“Pessoas com deficiência não podem aceitar que suas conquistas sejam derrubadas”

“Pessoas com deficiência não podem aceitar que suas conquistas sejam derrubadas”

O #blogVencerLimites publica até o dia 31 de dezembro uma série de artigos exclusivos, escritos por convidados, sobre as expectativas para o ano de 2021. Leia o texto de Rodrigo Rosso, diretor do Sistema Reação.

Luiz Alexandre Souza Ventura

27 de dezembro de 2020 | 10h59

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Foto de Rodrigo Rosso, homem branco, calvo, de cabelos castanhos. Está sorrindo e olhando para a câmera. Veste camisa preta. Crédito: Divulgação.

Descrição da imagem #pracegover: Foto de Rodrigo Rosso, homem branco, calvo, de cabelos castanhos. Está sorrindo e olhando para a câmera. Veste camisa preta. Crédito: Divulgação.


Artigo de Rodrigo Rosso*

Se no Natal de 2019 ou nas comemorações da virada do ano, alguém me dissesse que iríamos viver tudo que vivemos, e ainda estamos vivendo em 2020, juro que não acreditaria. Pior, acho que desdenharia do maluco visionário pessimista que me contasse. E tenho certeza que todos nós teríamos essa mesma reação. Até porque, depois dos últimos anos difíceis que o Brasil viveu e um 2019 de tantas incertezas, 2020 estava chegando com tantas esperanças, planos, sonhos, perspectivas de uma retomada econômica, política e social, que certamente refletiriam em nossas vidas.

Só que não.

Os primeiros dias do ano de 2020 pareciam anunciar uma renovação, mas logo após o Carnaval veio o banho de água fria e vimos tudo ir pelo ralo. O mundo virou de pernas para o ar. E o Brasil, nem se fala. Um inimigo oculto, desconhecido, invisível, perigoso e assassino. Apesar das nossas autoridades, ou boa parte delas, já saberem do que viria, nós ‘simples mortais’ só então conhecemos o tal ‘novo cornavírus’.

Começava em março um pesadelo na vida de todos nós. Um cenário de guerra: presos dentro de casa, meses de comércio fechado, população usando máscara como se fossemos bandidos ou vilões, álcool em gel, milhares de pessoas se infectando e morrendo.

A imprensa terrorista se aproveitando do apocalipse instaurado no planeta em busca de mais audiência, causando pânico generalizado na população que, perdida, não sabe em quem ou no que acreditar. Afinal, o vírus mata, é perigoso, traiçoeiro, implacável e que pode deixar sequelas

No Brasil em especial, temos outros vírus que matam tanto quanto ou mais do que o coronavírus, e que já estavam aqui desde sempre, só que agora, com a covid-19, eles aproveitaram a “carona” para mostrar suas garras com ainda mais voracidade. Estou falando do vírus da falta de ética, da corrupção, do oportunismo, do toma lá dá cá, do ganha-ganha, o vírus da falta de brasilidade, falta de amor ao próximo e do respeito. Sem falar no vírus da discórdia, do pânico e o do sensacionalismo. 

Desvendamos, a cada dia, com a chegada da covid-19, outro vírus que todos conhecíamos, mas que agora ficou ainda mais evidente também: o da política suja. Esse ainda é, na minha opinião, o pior deles, pois alimenta todos os outros que já mencionei aqui. 

Percebem como vivemos num País doente? É uma pena, pois temos potencial para a liderança mundial e não para comer as migalhas que caem fora do prato, não fosse a ganância e falta de vergonha na cara de boa parte daqueles que nós mesmos elegemos para nos representar em todas as esferas do poder.

Com a chegada do coronavírus, as máscaras de muitos caíram e estão caindo todos os dias. Ficamos confinados em casa, com tempo de sobra para ver, ouvir e refletir melhor. Estamos separando o joio do trigo na classe política, nossos governantes, líderes religiosos, artistas, STF, imprensa e até mesmo dentro de nossas famílias e em nossos grupos de amigos pessoais e colegas de trabalho.

Vocês conseguem notar que estamos passando por um tempo de depuração? Depuração pessoal, social e econômica. Até por uma depuração moral. Sim, por que não? Muitos de nós estamos refletindo e mudando até mesmo nossos valores. Estamos tendo essa sagrada oportunidade divina de nos reinventar.

