Uma cidade unida pela inclusão

Uma cidade unida pela inclusão

Rondonópolis, no interior do Mato Grosso, tem 30 mil habitantes com deficiências, quase 15% de sua população. Apesar de ser uma grande força produtiva, a cidade enfrenta muitas barreiras para a inclusão no trabalho. O #blogVencerLimites visitou a região e conheceu de perto o projeto idealizado pela Fundação Bunge, inédito no País, que já começa a mostrar resultados, com aumento de pessoas com deficiência empregadas e investimentos do município em educação inclusiva e acessibilidade. "A inclusão bem feita promove transformações", afirma gerente da fundação.

Luiz Alexandre Souza Ventura

18 de abril de 2019 | 05h00

IMAGEM 01: Rondonópolis, no interior do Mato Grosso, tem 30 mil habitantes com deficiências, quase 15% de sua população. Apesar de ser uma grande força produtiva, a cidade enfrenta muitas barreiras para a inclusão no trabalho. O #blogVencerLimites visitou a região e conheceu de perto o projeto idealizado pela Fundação Bunge, inédito no País, que já começa a mostrar resultados, com aumento de pessoas com deficiência empregadas e investimentos do município em educação inclusiva e acessibilidade. “A inclusão bem feita promove transformações”, afirma gerente da fundação. Descrição #pracegover: O funcionário da Bunge em Rondonópolis, Gilson Souza de Jesus, que é cadeirante, está em sua mesa de trabalho, em frente ao computador, manuseando documentos. Ele olha para a câmera e sorri. Crédito: Divulgação/Bunge.


Rondonópolis, cidade de aproximadamente 229 mil habitantes, no interior do Mato Grosso, a 230 quilômetros de Cuiabá, está entre as 100 maiores economias do Brasil e tem o segundo maior Produto Interno Bruto (PIB) estadual, que chega a R$ 7 bilhões/ano, segundo o IBGE.

É passagem obrigatória de milhares de veículos que trafegam pelas rodovias BR-163 e BR-364, entre o Norte e o Sul do País. Seu poder produtivo reúne indústrias de soja, fertilizantes, rações e suplementos animais, frigoríficos, tecelagem, confecções e metalurgia.

É uma potência econômica que gera empregos, movimenta turismo e comércio, mas enfrenta muitas barreiras para incluir sua população com deficiência no mercado de trabalho da região. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o município tem 30 mil habitantes com deficiências, quase 15% de sua população, 16 mil com deficiências severas.


IMAGEM 02: Rede de Qualificação e Inclusão de Jovens Aprendizes e Pessoas com Deficiência no Mercado de Trabalho de Rondonópolis tem 41 integrantes. Descrição #pracegover: Imagem tem as logomarcas dos integrantes da rede. Crédito: Divulgação/Bunge.


Esses obstáculos afetam todas as empresas, inclusive a Bunge do Brasil, que tem uma fábrica com 400 funcionários na cidade. Sendo assim, a Fundação Bunge – entidade social da companhia – liderou a construção da ‘Rede de Qualificação e Inclusão de Jovens Aprendizes e Pessoas com Deficiência no Mercado de Trabalho de Rondonópolis’.

O grupo tem atualmente 41 integrantes, entre empresas, profissionais com deficiência, representantes do terceiro setor, especialistas em formação e capacitação, Prefeitura e poder judiciário.

O #blogVencerLimites visitou a região, a convite da Fundação Bunge, para conhecer de perto o projeto inédito no País (talvez, no mundo), lançado oficialmente em outubro de 2018.


IMAGEM 03: Rondonópolis fica na região sudeste do Mato Grosso, a 230 quilômetros de Cuiabá. Descrição #pracegover: Imagem do mapa do Brasil, com uma seta vermelha indicando a localização de Rondonópolis. Crédito: Google Maps.


“A formação dessa rede começou no ano passado, quando passamos a conversar, ainda de maneira individual, com as associações do comércio e da indústria de Rondonópolis para entender quais eram os desafios da inclusão na região”, explica Juliana Santana, gerente de projetos da Fundação Bunge.

“Já identificávamos essa dificuldade na Bunge, mas precisávamos saber se era uma situação específica da nossa empresa ou se havia cenários semelhantes em outras companhias”, diz. “Nossa conversa cresceu e chegou à Prefeitura, visitamos outras empresas, associações de pessoas com deficiência e constatamos que se tratava de uma realidade em toda a região”, conta.

