Representatividade autista na ficção

Representatividade autista na ficção

Tabata Cristine, mulher autista, conta ao #blogVencerLimites por que o romance de Tracey Garvis Graves, 'Sem Lógica para o Amor', é "inspirador". Leia também uma entrevista com autora.

Luiz Alexandre Souza Ventura

12 de janeiro de 2021 | 12h00

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Foto de Tabata Cristine, mulher branca, de 30 anos, com cabelos curtos, avermelhados, raspados na laterais da cabeça e volumosos no alto. Veste camisa preta, olha para a câmera e sorri. Está segurando o livro 'Sem Lógica para o Amor' com a mão direita e aponta para a publicação com a mão esquerda. Tem uma tatuagem de traços escuros no antebraço esquerdo, com folhas, flores e um girassol. Está encostada em uma parede de cor neutra. Crédito: Divulgação.

Descrição da imagem #pracegover: Foto de Tabata Cristine, mulher branca, de 30 anos, com cabelos curtos, avermelhados, raspados na laterais da cabeça e volumosos no alto. Veste camisa preta, olha para a câmera e sorri. Está segurando o livro ‘Sem Lógica para o Amor’ com a mão direita e aponta para a publicação com a mão esquerda. Tem uma tatuagem de traços escuros no antebraço esquerdo, com folhas, flores e um girassol. Está encostada em uma parede de cor neutra. Crédito: Divulgação.


Retratar pessoas com deficiência em livros, espetáculos de teatro, filmes, séries ou qualquer peça de ficção é uma responsabilidade. O respeito à representatividade ou a falta dessa preocupação podem definir sucesso e fracasso do trabalho, jogar a obra no buraco ou nas graças de público e crítica.

‘Sem Lógica para o Amor’, da escritora Tracey Garvis Graves, lançado no Brasil pela Editora Jangada, navega por esse universo para narrar a história de Annika, uma mulher autista, e seu reencontro com Jonathan, um antigo namorado.

A convite do blog e da editora, a influenciadora Tabata Cristine, mulher autista, de 30 anos, que só recebeu esse diagnóstico na idade adulta, faz uma avaliação do livro, principalmente sobre a maneira como a personagem principal é apresentada.

“É retrato mais real que já vi sobre o autismo, porque a personagem enfrenta, experimenta, busca superações, não é um ET ou um ser isolado como muita gente pensa. Annika tem suas habilidades, mas também as dificuldades e isso, no livro, é muito bem construído”, diz.



Leia a avaliação de Tabata Cristine.

‘Sem Lógica para o Amor’ foi um livro inspirador para que eu me aceite como sou.  Desde criança, sentia-me a esquisitona, a diferente, alguém que não se encaixa. Tenho 30 anos e fui diagnosticada há 1 ano como autista, num processo de durou 4 anos, depois que comecei a fazer terapia. Até então, não conseguia explicar com precisão o meu comportamento para as pessoas e, por conta do déficit social inerente ao autismo, muitas vezes eu era incompreendida até pela minha mãe.

Já vi diversas séries, filmes e li livros sobre o tema, mas ‘Sem Lógica para o Amor’ foi o que eu mais gostei e me identifiquei porque ele desfaz os estereótipos que vemos por aí: do autismo masculino, de que o autista é uma pessoa reclusa, um gênio ou dependente da família. Ele mostra uma jovem que se desenvolve, apresentando a ótica de uma autista adulta. Annika fez faculdade, mora sozinha, tem suas habilidades e dificuldades como qualquer pessoa, se relaciona e vive (com todas as características típicas do autismo) uma vida dentro dos padrões comuns. Esse é um dos aspectos que mais gostei no livro. Há poucos exemplos de adultos autista, pela própria falta também de profissionais que tratam adultos. Quando falamos de autismo, em geral, as pessoas esperam encontrar características infantis, mas nós aprendemos e nos desenvolvemos também, evoluímos, assim como os neurotípicos (certamente, com as dificuldades e questões inerentes ao espectro do autismo). Então, vejo que esse livro traz a realidade do que é o autismo, são pouquíssimos autistas que são super gênios, há muitas mulheres autistas (sobre as quais nunca de se fala) e nós queremos, como todo mundo, fazer parte e queremos ser aceitos em nossa individualidade.

Minha identificação com a personagem Annika foi imediata, mesmo que o livro não esclareça logo de cara que ela tem o espectro, algumas passagens desde o início da narrativa são marcantes e permitem essa identificação rápida. Por exemplo, o sentimento de não se encaixar, a timidez e o déficit social (para o autista, assim como a personagem do livro, é difícil se colocar no lugar do outro, compreender os sentimentos dos outros e suas expressões), a dificuldade de organização e planejamento e a disfunção do processamento sensorial (eu, assim como Annika, sou hipersensível a tecidos, afetos etc). Não temos também o que a gente chama de “jogo de cintura” nas relações sociais, ou seja, somos muito diretos, falamos verdades duras e gostamos de rotina. Todas essas características são descritas no livro de forma natural, sem estereótipos, preconceitos etc. Acho que é o que torna o livro encantador e surpreendente.

