Olhos do velejador

Olhos do velejador

Marcelo Franco Paula Novaes, de 54 anos, que tem catarata congênita e conta com apenas 20% da capacidade de visão no olho direito (o esquerdo é nulo), descobriu novas capacidades quando começou a velejar.

Luiz Alexandre Souza Ventura

27 Outubro 2014 | 10h00

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O que você precisa saber sobre pessoas com deficiência

Marcelo Franco Paula Novaes é velejador. Foto: Arquivo Pessoal

Há um ensinamento básico para quem costumar avaliar que uma deficiência é o fim das possibilidades: a natureza cria compensações. Essa mudança nos sentidos acontece de forma particular e acaba por apresentar habilidades que o indivíduo jamais imaginou ter.

O administrador financeiro Marcelo Franco Paula Novaes, de 54 anos, que tem catarata congênita e conta com apenas 20% da capacidade de visão no olho direito (o esquerdo é nulo), descobriu novas capacidades quando começou a velejar. “Quando não se tem parte de um de seus sentidos, no meu caso a visão, os outros se aguçam. E, dentro de um barco, há necessidade de usá-los, por exemplo, para manter o equilíbrio da embarcação, ser ágil na mudança das velas de um lado para outro, na sensibilidade para ‘caçar’ a vela, com mais ou menos intensidade, para fazer com que o barco tenha mais velocidade”, diz.

Foto: Arquivo Pessoal

A atividade esportiva faz parte da vida de Marcelo Novaes desde a infância. Além da Vela Paralímpica, ele pratica Judô há mais de 10 anos. “Acho que o esporte é essencial na vida de qualquer ser humano, com deficiência ou não. Ajuda na disciplina, na perseverança, na busca de objetivos”.

Para o administrador, falta respeito às pessoas com deficiência no Brasil, principalmente quando se trata de sinalizações, locais para recreação e formação esportiva, fundamentalmente para as crianças. “É necessário que as leis sejam obedecidas, mas as pessoas com deficiência devem dar valor às próprias conquistas. E lutar sempre para conseguir mais”.

Foto: Arquivo Pessoal

Um dos primeiros obstáculos enfrentados, ainda na infância, foi na escola. Ele conta que, na sua época de estudante, não havia material adaptado. Na época, já havia livros em braille, mas não existia mecanismo para fazer a ampliação dos textos. “As dificuldades existiam dentro da escola e em casa, para os estudos e a leitura”.

Os pais de Marcelo chegaram a cogitar a possibilidade de colocá-lo em um curso de braille, mas decidiram optar por uma escola especializada em baixa visão, especificamente o Grupo Experimental Dr. Edmundo de Carvalho, em São Paulo, onde ele foi alfabetizado.

“Nos estudos, minha grande dificuldade era a leitura. Além de usar uma lupa que aumentava bem as letras, utilizei também uma prancheta de arquiteto, que me ajudava na postura porque, na mesa normal, eu ficava muito curvado e, normalmente, com muita dor no pescoço”.

Formado em administração de empresas, com duas pós-graduações concluídas (análise de sistemas e administração bancária), ele lembra das dificuldades para entrar no mercado de trabalho e destaca uma única experiência na qual teve de enfrentar o preconceito e a falta de informação.”Em uma instituição financeira, a vaga era para atendimento ao cliente, mas a avaliação foi categórica. Disseram, na minha cara que, em função da minha deficiência, eu não seria capaz de atender bem ao público”.

Em setembro, Marcelo participou do Campeonato Paulista de Vela Paralímpica, na Represa de Guarapiranga, em São Paulo. Foram dois dias de competições e, na classificação geral, sua equipe ficou em terceiro lugar.

Foto: Arquivo Pessoal

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