“Todos os textos de todos os sites precisam ser ouvidos”

“Todos os textos de todos os sites precisam ser ouvidos”

Na semana de luta da pessoa com deficiência, o #blogVencerLimites publica uma série de artigos exclusivos, escritos por pessoas com e sem deficiência. O segundo texto, de Luiz Pedroza, cofundador da Audima, destaca a importância da acessibilidade digital, especialmente para pessoas com deficiência visual. O Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência é celebrado neste sábado, 21 de setembro.

Luiz Alexandre Souza Ventura

17 de setembro de 2019 | 11h00


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Descrição da imagem #pracegover: Foto de Luiz Pedroza, de 27 anos, que tem cabelos curtos, lisos e escuros. Veste camisa preta, está sorrindo e olhando para a câmera. Ao fundo, impresso em um vidro, a logomarca da startup Audima. Crédito: Divulgação / Audima / Studio H.


Para celebrar a semana de luta da pessoa com deficiência, o #blogVencerLimites publica uma série de artigos exclusivos, escritos por pessoa com e sem deficiência.

O empresário Luiz Pedroza, cofundador da Audima, autor do segundo texto, destaca a importância da acessibilidade digital, especialmente para pessoas com deficiência visual.

O Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, 21 de setembro, foi instituído em 1982 por iniciativa de movimentos sociais, liderados por Cândido Pinto de Melo, fundador do Movimento pelos Direitos das Pessoas Deficientes (MDPD), e oficializado pela Lei Nº 11.133, de 14 de julho de 2005.

A data foi escolhida para coincidir com o Dia da Árvore, representando o nascimento das reivindicações de cidadania e participação em igualdade de condições.

Em 2008, o Brasil ratificou a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, adotada pela Organização das Nações Unidas (ONU), e o Protocolo Facultativo, documento equivalente à emenda constitucional. A convenção é base do texto da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Nº 13.146/2015).



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O império da visão

por Luiz Pedroza*

Segundo dados do último Censo Demográfico do IBGE, no Brasil existem pouco mais de 500 mil pessoas com deficiência visual, ou seja, que não conseguem ver de modo algum. Mas quando consideramos aqueles que têm grande ou alguma dificuldade para ver, este universo passa a ser de aproximadamente 35 milhões de pessoas.

Dentro dessas estatísticas há, por exemplo, os idosos, uma população que não para de crescer por conta do aumento da expectativa de vida. Um pequeno recorte desses dados também mostra que 75% das pessoas acima de 40 anos apresenta sintomas de presbiopia, ou vista cansada, e uma das consequências dessa condição acaba sendo a perda do interesse pela leitura.

Embora estejamos falando de quase 20% da população do País, a sensação é de que o mundo não foi projetado para elas.

Hoje, na internet, reside a maior parte da produção de conteúdo e informação do planeta. Estima-se que existam cerca de dois bilhões de sites no mundo e que 600 novos são criados a cada minuto. E mais de dois milhões de artigos são escritos todos os dias. No entanto, a principal e quase única forma de acessar estes textos é por meios visuais.

As pessoas cegas têm acesso aos leitores de tela e a tecnologias assistivas que ajudam na interação com os dispositivos, mas a experiência não é das melhores, pois essas ferramentas também leem os códigos de programação e a publicidade, interrompendo e atrapalhando a leitura e o entendimento dos textos. E como requerem muito treino e prática, estas tecnologias se restringem aos que nada enxergam.

O exército de excluídos fica ainda maior quando contemplamos os dados sobre analfabetismo, total ou funcional, no Brasil. Um universo de mais de 56 milhões de pessoas que não sabem ler ou escrever. Ou que sabem ler e escrever textos curtos, de baixa complexidade, mas não conseguem interpretar.

O ‘Império da Visão’ é uma barreira de acesso aos meios de comunicação, a formas de obter aprendizado e, consequentemente, a melhores condições de vida e sustento. Impossibilita que todo indivíduo tenha meios de exercer seus direitos e desenvolver a plenitude de seus potenciais humanos.

O Brasil tem 420 milhões de aparelhos digitais ativos, incluindo smartphones, computadores, notebooks e tablets. São dois dispositivos digitais por habitante, segundo a ’30ª Pesquisa Anual de Administração e Uso de Tecnologia da Informação nas Empresas’, realizada pela FGV-SP e divulgada em abril deste ano.

O País também possui mais de 122 milhões de usuários com acesso à internet, o que corresponde a apenas 59% da população, mas que cresce numa curva acentuada ao longo dos últimos anos.

Quando o assunto é acessibilidade digital, temos um longo caminho a percorrer. Segundo pesquisa realizada pela W3C, apenas 2% dos sites brasileiros são acessíveis, sendo que as estimativas apontam que a população brasileira de pessoas com deficiência é superior a 45 milhões. É muita gente deixada à margem da Revolução do Conhecimento.

Além das questões de infraestrutura tecnológica, um grande desafio é facilitar o acesso a conteúdos de qualidade que sejam transformadores. É aí que o áudio pode ajudar a acelerar a inclusão, principalmente fazendo a informação chegar para aqueles com dificuldades de visão ou leitura.

O crescimento dos audiolivros e podcasts ajuda, mas consegue dar conta apenas de uma ínfima parcela do conteúdo escrito produzido nos meios digitais. O ideal seria que um dia todos os textos de todos os sites também pudessem ser ouvidos.

“O futuro já chegou. Só não está uniformemente distribuído”. A frase do escritor Willian Gibson tem mais de 20 anos, mas continua atual e ilustra bem um dos principais desafios que o País tem que resolver para ajudar a diminuir as desigualdades educacionais e sociais.

Queremos sonhar com o dia em que o ‘Império da Visão’ cederá lugar a um modelo que seja mais livre, democrático e, principalmente, inclusivo.

*Luiz Pedroza é cofundador da Audima, startup de impacto social que torna possível que sites sejam ouvidos.

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