Quando uma idosa cadeirante chama o Uber

Quando uma idosa cadeirante chama o Uber

Situação ocorreu em Santos, no litoral sul de SP. Quatro motoristas, todos da categoria Select, recusaram em sequência o atendimento. Caso mostra que a qualidade do serviço e de seus profissionais ainda está abaixo do necessário.

Luiz Alexandre Souza Ventura

16 Janeiro 2019 | 19h53

IMAGEM 01: Situação ocorreu em Santos, no litoral sul de SP. Quatro motoristas, todos da categoria Select, recusaram em sequência o atendimento. Caso mostra que a qualidade do serviço e de seus profissionais ainda está abaixo do necessário. Descrição #pracegover: Montagem com telas do aplicativo Uber. Crédito: blog Vencer Limites.


Atualizado às 21h20 – Minha sogra tem 74 anos. Após dois AVCs e, mais recentemente, por consequência de uma hidrocefalia, são muitas as suas restrições de mobilidade. Quando é necessário sair de casa, vai sempre na cadeira de rodas. Na tarde desta quarta-feira, 16, o destino era o consultório odontológico.

Em Santos, no litoral sul de SP, onde moramos, a grande quantidade de carros da Uber é uma facilidade. Reflexo do desemprego na Baixada Santista, especialmente após a avalanche de demissões nas indústrias de Cubatão.

Com distâncias curtas, os valores das corridas são baixos, o que torna o serviço uma opção viável ao transporte público. Em nossa cidade, a tarifa de ônibus custa R$ 4,30 e uma corrida com a Uber considerada longa, sem taxa dinâmica, pode chegar a R$ 12 ou R$ 13. Lembrando que são três passageiros.

Estamos bastante habituados e temos um procedimento básico. Chamo o carro, sempre da categoria Select, somente quando já estamos na garagem do prédio e informo ao motorista sobre nossa situação. “Boa tarde, estamos com uma idosa cadeirante. A cadeira é dobrável e vai junto, ok?” é a mensagem de texto já gravada que mando ao motorista.

Foram quatro recusas em sequência.

O primeiro motorista não viu a mensagem e chegou em um sedan JAC J3. Assim que viu minha sogra, perguntou. “A cadeira vai junto?”. Respondi que sim e mostrei a mensagem que eu havia enviado. O motorista disse não ter visto e falou que o porta-malas do carros estava ocupado pelo cilindro de gás. Ele cancelou o pedido e foi embora.

O segundo carro, um Hyundai HB20S, era guiado por uma mulher. Enviei a mensagem de texto. “Não posso transportar a cadeira porque o porta-malas está amassado e não abre“, respondeu a motorista antes de chegar. Sem maiores debates, pedi que fizesse o cancelamento e, para atrapalhar ainda mais, ela finalizou a corrida, o que gerou uma cobrança indevida em minha conta.

Antes de chamar um novo carro, tive que contestar aquela cobrança errada.

Mais uma vez, repeti o procedimento, chamei o Uber Select e enviei a mensagem. Eis que surge, de novo, o motorista do JAC J3 que recusou a primeira corrida, aquele com cilindro de gás no porta-malas. “Você aceitou minha corrida novamente. Por favor, faça o cancelamento”, pedi.

Outro chamado. Surge na tela um Volkswagem Polo. Mando pela quarta vez a mensagem de texto sobre a cadeira de rodas e o motorista, um homem, responde. “O porta-malas tem um aparelho de som e não cabe a cadeira. Vou cancelar a corrida e não haverá cobrança”, respondeu.

Inacreditável, quase 30 minutos se passaram e não conseguimos um carro.

Nova chamada, uma mulher, dessa vez em um Renault Logan. “Sem problemas”, respondeu imediatamente a motorista após minha já conhecida mensagem de texto. Ufa, finalmente!

Ela chegou, mas não saiu do veículo. Eu e minha esposa ajeitamos tudo, inclusive minha sogra no banco atrás da motorista e a cadeira no porta-malas (vazio).

Entramos no carro e seguimos viagem. O pagamento seria em dinheiro e perguntamos se era possível fazer isso com uma nota de R$ 50. “Vocês vão me quebrar, comecei agora e estou sem troco”, mandou ‘na lata’ a motorista.

“Posso parar para ver se vocês conseguem trocar”, disse a ‘prestativa’ profissional enquanto reunia notas e moedas. “Dinheiro de papel é algo que não deveria mais existir”, completou.

Em nosso destino, pagamos a mais porque não havia o tal troco completo.

No retorno do dentista, em mais um Uber Select, o motorista que está na função há pouco mais de um mês, depois de perder o emprego, fez tudo o que era necessário para garantir que seu serviço tivesse a qualidade esperada. Além de ser gentil e educado, saiu do carro e ofereceu toda a ajuda possível.

Na conversa durante o trajeto, nos contou que sua avó também usa cadeira de rodas e ele conhece bem a rotina. Uma mostra do resultado que a empatia tem no dia a dia das pessoas com deficiência.

RESPOSTAS – O aplicativo para usuários da Uber tem uma área com informações sobre acessibilidade. “A Uber espera que seus parceiros cumpram com todas as leis vigentes (estaduais, federais e locais) que regulam o transporte de passageiros portadores necessidades especiais (ARGH!)”, diz a companhia.

O #blogVencerLimites fez contato com a assessoria de imprensa da Uber e pediu um posicionamento. A empresa respondeu em nota enviada por email.

“A Uber fornece diversos materiais informativos a motoristas parceiros sobre como tratar cada usuário com cordialidade e respeito e temos como política que os motoristas parceiros cumpram a legislação que rege o transporte de pessoas com deficiência.

Nos casos em que usuários sentirem que o tratamento dado pelo parceiro não foi respeitoso, ou que desrespeitou os termos da lei, ressaltamos sempre a importância de reportarem esses incidentes à Uber, para que possamos tomar as medidas necessárias. Conforme explicitado no Código de Conduta da Comunidade Uber, casos comprovados de motoristas que adotem conduta discriminatória podem levar à perda de acesso à plataforma”, diz a nota da Uber

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