“Havia uma oportunidade para beneficiar a pessoas, o município e sua economia, e de gerar um valor gigantesco para as empresas. Quando a inclusão é bem feita, promove transformações, principalmente na relação entre as pessoas“, defende Juliana Santana.


IMAGEM 04: Bunge tem 400 funcionários em Rondonópolis. Descrição #pracegover: Foto da entrada da fábrica da Bunge em Rondonópolis. Crédito: Google Maps.


CIDADE EM MOVIMENTO – “Antes da criação da rede, quando uma empresa precisava contratar pessoas com deficiência, esse processo era muito demorado, durava até três meses. Agora, com esse grupo em contato, são divulgadas as vagas que estão abertas, o que agiliza muito a contratação”, afirma Márcia Rotili, secretária municipal de Promoção e Assistência Social de Rondonópolis.

“Começamos a estudar esses processos para compreender porque a oferta de vagas não chegava ao conhecimento das pessoas com deficiência. Além disso, passamos a criar uma cultura inclusiva dentro das empresas, para gerar oportunidades não centralizadas nas exigências da Lei de Cotas, mas valorizando a formação, a vocação e as metas dessas pessoas, criando uma possibilidade real de crescimento na companhia”, diz a secretária.

“Outra barreira é a quantidade de pessoas com deficiência que recebem o BPC/LOAS (Benefício de Prestação Continuada da Lei Orgânica de Assistência Social). É comum o pensamento de que, como eu recebo o BPC, não preciso mais trabalhar e posso sobreviver apenas com essa assistência”, cometa Márcia Rotili.


IMAGEM 05: Márcia Rotili é secretária municipal de Promoção e Assistência Social de Rondonópolis. Descrição #pracegover: Márcia está em pé, falando ao microfone. Ela tem cabelos claros, usa óculos e veste um vestido listrado. Ao fundo, algumas poltronas e um banner de cor verde com a frase ‘Semana da Inclusão – Seminário Pessoas com Deficiência e Jovens Aprendizes no Mercado de Trabalho’. Crédito: blogVencerLimites.


Rondonópolis já identificou, segundo a secretária municipal, aproximadamente 3.800 moradores com deficiência que recebem o BPC. A rede listou esse grupo, separando as pessoas por idade, usando informações do Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (Cadastro Único).

A regra (Lei Nº 8.742/1993) permite ao usuário que arrumar emprego registrado suspender o benefício. Se essa pessoa perder o emprego, recupera a assistência sem necessidade de perícia. Além disso, a pessoa com deficiência contratada como aprendiz pode receber os dois pagamentos (salário e BPC) durante dois anos.

“Convencer a pessoa que recebe o BPC a voltar a trabalhar não é fácil. E a atuação da rede é importante para mostrar que há boas oportunidades profissionais na nossa região”, explica a secretária municipal. “Estamos expandido essa ação para as áreas mais afastadas e até nas comunidades indígenas. Entre outubro e dezembro do ano passado, conseguimos recolocar no mercado de trabalho 50 pessoas com deficiência que recebiam o BPC”, diz Márcia Rotili.

“Esse número é pequeno e ainda não é o momento de comemorar, mas é uma demonstração dos resultados obtidos por meio da rede, principalmente na redução do tempo para a contratação da pessoa com deficiência”, ressalta a secretária.


🔖 E ontem encerramos a sexta feira com o evento da Rede de formação e inclusão de jovens aprendizes e PCDs no Mercado…

Publicado por Projeto Autismo na Escola – Inclusão em Sábado, 6 de abril de 2019

Entre as atividades da rede está a realização de ações de sensibilização nas empresas. Faz parte do grupo o Projeto Autismo na Escola – Inclusão, que visitou a Bunge durante a Semana da Inclusão. A publicação acima foi compartilhada na página do projeto no Facebook.


INVESTIMENTOS NA EDUCAÇÃO – “Os desafios da inclusão começam na educação. Se a pessoa com deficiência não encontra uma escola inclusiva, acessível, com profissionais preparados para atender esse aluno, ela não vai aprender. Por isso, triplicamos o número de profissionais dentro das escolas da rede municipal para fazer esse trabalho”, comenta a secretária.