Estamos enxergando e aproveitando isso? Garanto que muitos de nós sim, porém, infelizmente, boa parte ainda não se deu conta e vem encarando esses dias como se não houvesse amanhã. Continuam arrogantes, fúteis, desprezando a família e os outros à sua volta. Encaram a pandemia e o confinamento como férias, mesa farta, bebedeiras, diversão e, repito, sem pensar nas consequências e no amanhã. É triste, mas isso retrata o caos da decadência humana e principalmente, de um País que tinha tudo para ser o melhor, no entanto, pelo comportamento de boa parte do seu povo e governantes, amarga a fome, a violência, incertezas e outras tantas mazelas. 

Tivemos eleições em todo o País. E o que fizemos? Na maioria das vezes, elegemos os mesmos que já estão lá tirando proveito, em muitos casos, de toda essa nossa fragilidade, em benefício próprio. Nós votamos neles, de novo. Reclamar do que, para quem?

Agora, a expectativa de todos nesse final de 2020, que parece que poderia nem ter existido, é a chegada da vacina. Mas que vacina? Qual usar? Qual está testada e realmente aprovada? Quais serão seus efeitos colaterais? Será que devemos ou não nos vacinar? Qual sua real eficácia? Existe um planejamento dos governos federal, estaduais ou municipais para que a população seja imunizada? Quem será vacinado primeiro? E as pessoas com deficiência, como ficam? Essas perguntas não têm respostas e acho que nunca terão. Politizaram o vírus, a doença, as mortes e agora, as vacinas. Quais serão os reais interesses por de trás das vacinas?

E no meio de tudo isso, as pessoas com deficiência, em 2020, ainda passaram por outros problemas no meio da fumaça da covid-19. Tivemos suadas conquistas sendo retiradas e outras correndo riscos muito grandes, direitos tomados, muita gente prejudicada, isenções, benefícios, educação inclusiva, acessibilidade, atendimento prioritário, inclusive na vacinação contra a covid-19.

Será que as pessoas com deficiência incomodam tanto assim nossos governantes ou eles são simplesmente insensíveis e mal informados?

Diante desse cenário caótico, o que esperar de 2021? Ouvimos promessas vazias a todo momento, aberrações e decisões esdrúxulas também. Como ser otimista? Temos que ter fé, manter nossas esperanças em um ano melhor, trabalhar e batalhar pelos nossos direitos e nunca, jamais, esquecendo dos nossos deveres como seres humanos e cidadãos, ajudando a construir uma nação melhor, com princípios morais e éticos.  

Vamos deixar um legado para as próximas gerações. Afinal, como acham que vão contar esse período da nossa história nas escolas para nossos filhos, netos? Existirão escolas no futuro? Como serão ? Não importa.

Nossa parte temos que fazer hoje e agora. Temos que nos impor como brasileiros, pessoas com deficiência ou não. Ir à luta. Não aceitarmos calados tudo de errado que nos é imposto de cima para baixo. Não podemos compactuar com essa inversão de valores políticos, éticos e morais pela qual estamos passando. O poder é do povo. A decisão tem que ser nossa.

No Brasil, somos mais de 200 milhões de pessoas, 46 milhões com algum tipo de deficiência, que comem, bebem, trabalham, produzem, pagam impostos, consomem. Merecemos ser respeitados e devemos nos dar ao respeito, buscando nos impor, colocando para fora nossos desejos, nossas necessidades e exigindo tratamento digno e não assistencialismo. Chega de aceitação, basta de capacitismo.

Aprendemos muito nesses últimos meses. Temos uma grande oportunidade dada pelo vírus. Temos que ser e fazer diferente daqui para frente.

Fiquem com Deus e feliz recomeço a todos

*Rodrigo Rosso é diretor e editor do Sistema Reação, formado pela Revista Reação e a TV Reação, criador da Reatech (Feira Internacional de Tecnologias em Reabilitação, Inclusão e Acessibilidade), ex-presidente da Abridef (Associação Brasileira da Indústria, Comércio e Serviços de Tecnologia Assistiva), promotor e organizador da Mobility & Show (Exposição de Automóveis, Veículos e Adaptações, Equipamentos e Serviços para Pessoas com Deficiência e Familiares, Idosos e Pessoas com Mobilidade Reduzida e Sequelas Motoras).


REPORTAGEM COMPLETA EM LIBRAS (EM GRAVAÇÃO)
Vídeo produzido pela Helpvox com a versão da reportagem na Língua Brasileira de Sinais.


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