Além disso, um aspecto que destaco no livro é fato de demonstrar a importância da terapia para o autismo. No enredo, a personagem conversa bastante com sua terapeuta e, nesses momentos, ela reflete não só sobre ela, mas sobre os outros. Muitas vezes, como a nossa cabeça é muito acelerada, não conseguimos nos colocar no lugar do outro e entender as pessoas. E a terapia para a Annika tem esse papel, assim como a minha. O livro foi inclusive tema de mais de uma sessão da minha terapia.  

Outra característica que a autora apresenta com precisão é o que chamamos de “Shut down”, crise causada por excesso de estímulos e informação. Em situações sociais que nos exigem mais conversas, mais atenção etc, muitas vezes, precisamos depois ficar sozinhos, dormir e descansar. E uma parte importante para a compreensão dessa realidade é aceitar e respeitar aquele comportamento. Nem sempre quem está ao seu lado compreende. Ao se relacionar amorosamente, por exemplo, os autistas têm mais dificuldades justamente em função da hiper ou hipo sensibilidade e por serem muito sinceros e diretos (no caso das personagens Jonathan e Annika, essas características se tornaram vantagens, já que ele diz para Annika que gosta dela justamente por não faz jogos. Além disso, com ela, Jonathan pode ser sempre ele mesmo  – o que é bom e confortável). 

Eu sou muito parecida com a Annika, eu não saio muito de casa, tenho momentos em que me sinto esgotada pelos vários estímulos diários, mas a terapia me ajuda a interagir. O livro, para mim, traz a delicadeza de incluir o autista na discussão e de dar visibilidade para essa deficiência de maneira fluida, natural e  espontânea.  

Achei a história sensacional e me identifiquei em diversas situações, como já citei, mas acho que um aspecto que ainda não toquei aqui – e que o livro traz, de forma sutil porém muito realista – é a auto regulação, ou seja, algumas atitudes que o autista tem para se reequilibrar: alguns colocam as mãos na cabeça, outros, como a Annika, precisam de um toque de conforto – que no caso dela era pisar descalça na grama. Passamos por muitas situações de constrangimento social desde cedo e evitamos que situações similares e frustrantes nos aconteçam novamente. 

Para mim, ‘Sem Lógica para o Amor’ é o retrato mais real que já vi sobre o autismo, porque a personagem enfrenta, experimenta, busca superações, não é um ET ou um ser isolado como muita gente pensa (e muitas vezes, séries, livros e filmes reproduzem certos padrões que não são verdadeiros). Annika tem suas habilidades, mas também as dificuldades e isso, no livro, é muito bem construído.

Também me vejo muito na relação da Janice (melhor amiga da personagem principal) com a Annika. Tenho também a minha Janice, ou seja, uma amizade de 20 anos, com a qual eu posso trocar experiências e dificuldades, perguntar como devo me comportar em determinada situação etc. Minha amiga está sempre do meu lado “me treinando”, assim como Janice faz com Annika. 

Annika me trouxe a sensação mais forte ainda de que eu não preciso me preocupar com o que os outros vão achar, ela é verdadeira. Tenho dificuldade de falar o que eu penso e, nesse sentido, ela foi uma grande inspiração também. O que falta para as pessoas compreenderem o autismo, e que esse livro traz, de forma assertiva, é o respeito ao limite do outro, à individualidade, ao tempo do outro.

Um trecho da obra me marcou bastante, me identifiquei. Annika tem o xadrez eu tenho a música, que permitiu me sentir incluída.

“A timidez incapacitante me impedia de participar de peças escolares ou outras atividades extracurriculares. Mas, assim como os livros, o xadrez preencheu um vazio em minha vida que nada mais foi capaz de satisfazer. Embora tenha demorado muito tempo para descobrir, sabia que meu cérebro não funcionava como o das outras pessoas. Comigo as coisas são preto no branco. Concretas, não abstratas. O jogo de xadrez, com suas estratégias e regras, combinava com minha visão de mundo. Animais e livros me confortavam, mas o xadrez me deu a oportunidade de fazer parte de algo. Quando eu jogava, chegava a quase me enquadrar”.



Em entrevista à jornalista Camila Tuchlinski, do E+ Estadão, a escritora Tracey Garvis Graves conta que, quando começou a esboçar a história, não percebeu que Annika era autista.

“Eu só sabia que ela não iria mudar, não porque ela não quisesse, mas porque ela não poderia. Seu cérebro simplesmente não estava conectado dessa forma. E eu pensei que seria maravilhoso se Jonathan entendesse isso e se apaixonasse por Annika de qualquer maneira, porque ele a achava perfeita para ele, sem ter que mudar nada”, diz a escritora.

Graves também é autora de ‘On the Island’, que ficou nove semanas na lista de best-sellers do The New York Times, traduzido para 31 idiomas e adaptado para o cinema pela MGM em parceria com a Temple Hill Productions.

Ficha técnica:
Livro: ‘Sem Lógica para o Amor’ (The Girl He Used To Know)
Autora: Tracey Garvis Graves
Editora Jangada
Primeira edição
Ano de publicação: 2020
Dimensões: 16cm x 23cm
ISBN13: 9786556220048
Número de páginas: 320
Encadernação: Brochura


REPORTAGEM COMPLETA EM LIBRAS (EM GRAVAÇÃO)
Vídeo produzido pela Helpvox com a versão da reportagem na Língua Brasileira de Sinais.


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