Pessoas com deficiência estão presas em Kiev

Pessoas com deficiência estão presas em Kiev

Idosa com restrições de mobilidade e sua neta, que é autista, não conseguem descer do sétimo andar até um abrigo na capital da Ucrânia. Família relata explosões em prédio a 200 metros.

Luiz Alexandre Souza Ventura

27 de fevereiro de 2022 | 12h07

Foto de Yulia Klepets com sua mãe e a filha Aryna no apartamento da família em Kiev.

“Houve evacuações, então era uma chance de fugir. Existem trens gratuitos, mas você precisa ir à estação por conta própria”, diz Yulia Klepets. Foto: Reprodução.


Duas mulheres estão entre as muitas pessoas com deficiência que não conseguem fugir dos ataques da Rússia à Ucrânia e permanecem presas nas próprias residências. Em entrevista à jornalista Ivana Kottasova, correspondente da CNN na capital Kiev, a cidadã ucraniana Yulia Klepets conta que ela, sua mãe, de 82 anos, com restrições de mobilidade, e sua filha Aryna, de 25 anos, que é autista, continuam isoladas no apartamento da família, que fica no sétimo andar.

Na manhã deste sábado, 26, um minuto depois que as sirenes tocaram, houve um grande estrondo. Um prédio a 200 metros de sua casa foi atingido, abrindo um grande buraco, de onde surgiram fogo e fumaça. Os detritos voaram ao redor.

Naquele momento, cinco mulheres estavam no apartamento de Yulia, mas sua filha mais nova e uma prima desceram as escadas até um abrigo.

“Minha mãe não anda sozinha e não há como descê-la”, contou Yulia. “Aryna não entende o que está acontecendo e pergunta se haverá ou não mais tremores. Quando houve a explosão, ela ficou em estado de choque e parou de se mexer”, diz.


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A jovem autista pede para ver o mar ou ir até a piscina, o que obriga sua mãe a explicar repetidamente que há uma guerra e elas não podem fazer isso.

Yulia Klepets busca ajuda para sua mãe e para Aryna nos últimos quatro dias. “Liguei para o centro de atendimento de reabilitação e me disseram que as pessoas que não conseguiam se locomover sozinhas precisavam ligar e se registrar para estarem na lista de pessoas que precisam de ajuda com mobilidade”, disse.

“Disseram para ligar no dia seguinte, que me diriam quais documentos precisávamos. Então eles me disseram que podem vir ao meu apartamento e me ajudar a limpar, mas não se ofereceram para levar minha filha. Não sei o que dizer sobre isso”, desabafou.

“Houve evacuações, então era uma chance de fugir. Existem trens gratuitos, mas você precisa ir à estação por conta própria”, esclareceu Yulia Klepets.


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