Pessoas com Síndrome de Down podem competir nos Jogos Paralímpicos?

Pessoas com Síndrome de Down podem competir nos Jogos Paralímpicos?

A resposta é sim, em todas as modalidades, mas em apenas uma categoria, para pessoas com deficiência intelectual. Especialistas defendem uma mudança nessa classificação para criar competições mais justas e equilibradas.

Luiz Alexandre Souza Ventura

13 Outubro 2016 | 09h50

Um comentário feito pelo presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro, Andrew Parsons, durante entrevista ao vivo no programa Roda Viva, da TV Cultura, no último dia 26 de setembro, gerou um debate na internet sobre a participação de pessoas com Síndrome de Down nos Jogos Paralímpicos.

“Pessoas com Síndrome de Down podem participar dos Jogos Paralímpicos, mas eles estão enquadrados na classificação para pessoas com deficiência intelectual, e existem algumas características que afastam pessoas com Down do esporte de alto rendimento. Elas raramente disputam uma paralimpíada. Mas o nosso calendário nacional tem centenas”, disse Parsons.

O comentário do presidente do CPB tem base em condições físicas de pessoas com Síndrome de Down que são bastante conhecidas, mas que atingem cada indivíduo de uma forma distinta, como frouxidão ligamentar, hipotonia muscular (flacidez), instabilidade atlanto-axial (movimento maior do que o usual entre a primeira e a segunda vértebra do pescoço), entre outras.

Para entender melhor esse assunto, o #blogVencerLimites conversou com Ciro Winckler, coordenador de projetos de alto rendimento do Comitê Paralímpico Brasileiro. Segundo ele, o modelo paralímpico atual tem somente uma classe para todos os atletas com deficiência intelectual, inclusive pessoas com Síndrome de Down, em todas as modalidades, com base na funcionalidade das respostas cognitivas.

“A deficiência intelectual não tem relação direta com a perda muscular, cardiorespiratória ou qualquer outra variável. Pode haver essa perda (muscular) porque ela não foi estimulada ao longo da vida, porque o ambiente não é favorável ou porque o educador físico não conseguiu criar esse ambiente favorável. Essa pessoa tem a limitação biológica somente no aprendizado, mas não muscular”, diz Winckler.

O coordenador explica que as características citadas por Andrew Parsons, por causa da limitação a somente uma classe, desequilibram as competições. “Quando todas as pessoas com deficiência intelectual estão no mesmo grupo, a pessoa com Síndrome de Down já chega com desvantagem”, afirma.

Na avaliação de Ciro Winckler, é necessário criar classes diferentes para pessoas com deficiência intelectual e pensar nas respostas motoras. “Existem muitos eventos de esportes adaptados em todo o mundo. A participação nos Jogos Paralímpicos obedece a critérios, porque não é uma competição apenas de inclusão, precisa haver resultado. As Olímpíadas Especiais, por exemplo, têm uma característica principal de inclusão, de participação, na qual os atletas competem entre si, com o mesmo nível de funcionalidade”, explica.

“Pessoas com Síndrome de Down têm sim a possibilidade de entrar nesse modelo de resultado, mas é necessário reavaliar a classificação da deficiência intelectual e colocar na pauta a performance física, para abrir novas classes. Eu não considero correto a abertura de uma classe específica para Síndrome de Down porque isso representaria a exclusão de outras pessoas”, pondera o coordenador.

A criação de uma nova classe de esporte paralímpico considera quem é elegível para competir (com base em critérios como a impossibilidade de competir no esporte olímpico por causa da perda de funcionalidade de movimentos), subdividindo esse grupo em classes. Existe base científica nesse processo, mas ainda é necessário evoluir.

“Toda atividade física envolve limitações. Uma pessoa com diabetes, por exemplo, tem problemas de irrigação sanguínea e, por isso, corre maiores riscos de sofrer hemorragias. E se essa pessoa levar uma bolada no olho, a possibilidade da visão ser prejudicada é muito maior”, comenta Winckler.

“Algumas condições provocadas pela Síndrome de Down podem levar a lesões. A froxidão ligamentar, associada à hipotonia muscular, pode limitar o treinamento de força na sala de musculação, na busca pela carga máxima, por causa do risco real de uma luxação. Neste caso, há necessidade de acompanhamento multidisciplinar. Outro detalhe, também associado a essas condições citadas, é a instabilidade atlanto-axial. A menor capacidade de contração da fibra muscular afeta inclusive o coração, que pode ter menor eficiência”, diz.

Ciro Winckler afirma ser fundamental entender as diferenças entre os atletas adaptados para que seja possível potencializar suas capacidades e conduzir essas pessoas às competições paralímpicas. “A busca pela igualdade deve considerar sempre as diferenças”.

Equestre – Uma modalidade bastante praticada por pessoas com Síndrome de Down é a equoterapia, mas essa atividade de tratamento, de terapia, está muito distante da prática esportiva de competição.

“Muitas pessoas pensam que a terapia entra em competição, mas não é assim que funciona. Não existe competição equestre para pessoas com deficiência que não seja paraequestre”, diz a fisioterapeuta, psicóloga, professora de equitação e única classificadora funcional paraequestre na América do Sul pela Federação Equestre Internacional, Gabrielle Brigitte Walter.

“Há uma tentativa de introduzir competições específicas dessa modalidade que não sejam paraequestres, mas não há obediência a regras, a critérios. É preciso que isso seja feito da forma adequada, com técnica”, defende a especialista.

A classificação paraequestre tem 46 perfis funcionais, divididos em categorias, considerando diferentes níveis de deficiência física. Segundo a fisioterapeuta, muitas pessoas envolvidas no universo da Síndrome de Down querem incluir atletas com Down em competições paraequestras, mas esses atletas não têm a performance exigida.

“Há pessoas com deficiência que sabem montar a cavalo, como atividade de lazer, que são incluídas em provas com juízes sem habilitação para competições paraequestres, e acabam ‘vencendo’ essas provas, mas eu não creio que isso seja adequado, porque há a impressão que ela, de fato, está ganhando. É uma ilusão”, diz. “Pessoas com deficiência não são coitadinhas. E trabalhar o coitadismo dentro das competições é muito perigoso”, defende Gabrielle Walter.

A classificadora destaca que frouxidão ligamentar, hipotonia muscular e instabilidade atlanto-axial não estão presentes em todas as pessoas com Down. “No que diz respeito ao esporte paraequestre, após uma avaliação clínica, na qual ficou constatado que o atleta com Down não tem problema cardíaco e lassidão articular, ficamos somente com a deficiência intelectual. Neste caso, não há restrição para a prática da equitação, mas em uma categoria que tem exigência intelectual acima do que esses atletas (com Down) conseguem fazer”, explica a classificadora.

“Não há como criar uma graduação para separar quem tem maior ou menor deficiência intelectual. Isso não é linear. Até mesmo atletas com deficiência cognitiva mínima não conseguem executar as tarefas exigidas pela categoria paraequestre da qual eles fazem parte. Por isso, esse tipo de competição não é justa”, diz.

A criação de diferentes classes para atletas com deficiência intelectual, afirma Gabrielle Walter, demanda tempo e precisa considerar muitos detalhes. “Não se trata apenas de montar uma tabela, o que já é algo complicado. É preciso ter base em teste aprovados internacionalmente, comprovados, e criar essa tabela de uma forma que ela seja funcional para competições durante muitos anos seguidos”, ressalta a psicóloga. “Não é impossível, mas precisaríamos encontrar alguém disposto a fazer uma pesquisa mundial sobre a deficiência intelectual para criar esses testes”, destaca a classificadora.

Claudio Aleoni Arruda, de 31 anos, trabalha como destrador no Pôney Clube Brasil, na Sociedade Hípica Paulista. Começou a montar aos cinco anos na fazenda do avô, em Minas Gerais, e entrou para a escola de equitação aos 15. Entre os títulos que acumula está o de vice-campeão paulista das Escolas de Equitação e Vice-Campeão da Regional Metropolitana, ambos na categoria Preliminar (0,60 cm).

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