“Temos um cromossomo a mais e isso não impede nada”

“Temos um cromossomo a mais e isso não impede nada”

Marcelo é professor de Zumba e sabe que a inclusão tem muito valor. "Recebi uma aluna cadeirante e propus uma aula com todos dançando sentados, para que compreendam como é estar no lugar dela". Nesta quinta-feira, 21/3, celebramos o Dia Mundial da Síndrome de Down. "Alguns alunos acham que, pelo fato de eu ter Down, minhas aulas deveriam ser gratuitas", conta o professor.

Luiz Alexandre Souza Ventura

21 de março de 2019 | 11h43

IMAGEM 01: Marcelo é professor de Zumba e sabe que a inclusão tem muito valor. “Recebi uma aluna cadeirante e propus uma aula com todos dançando sentados, para que compreendam como é estar no lugar dela”. Nesta quinta-feira, 21/3, celebramos o Dia Mundial da Síndrome de Down. “Alguns alunos acham que, pelo fato de eu ter Down, minhas aulas deveriam ser gratuitas”, conta o professor. Descrição #pracegover: Foto de Marcelo dançando. Ele veste camisa azul com as palavras ‘Zumba’ e ‘Instructor’, tem cabelos lisos e barba escura. Crédito: Divulgação.


Marcelo de Felipe Martins, de 25 anos, mora em Espírito Santo do Pinhal, no interior paulista, a 200 quilômetros de São Paulo, na divisa com Minas Gerais. Tem síndrome de Down e, em 2017, tornou-se professor de Zumba.

“Sempre gostei de dançar, meus pais comentam que já danço desde a barriga da minha mãe, está no meu DNA”, conta Marcelo. “Quando era adolescente, fazia aulas de axé na academia. Conheci outros ritmos e me matriculei nas aulas de Zumba. Comecei a interagir com o professor, com os outros alunos e me apaixonei. A Zumba é contagiante e me conquistou”, diz.

Marcelo tem certificação internacional da Zumba (https://www.zumba.com/pt-BR). No Brasil, segundo a legislação, professores de dança não precisam ter formação em Educação Física porque a atividade é artística e cultural. A empresa Zumba nasceu em 1999, em Miami (EUA), e treina instrutores em todo o mundo. A modalidade tem 15 milhões de praticantes em mais de 185 países.



Em entrevista ao #blogVencerLimites, Marcelo fala sobre a vida com Down, barreiras, preconceitos, legislação, mídia e seus planos para o futuro.

Nesta quinta-feira, 21/3, celebramos o Dia Mundial da Síndrome de Down. “É uma grande oportunidade de espaço para que todos vejam que somos capazes de qualquer coisa. Temos um cromossomo a mais, mas isso não nos impede de nada, com apoio da nossa família e da sociedade conseguimos realizar e conquistar muitas coisas”, afirma Marcelo.



#blogVencerLimites – Você enfrentou preconceitos durante o processo para se tornar professor? Que tipo de barreira precisou ultrapassar?

Marcelo de Felipe Martins – Quando decidi fazer o curso, meus pais se assustaram com a notícia. Eles achavam que a minha paixão pela dança era apenas um hobby, mas eu queria mais. Meu instrutor comentou sobre o curso de Zumba que estava com as inscrições abertas, cheguei em casa e pesquisei, vi que tinha aulas em Campinas, cidade há 100 quilômetros da minha. Me inscrevi.
Quando cheguei no curso, a Ludmilla Marzano (especialista de educação da Zumba) ficou temerosa, mas me deu todo suporte e atenção durante o meu processo de aprendizado.

Depois, ao começar a dar aulas na minha cidade, uma aluna reagiu ao perceber que eu tinha Down dizendo que, se soubesse que era eu o professor, nem teria ido. Outra barreira que enfrento até hoje é que alguns alunos acham que, pelo fato de eu ter a síndrome, minhas aulas deveriam ser gratuitas.

#blogVencerLimites – Você conhece as leis que protegem as pessoas com deficiência? Conhece a Lei de Cotas e a Lei Brasileira de Inclusão?

Marcelo de Felipe Martins – A lei só é linda no papel, mas na prática, está muito longe da realidade. É pouco noticiada, muitas pessoas não conhecem. Os pais de pessoas com deficiência nem sempre sabem os direitos que os filhos têm e, muitas vezes, não sabem o que podem fazer para melhorar as nossas condições de vida e de acesso ao que merecemos. Só quem realmente tem um pouco de interesse e corre muito atrás. A Lei de Cotas, na maioria das vezes, não é respeitada.



#blogVencerLimites – Você acompanha as notícias sobre pessoas com síndrome de Down e sobre pessoas com deficiência? Qual a sua opinião sobre essas notícias? Falta algo? Essas notícias conseguem mostrar as pessoas com deficiência de maneira correta?

Marcelo de Felipe Martins – Eu leio muito e assisto também aos jornais. Não sei dizer o que é diferente em mim, comparando com uma pessoa que não tem Down. Uma notícia de uma pessoa sem Down e outra contando a história de quem tem Down, para mim, é a mesma coisa.

#blogVencerLimites – Quais são os seus planos para o futuro?

Marcelo de Felipe Martins – Não quero parar nunca, sempre que posso estou me especializando mais e mais. Para ser melhor para mim e para todas as pessoas que vou ensinar.

De alguma forma, quero continuar ajudando pessoas. Recebi uma aluna cadeirante na turma e, desde então, tenho adaptado as aulas para ela. Pensando nisso, propus uma aula em que todos da turma ficassem dançando sentados, movimentando apenas os membros superiores, porque é uma forma de compreender como é estar no lugar dela. O mais gratificante foi perceber o quanto todas as outras alunas aceitaram e gostaram da ideia, percebi algumas até emocionadas.

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