Pesquisa comprova benefícios da educação inclusiva para todos os alunos

Pesquisa comprova benefícios da educação inclusiva para todos os alunos

Estudo feito a partir de 2010 acompanhou 109 crianças e adolescentes com deficiência atendidos pelo Instituto Jô Clemente que frequentaram escolas regulares. Trabalho mostra diferenças no desenvolvimento dos estudantes incluídos em salas comuns e compara com aqueles isolados nas chamadas salas especiais. Instituição é contrária à proposta do governo Bolsonaro de criar centros para educação de crianças e adolescentes com deficiência. "Isso pode ampliar a exclusão e a segregação porque a socialização é fundamental para a aprendizagem e a conquista da autonomia”, diz supervisora.

Luiz Alexandre Souza Ventura

14 de janeiro de 2020 | 16h59


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Descrição da imagem #pracegover: Dois adolescentes estão em uma sala de aula. Um deles, mais à frente, tem deficiência. Crédito: Divulgação.


“A educação inclusiva só traz ganhos para alunos com e sem deficiência. E esses ganhos são mais relevantes na deficiência intelectual, que enfrenta as maiores barreiras sociais”, afirma Roseli Olher, supervisora do Atendimento Educacional Especializado (AEE) do Instituto Jô Clemente.

O instituto, antiga Apae de São Paulo, acaba de divulgar os resultados de uma pesquisa que começou a ser feita em 2010 e acompanhou a trajetória de 109 estudantes atendidos pelo IJC em escolas regulares de São Paulo. Os dados finalizados agora foram compilados nos últimos três anos.

De acordo com o trabalho desenvolvido pelo Centro de Ensino, Pesquisa e Inovação (CEPI) do Instituto Jô Clemente, crianças e adolescentes que frequentam salas de aula comuns apresentam ganhos em identidade, autonomia, comunicação, linguagem, expressão, relacionamento interpessoal e aprendizagem.

“Esses alunos demonstram e expressam desejos e maior interesse pelas atividades propostas, mostrando-se questionadores em alguns momentos das aulas”, explica Roseli.

“Em relação à independência, são capazes de se locomover pelas dependências das escolas, dirigindo-se ao banheiro, bebedouro, refeitório, servindo-se e alimentando-se adequadamente nos horários de recreio. No que diz respeito à comunicação e expressão, a maioria consegue transmitir suas ideias e se fazer entender por meio de gestos ou imagens, mesmo quando ainda não há comunicação oral”, ressalta a supervisora.

ISOLADOS – A pesquisa também contemplou a análise do desenvolvimento de crianças e adolescentes matriculados em escolas especiais. “Nesses casos, o desenvolvimento não é o mesmo”, comenta a especialista.

Roseli Olher explica que foram identificados poucos avanços quanto à autonomia, aprendizagem e comportamento social. “Os alunos permaneceram com atitudes infantilizadas, comportamentos inadequados, dificuldades para enfrentar e resolver conflitos, vocabulário restrito e fora de contexto quando solicitados para exporem suas ideias e se fazerem entender perante os colegas e adultos, demonstrando pouco interesse e iniciativa frente às propostas apresentadas”, diz.

“Em relação à autonomia e independência, ainda necessitavam de um profissional para acompanhá-los pelas dependências da escola”, destaca Roseli.

RETROCESSO – Em novembro de 2019, o Instituto Jô Clemente participou de uma audiência pública no Congresso Nacional para defender a educação inclusiva e se manifestar contra a proposta do governo Bolsonaro, que pretende alterar a Política Nacional de Educação Especial e criar centros de referência para a educação de crianças e adolescentes com deficiência.

“É um retrocesso. A Lei Brasileira de Inclusão garante o acesso de todas as pessoas com deficiência à educação regular comum”, lembra Roseli. “Essa alteração pode ampliar a exclusão e a segregação. É importante que crianças e adolescentes com deficiência sejam incluídos na sociedade e tudo começa na infância, na idade escolar. Para quem tem algum atraso no desenvolvimento neuropsicomotor ou uma deficiência intelectual, essa importância é ainda maior, porque sabemos que a socialização é fundamental no desenvolvimento, na aprendizagem e na conquista de autonomia”, defende a educadora.

Em 2010, a instituição fechou sua escola especial e passou a oferecer Atendimento Educacional Especializado (AEE) para identificar, elaborar e organizar recursos pedagógicos e de acessibilidade que eliminem as barreiras e garantam a plena participação dos alunos no ensino comum.

Essas práticas são diferentes das realizadas em sala de aula comum, não substituem a escolarização e devem ser aplicadas no contraturno escolar.

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