A rede municipal de Rondonópolis tem 67 escolas. Em 2017, 89 crianças com deficiência matriculadas no ensino regular recebiam reforço em 14 salas de recursos. Neste ano, o número de salas de recursos subiu para 23, com atendimento a 258 crianças com deficiência, sendo que 106 têm o Transtorno do Espectro Autista (TEA). A meta é ter uma sala de recurso em cada escola.

ACESSIBILIDADE – A Prefeitura aprovou em março o Bilhete Único Especial que garante transporte gratuito à pessoa com deficiência e um acompanhante. Além disso, a administração municipal trabalha para renovar a empresa de transporte urbano, mas a duas licitações mais recentes não tiveram sucesso.

Outra dificuldade é a característica topográfica da cidade, com muitas áreas rurais e assentamentos espalhados por um território de 4.156 quilômetros quadrados. O município tem sete unidades do CRAS (Centro de Referência e Assistência Social) e cada uma atende, em média, moradores de 30 bairros.


VÍDEO 01: Juliana Santana, gerente de projetos da Fundação Bunge, faz a apresentação de abertura da primeira semana de inclusão da Rede de Qualificação e Inclusão de Jovens Aprendizes e Pessoas com Deficiência no Mercado de Trabalho de Rondonópolis. Descrição #pracegover: Juliana está em pé, com o microfone na mão direita. Ela veste uma camisa cinza e uma saia longa escura. Crédito: blogVencerLimites.


DESENVOLVIMENTO SOCIAL – “O desafios que temos na Bunge de Rondonópolis se repetem na maioria das empresas do País. E isso vai além das exigências da Lei de Cotas, chega às questões de desenvolvimento social”, destaca a gerente da Fundação Bunge.

Juliana conta que, desde o princípio, a meta era a construção de uma rede. Depois das primeiras conversas, a Fundação Bunge e a Associação Comercial, Industrial e Empresarial de Rondonópolis (Acir) contrataram a consultoria Santo Caos para fazer uma pesquisa profunda e abrangente na cidade de Rondonópolis.

Entre os tópicos sobre pessoas com deficiência, o estudo deixou claro que a maior dificuldade no comércio, nas indústrias e no setor de serviços era localizar as pessoas com deficiência.

“Essa pesquisa foi avaliada por todos que estavam no grupo em formação naquele momento, nas reuniões que passamos a fazer de maneira sistemática, todo mês. Também atuamos na sensibilização das pessoas envolvidas para começar a quebrar os preconceitos criados pela falta de informação. Isso demonstrou nossa seriedade e comprometimento, e provocou uma reflexão sobre a situação. Ao longo do ano, consolidamos uma agenda de ações para 2019, que começou com a ‘I Semana de Inclusão’, entre 2 e 8 de abril”, conta Juliana Santana.


IMAGEM 07: Pesquisa constatou que localizar as pessoas com deficiência é a principal dificuldades para as empresas em Rondonópolis. Descrição #pracegover: Imagem tem diversas informações obtidas pela pesquisa feita em Rondonópolis. Crédito: Divulgação/Bunge.


SEMANA DA INCLUSÃO – Além de dois dias com seminários sobre a inclusão de pessoas com deficiência e a contratação de jovens aprendizes, abertos ao público em geral, sem restrições ou inscrições, a semana teve diversas atividades dentro das empresas. A rede tem uma equipe de direção e outros subgrupos, separados por tema, para a organização de ações.

“Foi a primeira ação concreta da rede. Tudo decidido em grupo, desde a estrutura do evento, os temas abordados, os palestrantes e as pessoas convidadas”, explica a gerente de projetos da Fundação Bunge.

“É a consolidação do trabalho que começou no ano passado. E também uma apresentação desse trabalho para a população, mostra os objetivos da rede”, afirma Juliana. “O seminário é um compromisso público com essa causa de todos que estão no grupo, comprovando que isso é realmente importante para cada um dos 41 integrantes”, diz.



SEGURANÇA – “Nossa fábrica é antiga (construída na década de 1990), e foi ampliada após o ano 2.000. Por isso, precisamos aprimorar a acessibilidade, mas esse processo enfrenta barreiras técnicas”, explica Alencar Albino Fontana, gerente de controladoria da fábrica da Bunge em Rondonópolis.

