“Práticas de educação inclusiva têm surgido em todo o País”

“Práticas de educação inclusiva têm surgido em todo o País”

Rodrigo Hübner Mendes é um dos maiores especialistas em diversidade humana no País. Tetraplégico desde a juventude, é professor da FGV e idealizador de um instituto que oferece oportunidades reais a pessoas com deficiência. Em entrevista ao #blogVencerLimites, ele fala sobre acesso à educação, o trabalho da imprensa, as leis que defendem o cidadão com deficiência e sobre como é possível melhorar esse cenário no Brasil.

Luiz Alexandre Souza Ventura

07 Novembro 2017 | 08h22

“Proponho pensarmos na ideia de superação coletiva para o enfrentamento das barreiras ainda existentes na sociedade.”, diz Rodrigo Hübner Mendes. Foto: Divulgação / Leo Muniz


“Constituir redes de ensino inclusivas não é um desafio exclusivo do Brasil. Os países mais desenvolvidos enfrentam ainda dificuldades nesse processo, contexto que gera uma enorme oportunidade para estabelecer redes internacionais de cooperação e construção de conhecimento sobre o horizonte de uma escola para todos”, diz Rodrigo Hübner Mendes, idealizador do Instituto Rodrigo Mendes, professor da Fundação Getúlio Vargas e um dos maiores especialistas em diversidade humana no País.

Em entrevista ao #blogVencerLimites, Mendes fala sobre as principais barreiras para o acesso da pessoa com deficiência à educação no Brasil, o mercado de trabalho, as funções do Estado e do setor privado na educação e capacitação do cidadão com deficiência, analisa o trabalho da imprensa e destaca ainda as contribuições da Lei Brasileira de Inclusão.


Conversa com Bial – Rodrigo Hübner Mendes

Assista a entrevista completa de Rodrigo Hübner Mendes no programa Conversa com Bial! Além de contar a sua história, Rodrigo fala do Instituto Rodrigo Mendes, a importância da mudança de olhar e atitude com relação à inclusão e como a tecnologia pode auxiliar as pessoas com deficiência, como na campanha #MovidoARespeito, realizada em parceria com a Rede Globo.#PraCegoVer Rodrigo Mendes ao ladro de Pedro Bial no cenário do programa, ao fundo banda musical

Publicado por Instituto Rodrigo Mendes em Sexta, 4 de agosto de 2017


#blogVencerLimites – Especificamente sobre o acesso de pessoas com deficiência à educação, o que existe de positivo no Brasil para servir de exemplo a outros países?

Rodrigo Hübner Mendes – Primeiro, o significativo crescimento de 71% das matrículas de estudantes com deficiência na educação básica, no período de 2004 a 2016. Segundo, a expressiva marca de 81% de matrículas realizadas em ambientes inclusivos.

Este último registro contrapõe o contexto de predominância de matrículas em ambientes segregados que foi uma realidade ao longo da história.

Além disso, práticas educacionais inclusivas, merecedoras de reconhecimento público por sua consistência, têm surgido em todas as regiões brasileiras. São frutos de investimentos e avanços em um amplo conjunto de dimensões fundamentais, que envolvem: políticas públicas, gestão escolar, parcerias, famílias e estratégias pedagógicas.

Ao longo dos últimos anos, o Instituto Rodrigo Mendes construiu um amplo acervo de referências sobre boas práticas nesse campo, disponibilizado pelo portal DIVERSA.

Para isso, visitamos pessoalmente experiências inovadoras que servem de exemplo sobre como criarmos caminhos para o acolhimento das crianças e adolescentes com deficiência em escolas comuns. Recomendo ao leitor visitar as seções ‘estudos de caso’ e ‘relatos de experiência’ da biblioteca do portal.

#blogVencerLimites – Quais modelos internacionais podemos usar para aprimorar nossa realidade?

Rodrigo Hübner Mendes – Produzimos documentários sobre projetos exitosos de educação inclusiva nos Estados Unidos, na França, na Dinamarca e na Argentina (conteúdos também disponíveis no DIVERSA).

Cabe salientar que o desafio de constituir redes de ensino inclusivas não é exclusividade do Brasil. Mesmo os países mais desenvolvidos enfrentam ainda dificuldades nesse processo. Acredito que esse contexto gera uma enorme oportunidade para estabelecermos redes internacionais de cooperação para a construção de conhecimento sobre nosso horizonte de uma escola para todos.


