“Libras me fez descobrir meu corpo enquanto forma de expressão”

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“Libras me fez descobrir meu corpo enquanto forma de expressão”

Rodrigo Alarcon lança o clipe 'Apesar de Querer', que dá protagonismo à Língua Brasileira de Sinais, com interpretação do próprio artista. Música chegou a quatro milhões de plays no Spotify. "Que nosso trabalho hoje seja resultado amanhã, uma inclusão natural", diz o cantor, compositor e desenhista em entrevista exclusiva ao #blogVencerLimites.

Luiz Alexandre Souza Ventura

28 de maio de 2020 | 11h00


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Descrição da imagem #pracegover: Imagem com fundo branco que mostra um homem de costas para a câmera, desenhando em uma parede dois rostos, em perfil, de homem e mulher, um de frente para o outro. À frente está o cantor Rodrigo Alarcon, que veste camisa branca, tem pela clara, cabelos escuros, lisos e curtos, e um robusto bigode no rosto. Ele interpreta em Libras um trecho da música ‘Apesar de Querer’ e, no frame captado do clipe, sinaliza a frase “Isso eu não vou fazer”. Crédito: Reprodução.


“O Brasil não trabalha a empatia como deveria. Se colocar no lugar de quem é diferente de você, de quem não ouve, não é um exercício tão praticado”, diz Rodrigo Alarcon, cantor, compositor e desenhista que lançou nesta quinta-feira, 28, o clipe da canção ‘Apesar de Querer’, música com quatro milhões de plays no Spotify.

“Essa música tomou uma proporção muito grande no meu trabalho e, na hora de gravar o clipe, pensamos em como levar essa mensagem para mais pessoas”, revela o artista em entrevista exclusiva ao #blogVencerLimites. No vídeo, o próprio cantor faz a interpretação em Libras, a Língua Brasileira de Sinais.

“Libras chegou como uma forma de inclusão do público que ainda não recebia essa mensagem”, comenta. “Como artista, não usar as palavras, literalmente, para falar, foi transformador. Estou descobrindo esse mundo, acredito que seja um processo”, conta.

A canção revela o dilema de um apaixonado, que não se aproxima de sua paixão. “Me sinto tão errado. Por isso, mantenho a distância”, diz a letra.

“A palavra falada engloba muita coisa: para quem ouve, ali existe o sentimento, o significado. Enquanto trabalhar a música em Libras como língua nos reforça a necessidade de expressar todo o corpo e, assim, transmitir o sentimento, desde um gesto maior até um olhar”, explica Alarcon.

O cantor afirma que a expressão na Língua Brasileira de Sinais é muito diferente do que simplesmente verbalizar uma palavra. “Foi muito novo pra mim, assim como aprender uma língua estrangeira, como o Alemão, que tem diferentes lugares da boca, da caixa vocal em que você tem que aprender a reproduzir os sons”, compara.

“Libras me fez descobrir meu corpo enquanto forma de expressão, e isso foi lindo demais”, celebra Alarcon.


Não consigo tirar da minha cabeça / Esses olhos que eu nunca vi tão perto / A ponto de bater o cílio no meu / Não sai da mente o sorriso entreaberto / Penso se eu ‘tô errado ou se eu ‘tô certo / Em cultivar esse bem querer / O problema é que já tem alguém do seu lado / E eu me sinto tão errado em tentar me aproximar / Por isso mantenho a distância necessária / Pra que não se esqueça, minha cara / Que ao meu lado é um bom lugar / Mais que isso eu não vou fazer, não / Apesar de querer / Como eu quero, e como eu quero / Apesar de querer / Como eu quero, e como eu quero / Apesar de querer / Como eu quero, e como eu quero / Ai ai


Letra e melodia – Rodrigo Alarcon foi orientado pela professora Pollyane Rodrigues, de Goiânia (GO), pedagoga especialista em Libras e educação inclusiva.

“Estamos falando de um grupo de pessoas altamente capazes de entender uma expressão artística como a música. Então, temos que nos preocupar com a letra, como será a compreensão do surdo, mas também temos que pensar na melodia, porque a canção é uma expressão artística completa,” explica a professora.

“Nos concentramos na letra tentando torná-la o mais acessível, o mais compreensível para o surdo. Lembrando que ela teria características um pouco diferentes se fosse um profissional da Libras que conhece a língua e toda a sua estrutura – porque a Libras é uma língua que se utiliza de uma linguagem diferente, a corporal. Então, nos concentramos na letra, que está muito amparada no português, mas tem a melodia, a suavidade e é por isso ele embala o corpo”, diz Pollyane.

A pedagoga ressalta que conduzir o cantor por esse processo de aprendizado da interpretação da música foi absolutamente diferente de ensinar a comunicação falada em Libras porque, além de não ser apenas uma comunicação falada, mas sim uma música, havia a questão do artista não saber a língua.
“É um desafio”, afirma.

“Um detalhe importante é que, enquanto profissional de Libras, eu teria um jeito de olhar, um gesto com a mão, que não é necessariamente Libras, que em termo técnico chamamos de ‘classificador’, mas, neste caso, usamos mecanismos mais simples, que ele conseguisse transmitir essa música. Não foi fácil, mas o artista se dedicou muito. Fomos pensando em cada detalhe e Rodrigo pegou cada um deles”, elogia Pollyane.



#blogVencerLimites – Qual é, na sua avaliação, a maior barreira da acessibilidade na cultura?

Pollyane Rodrigues – Pensando na pessoa surda, que é onde tenho domínio de fala, você vê pouquíssimos lugares que você consegue ter a presença de um intérprete de Libras. E, se você for analisar, é a única adaptação que o surdo precisa, a presença de um profissional da língua. Todos os surdos querem consumir a cultura, e aí tem uma única TV que eles podem consumir, que traz a acessibilidade.

Também temos que pensar no surdo enquanto consumidor, ser político. O surdo também quer ver novela, entender o que está rolando no esporte, ele quer ir ao teatro, ele quer fazer parte.

Então, acredito que seja a falta de acessibilidade. Trabalhei por oito anos em uma universidade e os surdos querem fazer diferentes cursos – no último ano estive em um curso de Geografia. Precisamos entender que o surdo quer ter direito às suas próprias escolhas. Na cultura, o surdo precisa de um olhar um pouco mais especial.

#blogVencerLimites – A comunidade surda critica constantemente a falta de acessibilidade na cultura, especialmente nos eventos ao vivo, shows e peças de teatro. Com base na sua experiência, considerando o que sensibilizou você para essa mudança, por que a arte ainda não se aproxima das pessoas com deficiência ao excluir recursos acessíveis de suas performances? É uma questão de custo ou de compreensão sobre esse cenário?

Rodrigo Alarcon – Acredito que seja um pouco dos dois. Na minha percepção, o Brasil não é um país que trabalhe a empatia da maneira com que deveria, o ato de se colocar no lugar de quem é diferente de você, nesse caso, de quem não ouve, é um exercício que não é tão praticado.

E, pensando nisso, precisamos que essa compreensão chegue às escolas, por exemplo, porque sabemos que não são todas que trazem a acessibilidade como pauta e o cidadão cresce, muitas vezes, com o distanciamento desse cenário. E, em relação aos custos, fica ainda mais difícil para quem é artista independente.

O intérprete de Libras precisa ser bem remunerado pelo trabalho que ele executa, e nem sempre temos essa possibilidade. Espero que, em um futuro próximo, o trabalho que fazemos hoje seja o resultado de amanhã, uma inclusão natural.



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