Projeto de leitura inclusiva da Fundação Dorina é referência internacional

Projeto de leitura inclusiva da Fundação Dorina é referência internacional

'Coleção Regionais' está na final do prêmio ABC International Excellence Award for Accessible Publishing. Programa da instituição brasileira distribuiu no ano passado, gratuitamente, 63 mil livros acessíveis para escolas, bibliotecas e entidades que trabalham pela inclusão no País.

Luiz Alexandre Souza Ventura

15 Março 2018 | 17h33

IMAGEM 01: 'Coleção Regionais' está na final do ABC International Excellence Award for Accessible Publishing. Programa da instituição brasileira distribuiu no ano passado, gratuitamente, 63 mil livros acessíveis para escolas, bibliotecas e entidades que trabalham pela inclusão no País. LEGENDA PARA CEGO VER: Grupo formado por crianças, mulheres e homens exibe diversos exemplares dos livros da Coleção Regionais. Todos estão sorrindo. Ao fundo, uma parede amarela tem o símbolo da Fundação Dorina. Crédito da foto: Reprodução

IMAGEM 01: ‘Coleção Regionais’ está na final do ABC International Excellence Award for Accessible Publishing. Programa da instituição brasileira distribuiu no ano passado, gratuitamente, 63 mil livros acessíveis para escolas, bibliotecas e entidades que trabalham pela inclusão no País. LEGENDA PARA CEGO VER: Grupo formado por crianças, mulheres e homens exibe diversos exemplares dos livros da Coleção Regionais. Todos estão sorrindo. Ao fundo, uma parede amarela tem o símbolo da Fundação Dorina. Crédito da foto: Reprodução


O projeto ‘Coleção Regionais – a cultura brasileira acessível a todos’, organizado pela Fundação Dorina Nowill para Cegos, distribuiu em 2017, gratuitamente, 63 mil livros acessíveis em braile, audiolivros, em formato digital acessível e com fonte ampliada para mais de três mil escolas, bibliotecas e instituições que trabalham pela leitura inclusiva no Brasil.

É uma das mais importantes iniciativas do País para inclusão na educação, com a distribuição de materiais que representam a cultura de cada uma das cinco regiões (culinária, folclore, música, literatura e turismo) e a promoção de rodas de leitura em 20 municípios.

Sua relevância ultrapassou nossas fronteiras, se tornou referência internacional o colocou o projeto entre os finalistas do ABC International Excellence Award for Accessible Publishing, prêmio concedido pelo Accessible Books Consortium (ABC), que reúne organizações representantes de pessoas com deficiência, incluindo ONGs, editoras, bibliotecas, livrarias e outras instituições.

A Fundação Dorina é a única representante brasileira entre os indicados e concorre com programas desenvolvidos na Austrália, Índia e Reino Unido. vencedor será anunciado no dia 10 de abril na Inglaterra, durante a The London Book Fair.


Braile tem base na combinação de seis pontos dispostos em duas colunas e três linhas, o que permite a formação de 63 caracteres. Imagem: Divulgação / Fundação Dorina Nowill

IMAGEM 02: Braile tem base na combinação de seis pontos dispostos em duas colunas e três linhas, o que permite a formação de 63 caracteres. LEGENDA PARA CEGO VER: Duas mãos de uma mulher fazem a leitura de texto em braile impresso em folha de cor branca. Crédito da foto: Divulgação / Fundação Dorina Nowill


“Se os meus olhos não me deixam obter informações sobre homens e eventos, sobre ideias e doutrinas, terei de encontrar uma outra forma”. A frase escrita por Louis Braille em um diário permanece atual. Em sua curta passagem por esse mundo (ele morreu aos 43 anos por causa de uma tuberculose), o professor é lembrado em cada livro, placa, painel e publicação com o sistema de leitura e escrita usado por cegos de todo o planeta.

Em 4 de janeiro é celebrado o Dia Mundial do Braile, referência ao nascimento de seu criador, em 1809 na cidade de Coupvray, na França, há 40 km de Paris. Aos três anos, quando brincava na oficina do pai (Simon-René Braille, fabricante de arreios e selas) o menino machucou o olho esquerdo. A infecção do ferimento alastrou-se, atingiu o olho direito e ele jamais enxergou novamente.

“O braile é fundamental ou indispensável para as crianças que nascem cegas ou perdem a visão na primeira fase da infância. É o único sistema natural de leitura e escrita que permite a representação do alfabeto, além de números e simbologias científica, fonética, musicografia e informática”, diz Regina Oliveira, coordenadora de revisão da Fundação Dorina Nowill para Cegos e membro dos conselhos Mundial e Ibero-americano do Braile.