Em setembro, Rodrigo Hübner Mendes foi homenageado pela BrazilFoundation em Nova Iorque (EUA). Imagem: Reprodução / Facebook.com/InstitutoRodrigoMendes

Em setembro, Rodrigo Hübner Mendes foi homenageado pela BrazilFoundation em Nova Iorque (EUA). Imagem: Reprodução / Facebook.com/InstitutoRodrigoMendes


#blogVencerLimites – Qual sua opinião sobre a contribuição, ou não, da Lei Brasileira de Inclusão para o acesso da pessoa com deficiência à educação?

Rodrigo Hübner Mendes – A LBI deve ser celebrada como um marco na garantia de direitos das pessoas com deficiência. Dentre eles, merece destaque o direito à educação em sistemas de ensino inclusivos. Essa lei reflete as diretrizes e preceitos da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência publicada pela ONU, considerado o principal documento internacional sobre o tema e assinado por mais de 100 países.

#blogVencerLimites – Quais as principais barreiras para o acesso da pessoa com deficiência à educação no Brasil, em todos os níveis de ensino, desde a pré-escola até a faculdade?

Rodrigo Hübner Mendes – O principal desafio está na visão conservadora e homogeneizadora de educação ainda predominante nas redes de ensino.

Ainda não faz parte do senso comum o entendimento de que a deficiência é resultante de uma combinação de dois fatores: as particularidades de uma pessoa (de ordem física, sensorial e intelectual) e as barreiras existentes na sociedade.

A eliminação dessas barreiras é condição indispensável para que se promova a equiparação de oportunidades e a igualdade de direitos.

Ao visualizar a educação inclusiva não só como uma obrigação, mas como uma oportunidade, espera-se que a escola, tanto pública quanto privada, canalize seus esforços para identificar e eliminar barreiras que transpassam o ambiente físico e a atitude dos profissionais.

Dentre elas, a insegurança de alguns educadores, que pode ser desconstruída por meio do investimento em formação continuada; a desintegração entre a equipe pedagógica e especialistas, que pode ser resolvida com uma dinâmica interdisciplinar de trabalho; e as barreiras relacionadas à atitude de toda comunidade escolar, que podem ser suprimidas por meio de espaços de diálogo e de reflexão.

Também são necessárias a construção de uma rede fortalecida de professores do Atendimento Educacional Especializado (AEE) e a garantia de acessibilidade dos materiais didáticos, meios de transporte, espaços físicos, etc.

#blogVencerLimites – Houve evolução no século 21?

Rodrigo Hübner Mendes – Tivemos extraordinários avanços, tanto no campo dos direitos humanos, como no próprio âmbito da pedagogia, que favoreceram a participação de todos no ambiente escolar.

Basta pensarmos que, até pouco tempo, as únicas opções para uma criança com deficiência eram a escola especial ou a absoluta exclusão. Mesmo reconhecendo os obstáculos que ainda temos pela frente, podemos dizer que vivemos numa nova era em relação à essa temática.



#blogVencerLimites – A grande imprensa ainda mantém vícios em reportagens sobre pessoas com deficiência, principalmente o tal ‘exemplo de superação’ quando essas pessoas conquistam sucesso em suas áreas de atuação, sem destacar os detalhes da vida dessas pessoas, e sem considerar as oportunidades que tiveram. Qual a sua opinião sobre esse cenário e sobre como essa mensagem pode afetar a autoestima das pessoas com deficiência que não tiveram as mesmas oportunidades?

Rodrigo Hübner Mendes – Recentemente escrevi um artigo sobre essa tradicional abordagem da mídia, que conecta todo exemplo ou história de pessoas com deficiência à superação individual.

Na minha opinião, essa visão se contenta com a participação parcial e pontual das pessoas com deficiência. Isso ocorre com frequência, por exemplo, em matérias sobre esporte e novas tecnologias. Essas áreas trouxeram ótimas soluções, que aparentam não requerer mudanças no restante da sociedade.

A consequência negativa é uma ilusória percepção de que nós, como sociedade, já podemos nos acomodar e omitir nossa parcela de responsabilidade. Ou, ainda, esquecer do fato de que vivemos numa sociedade imersa na desigualdade de oportunidades. Isso afeta a todas as pessoas, com ou sem deficiência.

