Para conhecer a exclusão, basta quebrar o pé

Para conhecer a exclusão, basta quebrar o pé

Em 45 dias de reabilitação, após romper ligamentos do tornozelo, a jornalista Raquel Mello, uma pessoa sem deficiência, vivenciou a discriminação, o desrespeito e os problemas de acessibilidade que pessoas com deficiência enfrentam todos os dias. Situações que mostram como as barreiras da sociedade, a falta de empatia e de conhecimento, e não as deficiências, impossibilitam a autonomia e roubam a cidadania.

Luiz Alexandre Souza Ventura

18 de setembro de 2019 | 16h15


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Descrição da imagem #pracegover: Foto dupla. No lado esquerdo, uma bota imobilizadora e duas muletas. No lado direito, a jornalista Raquel Melo, que tem 40 anos, é branca, usa óculos de aros marrons, veste um casaco e um gorro, ambos de cor cinza. Ela está sorrindo e olhando para a câmera. Ao seu lado, o cachorro Elvis, da raça Border Collie, que tem pelagem preta e branca. Crédito: Arquivo Pessoal / Raquel Melo.


A reabilitação ainda não terminou, mas a jornalista Raquel Melo, de 40 anos, já consegue apoiar os dois pés no chão e não precisa mais das muletas que a ajudaram durante três semanas. Em agosto, ela torceu o tornozelo direito, o que provocou o rompimento total de dois ligamentos.

O acidente aconteceu durante um passeio com o cachorro Elvis, da raça Border Collie, que tem cinco anos, no bairro da Aclimação, na região central de São Paulo, onde a jornalista vive com a esposa, que também se chama Raquel. Elas estão juntas há 13 anos.

“Uma mulher estava resgatando um cachorro muito grande, sem raça definida, que já estava na guia, mas ela soltou a coleira e ele veio para cima de nós, pulou direto no pescoço do Elvis”, conta Raquel. “Para conseguir separar, tive que agarrar o outro cão e acabei me machucando. A sorte é que havia um pessoal da limpeza da cidade bem perto de nós e eles me ajudaram. Felizmente, o Elvis só machucou o focinho e está bem”, narra a jornalista.

Logo após o acidente, sem plano de saúde no momento, ela optou por atendimento em hospital particular, mas os valores impediram a continuação do tratamento naquela unidade de saúde.

“Fomos a uma clínica de preços populares, passei por consulta com um ortopedista, que pediu uma ressonância magnética. O equipamento fica no terceiro andar do prédio, mas o elevador estava quebrado, segundo funcionários da clínica, há um bom tempo”, relata a jornalista, que subiu os três andares pela escada, sem colocar o pé direito no chão e usando muletas.


Descrição da imagem #pracegover: A jornalista Raquel Melo, que tem 40 anos, é branca, usa óculos escuros, veste uma camisa de com vinho e um lenço na cabeça. Ela está sorrindo e olhando para a câmera. Ao seu lado, o cachorro Elvis, da raça Border Collie, que tem pelagem preta e branca. Crédito: Arquivo Pessoal / Raquel Melo.


Durante o período de uso das muletas, além das visitas ao médico, Raquel esteve em duas entrevistas de emprego e conheceu a suposta acessibilidade das construções chamadas de ‘modernas’ na cidade de São Paulo.

“Uma das entrevistas foi marcada em um prédio comercial na Vila Madalena. Os elevadores ficam no piso acima da recepção. Então, você tem de subir uma escada. O edifício tem elevador acessível para chegar nesses outros elevadores, o caminho até ele é enorme, o equipamento fica trancado e só pode ser aberto por um funcionário, que não estava lá naquele momento”, diz.

TRANSPORTE – Outra experiência da jornalista no período de reabilitação evidencia a falta de preparo de motoristas de aplicativos. O #blogVencerLimites já contou história semelhante na matéria ‘Quando uma idosa cadeirante chama o Uber’, publicada em janeiro deste ano.

“Não tem nenhum treinamento para os motoristas receberem clientes com restrições de mobilidade. Eu ainda estava com as muletas, mas o carro parava e o condutor sequer perguntava se eu precisava de ajuda, nem se mexia”, comenta Raquel.

“Decidi mudar para outro aplicativo de atendimento específico para mulheres, imaginando que haveria alguma sororidade, mas a motorista se recusou a fazer uma corrida com espera porque, segundo ela, eu iria prejudicá-la. Eu ainda estava com as muletas, tive que descer do carro e pedir outro”.

EMPATIA – “Já quebrei o pé antes, mas era jovem e não fiz essa observação. Apenas seguia em frente nas condições que encontrava. São situações que pessoas com deficiência permanente vivenciam todos os dias. É muito cruel essa falta de solidariedade e também essa incapacidade das empresas para acolher quem tem uma deficiência, mesmo temporária”, avalia a jornalista.

Raquel ainda usa uma bota imobilizadora, mas já consegue caminhar sem as muletas. “Hoje (17/9/2019) participei em uma entrevista perto de casa. E o tratamento foi totalmente diferente, educado e humano. Fiquei em uma cadeira confortável na recepção e quando a pessoa que iria me entrevistar viu que eu estava com o pé imobilizado, ela imediatamente transferiu a reunião para uma sala no andar térreo, ligou o ar-condicionado, preparou as mesas e as cadeiras, foi super acolhedora”, afirma a jornalista.

A diferença entre as situações, destaca Raquel, mostra como pode ser simples receber e acolher pessoas com deficiência. “É uma questão de alteridade. Fui tão bem recebida e bem tratada naquela entrevista que fiquei ainda mais incomodada com o desrespeito e o despreparo que encontrei antes”.



Raquel Melo teve o primeiro contato com o universo das pessoas com deficiência aos 18 anos, na União e Inclusão em Redes e Rádio (UNIRR), que promove a inclusão de pessoas com deficiência visual. Um dos coordenadores do projeto é o jornalista e radialista Marcus Aurélio de Carvalho.

“Marcus foi a primeira pessoa com deficiência visual severa que eu conheci. Nos tornamos amigos e, tempos depois, trabalhamos juntos na Rádio Globo. A experiência com ele e com a UNIRR foi fundamental para eu compreender os detalhes, saber como abordar uma pessoa cega, como ajudar essa pessoa e se locomover ou a conduzir essa pessoa, e entender como isso afeta a autonomia”, relembra Raquel.

“Também tenho uma amiga que trabalha com audiolivros há mais de 20 anos e eu já participei de alguns projetos com ela”, diz.

A primeira experiência marcante no universo das deficiências físicas, das restrições de mobilidade, Raquel vivenciou foi com a própria mãe. “Ela tem artrite grave e precisou se afastar do trabalho porque sentia dores e começou e ter dificuldades de locomoção, mas não moramos na mesma cidade e eu não conseguia avaliar os reais barreiras que ela enfrentava no dia a dia”.

REALIDADE – As diversas experiências, positivas e negativas, que Raquel Melo conheceu ao longo de sua reabilitação, diz a jornalista, transformaram sua maneira de observar as pessoas com deficiência.

“Fui da autopiedade à indignação sobre como a sociedade trata os idosos, trata gente que usa cadeira de rodas, pessoas que têm deficiência, mas não têm dinheiro para comprar muletas, como eu tive. Um simples movimento, a possibilidade de se deslocar, de ser quem você é, de poder acessar as coisas, de ir ao mercado ou à padaria, ao cinema. Tudo isso é muito grave. O tratamento que recebi na entrevista transferida para a sala no andar térreo foi o ponto de ruptura sobre como o respeito ao outro é fundamental”, completa Raquel.

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