“Vale lembrar que o braile evolui constantemente. Esse contato com a escrita também permanece em constante evolução. Mesmo com a adoção de smarphones e computadores, o braile ainda é o único meio de leitura e escrita”, comenta. “Pesquisas indicam que informações visuais correspondem a 80% do total recebido por uma pessoa. E o áudio corresponde a apenas 20%. Partindo deste princípio, o braile é o único sistema que ajuda a suprir o acesso da pessoa cega à maioria de informações visuais”, ressalta a especialista.


Regina Oliveira é coordenadora de revisão da Fundação Dorina Nowill para Cegos e membro dos conselhos Mundial e Ibero-americano do Braile. Imagem: Divulgação / Fundação Dorina Nowill

IMAGEM 03: Regina Oliveira é coordenadora de revisão da Fundação Dorina Nowill para Cegos e membro dos conselhos Mundial e Ibero-americano do Braile. LEGENDA PARA CEGO VER: Regina Oliveira acompanha texto impresso em braile. Ela veste camisa de cor clara e usa óculos escuros. Ao fundo, um computador e um fone de ouvido. Crédito da foto: Divulgação / Fundação Dorina Nowill


Regina Oliveira comenta que as novas tecnologias têm ajudado na própria produção em braile, com mais agilidade, quantidade e qualidade. Três páginas de um livro no sistema equivalem a uma página do impresso. Por isso, a produção digital é uma alternativa, com leitura em telas especiais, equipamentos ainda muito caros no Brasil, mas que começam a ser mais comuns e acessíveis em países como Estados Unidos, Espanha e Japão.

“Encontramos uma grande oferta de títulos disponíveis em livros digitais acessíveis. Muita gente que gosta desse formato, que é complementar e amplia o acesso à informação e à cultura. Isso é saudável e deve ser uma escolha individual, não uma imposição por falta de opções”, defende a coordenadora.

“Muita gente reclama da falta de livros em braile. São pessoas que também gostam de ler, de folhear o livro. Defendemos o mesmo direito de uma pessoa que enxerga e pode pegar o livro na mão”, afirma.

NOVOS DESAFIOS – Regina Oliveira destaca como positiva a regulamentação de programas e leis federais, como a Lei Brasileira da Inclusão da Pessoa com Deficiência (nº 13.146/2015), mas ressalta que os desafios passam pela aplicação desse direito na prática.

“Toda criança cega tem de ser alfabetizada e de ter acesso a livros didáticos em braile. Ainda não é a realidade. Pedidos de materiais didáticos em braile chegam nas gráficas perto do início do ano letivo, o que compromete o acesso no primeiro dia de aula”, comenta.

Em restaurantes, explica a coordenadora, a presença de cardápio em braile possibilita a independência. Sinalizações nos museus ajudam a pessoa cega a fazer o passeio, ver e entender a obra livremente. Ter um acompanhante pode impede o aprendizado da grafia de uma determinada palavra ou elimina o contato direto e expressão de uma opinião.

A comunicação em braile confere ainda autonomia para que a pessoa cega possa administrar medicamentos e dosagens recomendados, ou garante privacidade para conferir a fatura de cartão de crédito ou valores cobrados nas contas de água e luz. “Braile vai além dos livros, considera também embalagens, cardápios, catálogos e até sinalizações”, diz.

“Pais de crianças cegas precisam se conscientizar de que, sem o braile, seus filhos serão eternamente analfabetos. Eles até podem crescer falando um português impecável, que aprenderam com os áudios, mas ficam afastados da escrita”, completa Regina Oliveira.


Louis Braille criou o método na França. José Alvares de Azevedo implementou o sistema no Brasil. Imagem: Reprodução

IMAGEM 04: Louis Braille criou o método na França. José Alvares de Azevedo implementou o sistema no Brasil. LEGENDA PARA CEGO VER: Foto dupla. No lado esquerdo, a imagem de Louis Braille e o alfabeto em braile. No lado direito, um busto e uma imagem de José Alvares de Azevedo. Crédito da Foto: Reprodução


Segundo o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem 6.562.910 cidadãos com deficiência visual severa (506.377 cegos e 6.056.533 com baixa visão). O senso também registrou que 29.211.482 têm alguma dificuldade para enxergar. A data ‘8 de abril’ foi estabelecida em 2010 o como ‘Dia Nacional do Braile’ para celebrar o nascimento de José Álvares de Azevedo (1834, no Rio de Janeiro), primeiro professor brasileiro cego que trouxe o método para o País em 1850.

Azevedo, que nasceu cego, é o patrono da educação dos cegos no Brasil. De família abastada – era filho de Manuel Álvares de Azevedo -, foi para a França em 1844, com apenas 10 anos, para estudar no Instituto Real dos Jovens Cegos de Paris (Institut National des Jeunes Aveugles), onde permaneceu por seis anos. Voltou ao Brasil em 1850 com o propósito de difundir o braile e criar uma escola para cegos. Escreveu e publicou artigos sobre as possibilidades e condições de educação para pessoas cegas.