“No pátio, o desafio é tornar o ambiente acessível sem ferir as regras de segurança. Temos 10 funcionários com deficiências auditivas e, para garantir movimento seguro dessas pessoas, investimos em sinalização visual e luminosa”, explica o gerente. “Para as funções administrativas, há uma carência de conhecimento técnico, de noções básicas de informática, que os candidatos com deficiência ainda não têm”, diz Fontana.

A fábrica da Bunge em Rondonópolis tem aproximadamente 400 funcionários, a maior parte, 300 colaboradores, em funÇões operacionais. E o restante nos setores administrativos. Atualmente, 20 profissionais com deficiência estão no quadro, dois em funções de liderança (encarregados de manutenção e de produção). No escritório, um dos empregados é cadeirante.


IMAGEM 08: Marcelo Ferreira de Almeida é presidente da Associação dos Deficientes Físicos de Rondonópolis (Adefir). Descrição #pracegover: Marcelo teve paralisia infantil (poliomielite) e usa uma cadeira de rodas. Ele é negro, usa óculos, veste uma camisa listrada e uma calça escura, e calça sapatos de cor bege. Está em uma sala onde podem ser vistas outras cadeiras de rodas. Ao fundo, projetadas em uma tela, as palavras ‘Adefir’ e ‘história’. Crédito: blogVencerLimites.


“A inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho de Rondonópolis, hojé, é dificultada pela falta de acessibilidade no transporte público e por problemas nas adaptações dentro das empresas”, afirma Marcelo Ferreira de Almeida, presidente da Associação dos Deficientes Físicos de Rondonópolis (Adefir), que reúne aproximadamente 1.000 associados cadastrados.

“No caso dos cadeirantes que trabalham em escritórios, por exemplo, essa adaptação é simples e pode ser feita com mudanças na altura da mesa e na distância entre os móveis para circulação. Esses regras estão na NBR 9050 da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas).

RETORNO AO TRABALHO – “Os novos modelos de inclusão têm conseguido atrair pessoas com deficiência que recebem o BPC/LOAS de volta às empresas”, diz o presidente da Adefir.

“Uma questão muito importante nesse retorno ao mercado de trabalho é a qualidade das vagas. Aqui em Rondonópolis, a rede tem conseguido esclarecer a importância de uma oportunidade correta, alinhada às ambições do funcionário com deficiência. É fundamental compreender que há especificações que um cadeirante não pode cumprir, mas isso pode ser feito por um profissional surdo, cego ou amputado”, ressalta Marcelo Almeida.



INCLUSÃO ALÉM DAS COTAS – “Durante muito tempo, a prioridade das empresas foi o preenchimento da vaga para cumprir as exigências da Lei de Cotas, mas hoje essa ideia já está em transformação. As companhias estão oferecendo vagas corretas para pessoas com deficiência que tenham a formação e o conhecimento necessários”, comenta o especialista.

“A rede está reunindo aqui em Rondonópolis o conhecimento das pessoas com deficiência à prática do trabalho que essas pessoas podem executar. Não tem mais aquela história, por exemplo, do profissional com deficiência formado em contabilidade que vai operar equipamentos. Essa vaga será preenchida por uma pessoa com deficiência formada em mecatrônica. É essa a transformação que a rede está proporcionando”, conclui o presidente da Adefir.

Para receber nossas notícias direto em seu smartphone, basta incluir o número (11) 97611-6558 nos contatos e mandar a frase ‘VencerLimites’ pelo Whatsapp. VencerLimites.com.br é um espaço de notícias sobre o universo das pessoas com deficiência integrado ao portal Estadão. Nosso conteúdo também está acessível em Libras, com a solução Hand Talk, e áudio, com a ferramenta Audima. Todas as informações publicadas no blog, nas nossas redes sociais e enviadas pelo Whatsapp são verdadeiras, produzidas e divulgadas após checagem e comprovação. Compartilhe apenas informação de qualidade e jamais fortaleça as ‘fake news’. Se tiver dúvidas, verifique.


Mande mensagem, crítica ou sugestão para blogVencerLimites@gmail.com

Acompanhe o #blogVencerLimites nas redes sociais

Facebook Twitter Instagram LinkedIn Google+ YouTube


Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.