Rosinha

Rosinha

Luiz Alexandre Souza Ventura

08 de março de 2014 | 07h00

Curta Facebook.com/VencerLimites
Siga @LexVentura
Mande mensagem para blogvencerlimites@gmail.com
O que você precisa saber sobre pessoas com deficiência

Roseane dos Santos, ou apenas Rosinha, tinha 18 anos quando foi atropelada por um caminhão em Recife. Na época, trabalhava como empregada doméstica. Havia terminado o primeiro dia do curso de tapeçaria em uma fábrica. Estava na calçada, por volta de meio-dia, na esquina de casa, quando o veículo a atingiu, junto com uma amiga.

“O motorista estava bêbado. Saiu armado para não ser linchado e fugiu” As duas ficaram embaixo do caminhão até a chegada do resgate. Uma semana após o acidente, os médicos decidiram amputar a perna esquerda de Rosinha.

Nos oito anos seguintes, Rosinha trabalhou com a mãe na produção e venda de sanduíches “para ajudar nas despesas de casa”. E foi na porta desta mesma casa que ela recebeu, em 1998, um convite para ser paratleta de arremesso de peso e lançamento de disco. “Um rapaz me viu e disse: ‘estou precisando de alguém forte para disputar contra as atletas de Egito e Tunísia’. Eu nem sabia que existia esporte para pessoas com deficiência. Meu irmão contou aos meus pais e eles insistiram para eu ver do que se tratava”.

Hoje, Rosinha tem 42 anos e mais de 50 medalhas, conquistadas em diversas competições. É tetracampeã dos Jogos Panamericanos, venceu as provas de arremesso de disco e de peso nos Jogos Paralímpicos de Sidney (2000) e foi recordista mundial em Athenas (2004). Atualmente, treina para os Jogos do Rio 2016.

“Quem me conhece e sabe das minhas conquistas, me olha com admiração e me respeita, mas eu não quero ter esse respeito somente por causa das medalhas. No Brasil, pessoa com deficiência, negra ou pobre sofre muita discriminação”, afirma. “Certa vez, eu estava com um grupo no clube onde treinava e fomos para a piscina. Havia uma senhora com a neta e, depois que algum tempo, percebemos que ela tirava a criança da água toda vez em que nós mergulhávamos. Aí fui falar com ela. Quando ela me reconheceu, mudou imediatamente de atitude”.

Ela cita outro caso. “Uma moça me viu com a muleta e disse: ‘Coitada da bichinha. Se fosse para ser assim, eu preferia morrer’. É um horror”.

Para Rosinha, muitos problemas que uma pessoa com deficiência enfrenta no Brasil estão no transporte público e nas ruas. “Quando estou sozinha no ponto de ônibus, os motoristas não param. E como as calçadas são muito ruins, esburacadas, preciso andar olhando para o chão”.

Muito diferente, segundo ela, do que experimenta em outros países. “Lá fora, me sinto uma princesa. Sou valorizada. Teve uma vez, na Nova Zelândia, em que eu estava na frente do hotel e um ônibus parou. O motorista abriu a porta e desceu para me ajudar a subir. Aí expliquei que estava apenas olhando a rua. Ele me convidou para fazer um passeio e me deixou exatamente no mesmo local onde me pegou”. Para a atleta, Curitiba é uma exceção. “É melhor local do Brasil em acessibilidade”.

Desde 2009, Roseane dos Santos é patrocinada pela Seguros Unimed, em parceria com o Instituto Superar. Ela afirma que o esporte paralímpico brasileiro precisa de investimento. “Tem de ser desde criança. Mostrar o esporte, inicialmente, como uma brincadeira. O problema é que, no Brasil, falta profissional para trabalhar com as crianças”.

Tudo o que sabemos sobre:

Paralímpico

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: