Pandemia atrasa desenvolvimento de crianças surdas

Pandemia atrasa desenvolvimento de crianças surdas

Estudo mostra que isolamento social, uso de máscara e atividades exclusivamente digitais ampliam dificuldades de interação e de rotina. Comunicação presencial interrompida gera perda de interesse na escola e afeta o equilíbrio emocional. Simpósio debate soluções.

Luiz Alexandre Souza Ventura

18 de novembro de 2020 | 13h10

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Foto de uma criança negra, um menino, com a mão no ouvido direito, que tem um implante coclear. Crédito: Reprodução.

Descrição da imagem #pracegover: Foto de uma criança negra, um menino, com a mão no ouvido direito, que tem um implante coclear Crédito: Reprodução.


Crianças surdas ou com diferentes níveis de deficiência auditiva são atingidas com mais gravidade pelas medidas de isolamento e distanciamento social exigidas durante a pandemia de covid-19. A situação foi confirmada por um estudo do Instituto Escuta com participação de 44 famílias.

“As crianças surdas que são oralizadas podem ter dificuldades com a leitura labial por causa das máscaras. E também com a qualidade do som e da escuta durante aulas online ou sessões de terapia pela internet. Isso pode ser mais grave para quem não tem acesso digital e ainda perde muito com a falta de contato e comunicação social na escola ou na terapia”, explica a fonoaudióloga Mariana Guedes, consultora de audiologia e reabilitação auditiva do Instituto Escuta.

“Crianças que se comunicam em Libras podem ficar cada vez mais sozinhas durante a pandemia porque, considerando que nem todos os pais e familiares são fluentes na Língua Brasileira de Sinais, a escola e o contato com outros surdos eram seus maiores núcleos”, diz a especialista.


Foto de Rafaela Cristina da Silva, de 7 anos, e José Victor Ribeiro Cruz, de 8 anos. Ambos estão em pé, tocando violões coloridos feitos de papelão. As duas crianças têm implantes cocleares. Crédito: Divulgação / Instituto Escuta.

Descrição da imagem #pracegover: Foto de Rafaela Cristina da Silva, de 7 anos, e José Victor Ribeiro Cruz, de 8 anos. Ambos estão em pé, tocando violões coloridos feitos de papelão. As duas crianças têm implantes cocleares. Crédito: Divulgação / Instituto Escuta.


Para Rafaela Cristina da Silva, de 7 anos, que usa implante coclear unilateral, fez a cirurgia para colocação do dispositivo pelo SUS e tem acompanhamento no Hospital das Clínicas de São Paulo, a pandemia atrasou o desenvolvimento e interferiu na rotina de tratamento. O processo entre os especialistas e a menina foi interrompido, anulando a comunicação.

“Antes da pandemia, a Rafaela evoluia super bem na escola. Agora, com o isolamento social, ela não tem mais interesse nas atividades”, conta Salete Cristina Miranda, mãe da menina.

“A mudança de especialistas nos atendimentos online complicou mais a situação porque muitos não trabalham nesse formato”, comenta. “O comportamento da Rafaela também mudou bastante, sinto que ela não tem mais o equilíbrio que tinha antes” afirma Salete.


Foto de Rafaela Cristina da Silva, de 7 anos, e José Victor Ribeiro Cruz, de 8 anos. Ambos estão em pé, tocando violões coloridos feitos de papelão. As duas crianças têm implantes cocleares. Crédito: Divulgação / Instituto Escuta.

Descrição da imagem #pracegover: Foto de Rafaela Cristina da Silva, de 7 anos, e José Victor Ribeiro Cruz, de 8 anos. Ambos estão em pé, tocando violões coloridos feitos de papelão. As duas crianças têm implantes cocleares. Crédito: Divulgação / Instituto Escuta.


José Victor Ribeiro Cruz, de 8 anos, que usa implante coclear unilateral, também foi bastante afetado pelas medidas de isolamento. O acompanhamento presencial, como parte da rotina diária, era primordial para o progresso no aprendizado.

“O Victor não quer mais fazer as atividades propostas, só pensa em ficar no celular. Eu tento colocar algumas regras e limites, mas ele perdeu a noção. Além disso, ele não faz ações básicas que já sabia antes, como se comunicar em Libras e chamar pelo meu nome. Parece que ele parou no tempo”, diz Maria do Rosário da Silva Cruz, mãe de José Victor.

Segundo ela, a convivência exclusivamente em casa, onde nem todos conseguem se comunicar com ele, provocou retrocesso na interação do menino com as pessoas ao redor.


Cartaz do simpósio 'Surdez e Escuta'. Clique na imagem para fazer inscrição no evento. Crédito: Reprodução.

Descrição da imagem #pracegover: Cartaz do simpósio ‘Surdez e Escuta’. Clique na imagem para fazer inscrição no evento. Crédito: Reprodução.


“Uma criança que não recebe estímulos consistentes e frequentes para se comunicar acaba se isolando completamente ou apresenta atraso no desenvolvimento da linguagem, seja qual for a modalidade utilizada, oral ou sinalizada”, esclarece Mariana Guedes.

“Além disso, com o uso obrigatório de máscaras, o canal de comunicação se tornou cada vez mais difícil e algumas práticas precisaram ser adaptadas. Com a pandemia, as técnicas e meios utilizados nos programas de reabilitação auditiva precisaram mudar. Sessões online interromperam o vínculo presencial, a comunicação com a pessoa que tem deficiência auditiva se tornou mais difícil e nem todas as famílias conseguiram se adaptar”, diz a consultora do Instituto Escuta.

“O acompanhamento social e extra familiar é importante para esse grupo, principalmente em período de vulnerabilidade, mas nem todas as famílias têm acesso a esses recursos. Quem depende de benefícios do governo, por exemplo, muitas vezes não tem continuidade das consultas pela internet, não desenvolve as atividades de estimulação de linguagem e fala. Isso causa um déficit de aprendizado que, futuramente, irá impactar no seu progresso”, completa a fonoaudióloga.

O tema será debatido no ‘Surdez e Escuta: simpósio internacional multidisciplinar sobre surdez na infância’ entre os dias 30/11 e 4/12.


REPORTAGEM COMPLETA EM LIBRAS (EM GRAVAÇÃO)
Vídeo produzido pela Helpvox com a versão da reportagem na Língua Brasileira de Sinais.


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