nações Unidas (ONU), e o Protocolo Facultativo, documento equivalente à emenda constitucional. A convenção é base do texto da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Nº 13.146/2015).



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Preconceito

por Enã Rezende Bispo do Nascimento*

O dicionário Aurélio define preconceito como ‘conceito ou opinião formados antecipadamente, sem maior ponderação ou conhecimento dos fatos; ideia preconcebida’. Algo que tem sido comum na história, a exemplo dos espartanos, que matavam recém-nascidos tidos, para essa sociedade, como defeituosos, além de muitos outros exemplos ao longo de toda a história humana.

E, infelizmente, conforme o tempo foi avançando, o preconceito adentrou reinos e castelos, cruzou oceanos, atingindo todos os continentes e deixando rastros de morte e destruição, sobrevivendo até os dias de hoje, mesmo em pleno século XXI.

Com toda a informação que possuímos, muitos ainda preferem se fechar para seus próprios dogmas e valores, muitos dos quais, concebidos na base da ignorância. Uma pessoa que age com preconceito nos tempos atuais, não se diferencia daquele estadista espartano que, milênios atrás, praticava o infanticídio, uma vez que também enxergam crianças com deficiência como indignas de integrarem a sociedade.

E dentro do assunto abordado, gostaria de dar ênfase ao Transtorno do Espectro Autista (TEA), definido pelo DSM-V (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) como uma ‘desordem do desenvolvimento caracterizada por déficit de comunicação verbal/não verbal, interação social/emocional e comportamentos/interesses/atividades repetitivas, manifestada precocemente entre os 12 e 24 meses, com prejuízo social e ocupacional ou atraso global do desenvolvimento’.

Claro que essa definição aborda antigos termos e subtipos de autismo e pelo qual sou classificado como autista leve (antiga síndrome de Asperger), descrito em 1944 por Hans Asperger, que observou características semelhantes ao autismo, como dificuldade de comunicação social em crianças com inteligência normal.

Porém, mesmo com essa inteligência dita ‘normal’, não deixei de ser alvo de preconceito ao longo de minha vida, sendo chamado de ‘louco’ pelos colegas de infância e segregado, algumas vezes por incentivo dos próprios pais, visto por muitos como um incapaz.

Aos sete anos de idade, após mudar de escola, a professora não deixava eu fazer as mesmas atividades que meus colegas, sempre me dando outras lições ditas mais fáceis para eu executar, Quando interrogada pela minha mãe, essa professora disse que eu jamais seria alfabetizado.

Na ocasião eu ainda não lia direito, mas naquele mesmo ano eu aprendi a ler e, desde então, nunca mais parei.

Muitos de meus comportamentos foram vistos como estranhos, como a dislalia (distúrbio da fala, caracterizado pela dificuldade em articular as palavras), a vontade de, muitas vezes, me isolar e a dificuldade para me comunicar.

Fui alvo de comentários e subestimado algumas vezes, até mesmo na vida acadêmica.

Consegui me formar em medicina, passando pelas mesmas provas e testes que meus colegas e sendo considerado apto para a profissão. Ainda assim, meus problemas não acabaram.

As portas daquela que seria minha primeira oportunidade de emprego foram fechadas porque fui considerado incapaz somente pelo fato de ser autista, mesmo sendo médico de formação, apto para exercer a medicina segundo os órgãos médicos dessa nação, pagar meus impostos, dirigir, cumprir com meus deveres legais e, mesmo sendo cidadão, desse País, nascido e criado dentro das fronteiras dessa grande nação, infelizmente, grande até mesmo na injustiça.

Recentemente, comemoramos 197 anos de Independência do Brasil, quase caminhando para nosso bicentenário, mas eu pergunto: que independência é essa se ainda estamos presos as amarras do preconceito, se autistas ainda são estigmatizados pela sua condição, muitas vezes impedidos de exercer suas funções, de frequentar escolas ou festas de aniversários por sua condição?

Pegando emprestado a letra daquela música da Legião Urbana: ‘Que país é este?’.

Por mais que se criem leis e normas, a melhor maneira de combater o preconceito é pela informação, que transforma preconceito em conceito formado e gera compreensão, respeito e aceitação, que são comuns a todas as pessoas, e em conscientização, para que possamos nos libertar de amarras pelas quais tanto estivemos presos.

Assim, num 7 de setembro, poderemos todos bradar, autistas ou neurotípicos, com toda ou qualquer outra pessoa considerada diferente que “já raiou a liberdade no horizonte do Brasil”.

*Enã Rezende Bispo do Nascimento tem 27 anos, é médico e trabalha na Estratégia de Saúde da Família (ESF) da rede municipal de saúde de Rondonópolis (MT).

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