“Para quem sofre a agressão racial, a pancada é sempre contundente”

“Para quem sofre a agressão racial, a pancada é sempre contundente”

José Vicente, reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, fala sobre a importância do 'SOS Racismo', serviço gratuito criado há dois meses que recebe declarações e denúncias, apoia e orienta quem se sente agredido, ofendido ou excluído. "Não falar sobre racismo não faz o racismo desaparecer".

Luiz Alexandre Souza Ventura

05 de maio de 2021 | 14h46

Foto de José Vicente, reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, homem negro, de 61 anos, careca, que veste paletó cinza escuro, camisa branca e gravata rosa. Está em pé, com as mãos cruzadas na frente do corpo, sorri e olha para a câmera. Ao fundo, uma parede branca, cinco bandeiras, uma cortina e fotos. Crédito: Divulgação.

Descrição da imagem #pracegover: Foto de José Vicente, reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, homem negro, de 61 anos, careca, que veste paletó cinza escuro, camisa branca e gravata rosa. Está em pé, com as mãos cruzadas na frente do corpo, sorri e olha para a câmera. Ao fundo, uma parede branca, cinco bandeiras, uma cortina e fotos. Crédito: Divulgação.


Um serviço gratuito da Universidade Zumbi dos Palmares recebe declarações e denúncias de pessoas negras sobre agressão, ofensa, exclusão, desrespeito, desconsideração ou qualquer outra manifestação motivada por preconceito racial.

O ‘SOS Racismo’, criado há dois meses, integrado ao Observatório do Negro, tem psicólogos, psicanalistas e assistentes sociais. Na prática, essa equipe recebe e avalia as declarações, para constatar que se trata, ou não, de um caso comprovado de discriminação.

“Era uma demanda da faculdade, dos professores, dos estudantes, de apoio aos embates raciais, que a pandemia intensificou”, explica o professor José Vicente, reitor da universidade.

“Os alunos pediam suporte. Há relatos de problemas nas relações familiares, de conflitos. E também de desconsideração no mercado de trabalho, de tratamento superficial. Não conseguem emprego”, diz Vicente.

“Para quem sofre a agressão racial, a pancada é sempre contundente, mas existe uma fronteira sinuosa entre o que é ou não racismo. Por isso, precisamos relacionar elementos para comprovar”, esclarace o professor.

A fila de atendimento do SOS Racismo já é longa, mas os atendimentos ainda não foram computados para elaborar uma estatística da quantidade de casos comprovados e, se necessário, encaminhados ao escritório jurídico da faculdade.

“O racismo não está na mesa, não é um tema enfrentado, mas deixar de falar sobre racismo não faz o racismo desaparecer”, afirma o reitor da Universidade Zumbi dos Palmares.

Negro ou preto – O professor José Vicente esclarece que o uso das palavras ‘negro’ e ‘preto’ responde a uma construção técnica.

“No Brasil, temos os pretos e temos a miscigenação, as relações interraciais, as pessoas com pele escura. O racismo em nosso País tem uma conotação particular, não é feito pela hereditariedade, pelo sangue, aqui vale a cor da pele. Por isso, as políticas públicas juntam pretos e pardos, transformam todos em negros”, comenta. “Nos Estados Unidos, isso se estrutura na ancestralidade”, ressalta o professor.

De acordo com os dados oficiais, há 56,1% de pessoas pretas e pardas (negras) na população brasileira. “Negro é o termo oficial, do governo, tem uma conotação positiva, e a lei dos crimes raciais trabalha nessa dimensão. Mas é você quem define a si mesmo, se é negro ou preto”, esclarece José Vicente.

Pesquisa – A Universidade Zumbi dos Palmares e o Ministério Público do Trabalho (MPT) firmaram um acordo de cooperação técnica para produção de estudos sobre discriminação racial no mercado de trabalho. O projeto, diz o professor José Vicente, está no começo e tem a meta de atualizar as informações para revalidar as diretrizes da lei nº 12.711/2012 (cotas nas universidades) e lei nº 12.990/2014 (cotas na administração pública).


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