Sem acessibilidade, resgates na Ucrânia não incluem pessoas com deficiência

Sem acessibilidade, resgates na Ucrânia não incluem pessoas com deficiência

Idosos em casas de repouso também estão abandonados. Alerta foi feito por organizações que atuam pela população vulnerável em meio à guerra.

Luiz Alexandre Souza Ventura

06 de março de 2022 | 14h11

Foto de duas mulheres sentadas no chão de um banheiro na Ucrânia. Um delas têm deficiência intelectual e está dentro da banheira.

Inclusion Europe recebeu relatos de famílias de pessoas com deficiência vivendo nos banheiros ou porões para se protegerem de bombas. Foto: Inclusion Europe.


“Não há transporte para pessoas com deficiência na Ucrânia. Procuramos há dias por carros acessíveis. Se alguém liga para agências médicas humanitárias ou para a linha direta de crise e diz ‘sou uma usuária de cadeira de rodas, com úlceras de pressão e preciso de ajuda’, ouve como resposta que deve procurar o departamento de proteção social”.

O alerta foi feito por Anna Landre, integrante da Partnership for Inclusive Disaster Strategies, ou apenas The Partnership, dos Estados Unidos, que apoia pessoas com deficiência em desastres e emergências.

Landre contou, em entrevista ao Independent, que adultos e crianças com deficiências, principalmente intelectual, são abandonados em residências e hospitais de todo o país. “Os funcionários desses locais fugiram do conflito”, diz.

Segundo a ativista americana, quando conseguem chegar às fronteiras e aos centros, os ônibus não são acessíveis para cadeiras de rodas. “Homens surdos, que deveriam estar isentos do serviço militar, são detidos na fronteira para serem convocados”, afirmou Landre.

Vulneráveis – O líder da Age International, Chris Roles, também ao Independente, chamou a atenção para a vulnerabilidade dos idosos. “Alguns não podem fazer a longa e árdua jornada para fora do país porque sua saúde está ruim, ou porque estão sofrendo de osteoporose ou doenças cardíacas e, portanto, não poderão fazer a viagem”.

Temores aumentam sobre a segurança das pessoas em casas de repouso, porque faltam informações sobre como ajudar. A Cruz Vermelha da Ucrânia tem ajudado a levar pessoas com deficiência ou com restrições de mobilidade para abrigos ou áreas mais seguras, mas não tem capacidade para movimentar indivíduos e famílias com deficiência que desejam deixar o país.

Adam Zawisny, das Associação Polonesa para Pessoas com Deficiência Intelectual, disse que há um “buraco negro assustador” nas informações sobre o que fazer nesta situação. E que milhares de crianças de orfanatos foram para a Polônia nos últimos dias, em parte porque não havia funcionários nas instituições para cuidar deles ou ao perigo de serem atingidos por bombas. “O mesmo não acontece nos lares residenciais e de assistência social para adultos”, destaca.

Eric Rosenthal, diretor executivo da Disability Rights International, ressaltou que essas instituições correm o maior risco de serem abandonadas. “Sabemos que até 200 mil crianças estão em instituições na Ucrânia,. O número de adultos, provavelmente, é maior. Uma organização no local nos disse que havia pessoas dentro das instituições e não havia como tirá-las”.

O diretor comentou que há sérios problemas de transporte e as pessoas em instituições não têm ninguém para protegê-las. “Estão em perigo imediato”.

Remédios – Milan Šveřepa, diretor da Inclusion Europe, disse que obter medicamentos, como pílulas para epilepsia, tornou-se “impossível” e acessar abrigos antibombas é “incrivelmente difícil” para pessoas com condições como autismo, que foram deixadas para “apenas ficar em suas casas esperando o melhor”. O entidade recebeu relatos de famílias de pessoas com deficiência vivendo nos banheiros ou porões para se protegerem de bombas.


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