Uma visão mais ambiciosa, menos paternalista, pressupõe a percepção de que é insuficiente o foco exclusivo na superação de quem está de fora, excluído. Um horizonte realmente democrático só poderá ser tocado na medida em que todos se enxergarem implicados no complexo processo de incluir.

Proponho pensarmos na ideia de superação coletiva para o enfrentamento das barreiras ainda existentes na sociedade. A começar pela mudança no olhar expresso pela mídia.


6 anos do DIVERSA | Educação inclusiva na prática

Hoje é aniversário do Projeto DIVERSA! o/Como construir uma escola inclusiva? Por onde começar? Para comemorar seus seis anos, a plataforma quer ajudar seus usuários a construir redes de ensino e escolas cada vez mais inclusivas.Neste período mais de 750 mil pessoas já caminharam com a gente para a transformação da escola em um lugar de fato inclusivo. Compartilhamos práticas, artigos de especialistas e documentários que mostram a educação inclusiva no Brasil e no mundo.No último ano, os 5.200 membros da Comunidade DIVERSA promoveram dezenas de discussões sobre autismo, legislação, educação física inclusiva, educação bilíngue, deficiência intelectual, adequações curriculares e serviços de apoio.Faça parte dessa jornada você também!diversa.org.br

Publicado por Projeto DIVERSA em Quarta-feira, 4 de outubro de 2017


#blogVencerLimites – Empresas têm afirmado que o mercado corporativo está assumindo a função do Estado na formação de pessoa com deficiência por causa da lei de cotas e também pela baixa qualificação desses profissionais, destacando a falta de acesso à educação. Qual a sua avaliação?

Rodrigo Hübner Mendes – A meta 4 do Plano Nacional de Educação visa universalizar o acesso à educação básica para as pessoas com deficiência que estejam na faixa etária entre 4 e 17 anos.

Essa ambição reflete o avançado arcabouço jurídico que construímos no Brasil nas últimas décadas. Nesse sentido, precisamos ter a clareza de que ofertar educação gratuita e de qualidade é um dever do Estado.

Isso não deve ser confundido com a relevante contribuição que o setor privado pode propiciar para a formação das pessoas com deficiência. Muitas organizações já investem recursos em cursos técnicos e outras estratégias formativas, visando ampliar a capacitação de seus colaboradores.

Entendo que ações nessa linha fazem parte da consciência de que a construção de um planeta sustentável requer esforços de todos os setores. Não misturemos ‘alhos com bugalhos’.



SAIBA MAIS – Rodrigo Hübner Mendes é tetraplégico desde a juventude por causa de um acidente. Mestre em Gestão da Diversidade Humana pela Fundação Getúlio Vargas, atua na instituição como professor. Foi aluno do curso de Liderança e Políticas Públicas para o século XXI na Kennedy School of Government, Harvard.

Em 2008, foi selecionado pelo Fórum Econômico Mundial para integrar o grupo Jovens Líderes Globais, um programa que reúne líderes com até 40 anos que tenham realizado trabalhos de impacto social relevante. Deste grupo já fizeram parte nomes como Bill Gates e Tony Blair.

Em 2016, foi uma das pessoas convidadas para participar do revezamento da tocha olímpica em São Paulo. Em 2017, é um dos personagens da campanha Respeito, da Rede Globo, e foi um dos três homenageados pela BrazilFoundation em sua 15ª noite de gala, realizada em setembro, nos Estados Unidos.

O Instituto Rodrigo Mendes é uma organização sem fins lucrativos e que tem como missão colaborar para que toda pessoa com deficiência tenha uma educação de qualidade na escola comum. O objetivo principal é fazer parte da construção de uma sociedade inclusiva, que garanta a igualdade de direitos e valorize as diferenças humanas.

Para isso, são desenvolvidos programas de pesquisa, formação continuada e controle social na área da educação inclusiva. Desde 1994, desenvolve programas de educação inclusiva, contabilizando 1.4 milhões de estudantes atendidos e 2.240 professores formados. O projeto Portas Abertas para a Inclusão, curso Ensino Médio Inclusivo e o portal diversa.org.br são três das iniciativas mais importantes do IRM.

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