O braile tem base na combinação de seis pontos dispostos em duas colunas e três linhas, permite a formação de 63 caracteres diferentes, que representam as letras do alfabeto, números, simbologia científica, musicográfica, fonética e informática.

Adapta-se à leitura tátil porque os seis pontos em relevo podem ser percebidos pela parte mais sensível do dedo com apenas um toque. A leitura do braile é feita da esquerda para a direita, com uma ou ambas as mãos. Algumas pessoas que conseguem ler até 200 palavras por minuto.

O Sistema Braile obedece a regras internacionais de altura do relevo e de distância entre pontos, entre linhas e entre ‘celas’, que são formadas por duas colunas de três pontos. Há combinações para a representação de letras, números, símbolos científicos, notas musicais, fonética e informática.

Pode ser utilizado por pessoas cegas ou com baixa visão, mas nem toda pessoa cega lê o braile. Cada caractere pode ser percebido com apenas um toque da parte mais sensível do dedo indicador (a polpa). Também pode ser escrito à mão, utilizando uma ferramenta chamada reglete e outra chamada punção, que funcionam como caderno e caneta. A escrita manual deve ser feita da direita para a esquerda para garantir o relevo ao virar o papel que foi puncionado.


Recursos que garantem a performance do trabalhador com deficiência visual não são onerosos. Imagem: Reprodução

IMAGEM 05: Recursos que garantem a performance do trabalhador com deficiência visual não são onerosos. LEGENDA PARA CEGO VER: Homem cego manuseia equipamento para pessoas com deficiência visual enquanto fala ao telefone. Ele veste casaco na cor lilás com camisa de cor rosa por baixo. Está sentado à mesa de trabalho. Crédito da foto: Reprodução


A Lei nº 8.213/1991, que exige entre 1% e 5% de pessoas com deficiência entre funcionários de empresas com 100 empregados ou mais, completou 26 anos em 2017. Símbolo da luta pela inclusão e responsável pelo aumento do conhecimento sobre esse universo no ambiente corporativo, a chamada Lei de Cotas ainda é mal compreendida, principalmente porque quem avalia, de forma equivocada, que ter deficiência é uma vantagem na hora de procurar emprego.

Segundo o Relatório Anual de informações Sociais (Rais), pessoas com deficiência ocupam menos de 1% das vagas formais de emprego no Brasil. Entre aqueles com maior dificuldade para colocação no mercado de trabalho estão as pessoas com deficiência visual, população que, no Brasil, chega a 6,5 milhões de cidadãos, segundo o Censo IBGE 2010.

“É errado pensar que toda pessoa com deficiência visual é cega. Ao contratar um profissional com baixa visão, não se intimide, pergunte sobre a deficiência, como essa pessoa enxerga e de que maneira pode ser auxiliada na rotina de trabalho”, afirma Edson Defendi, coordenador da área de colocação profissional e de garantia de direito ao trabalho da Fundação Dorina Nowill para Cegos, que mantém contato com empresas interessadas na contratação de pessoas com deficiência por suas capacidades e habilidades.

“Há muitas crenças equivocadas, desconhecimento e pouca informação”, comenta Defendi. De acordo com o coordenador, existe um mito de que os recursos acessíveis para garantir a performance do trabalhador com deficiência visual são onerosos. “Muitas tecnologias são gratuitas e imprescindíveis, como softwares de leitura de telas de computadores e celulares. Converse com seu colaborador. É a melhor pessoa para informar sobre necessidades e adaptações”.



Uma crença muito arraigada nas empresas e diz respeito a uma suposta ‘dependência social’, explica Edson Defendi. “A pessoa com deficiência visual, principalmente a cega, desenvolve uma série de estratégias pessoais para conhecer o local e fazer uso dele com segurança e agilidade”.

Uma boa dica, ressalta o coordenador, é descrever de forma sucinta o ambiente, indicando e orientando sobre locais como banheiro, acesso a elevadores, escadas e outros ambientes. A própria pessoa vai aguçar essa percepção e circular de forma independente e autônoma.

“Empresas solicitam estudos de seu ambiente para analisar a acessibilidade e postos de trabalho nos quais a pessoa cega poderá se desenvolver da mesma maneira que uma pessoa sem deficiência. Encaminhamos os candidato com o perfil desenhado pela empresa, com atenção à alta performance. Nossos profissionais são capacitados e sensibilizados para exercer sua função e para que a contratação resulte em ganho para todas as partes”, conclui Edson Defendi.

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