Turma do Jiló e a verdadeira inclusão na escola

Turma do Jiló e a verdadeira inclusão na escola

Projeto criado em 2015 fortalece a educação inclusiva em escolas públicas. Mais de 7,5 mil estudantes e professores já foram beneficiados. Iniciativa ganhou prêmio da Prefeitura de São Paulo e reconhecimento na ONU.

Luiz Alexandre Souza Ventura

17 de junho de 2019 | 11h01


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Descrição da imagem #pracegover: Carolina Videira está ao lado do filho João (o Jiló), que está sentado na cadeira de rodas. Em volta deles, diversos integrantes da Turma do Jiló. Crédito: Divulgação.


“Uma escola inclusiva é aquela que atende todos os seus alunos. Não é o aluno que se adapta à escola, é a escola que se adapta ao aluno”, afirma Carolina Videira, criadora da Turma do Jiló, associação social sem fins lucrativos que implementa práticas de educação inclusiva em escolas públicas.

“O projeto pedagógico precisa flexibilizar o currículo, conhecer a individualidade de cada aluno e suas habilidades. Esse plano de desenvolvimento individual deve ser estruturado pelo professor regente, com auxílio do professor do Atendimento Educacional Especializado”, diz a especialista.

TRANSFORMAÇÃO – Jiló é o apelido de João, de 11 anos, que tem a síndrome de Pelizaeus-Merzbacher, filho de Carolina Videira.

Foi a partir da convivência com as deficiências de João – principalmente pela batalha que enfrentou para compreender essa condição e para garantir a ele o acesso à educação – que Carolina percebeu o quanto era urgente modificar o cenário de exclusão nas escolas, principalmente na rede privada.

Vale destacar que escolas particulares mantêm uma crueldade velada nesse processo e invertem sua função básica na formação do cidadão, recusando constantemente a matrícula de estudantes com deficiência ou sabotando a presença desses alunos nas aulas regulares. O #blogVencerLimites já recebeu muitos relatos sobre essa exclusão, até mesmo nas unidades mais tradicionais e caras do País.

“Levamos palestras, workshops e treinamentos a instituições que precisam de apoio para trabalhar a inclusão de alunos, para um ensino equitativo e de qualidade”, explica Carolina.

As atividades da Turma do Jiló já atingiram, somente em escolas paulistas, mais de 7 mil estudantes e seus familiares, além de 475 professores. O projeto ganhou da Prefeitura de São Paulo o Selo Municipal de Direitos Humanos e Diversidade 2018-2019, nas categorias Criança e Adolescente, Pessoas com Deficiência e Destaque.

“Reduzimos de 37% para 0,5% da taxa de evasão escolar do Colégio Municipal Benedita Odette de Morais Savoia, no Jardim São Luis, em Santana de Parnaíba (Grande SP)”, celebra a fundadora da Turma do Jiló.

O programa tem metodologia própria, aplicada a partir de um diagnóstico da escola, com ações de desenvolvimento profissional, passando pelo trabalho pedagógico coletivo, promovendo encontro com a famílias e aprimorando todos os recursos de acessibilidade para entregar um ambiente realmente inclusivo, no qual professores e funcionários da unidade se tornam replicadores do método, além da manutenção de cursos e workshops para as famílias, que transmitem esse conhecimento a quem está chegando.

A Turma do Jiló recebe apoio financeiro do Itaú Social, Instituto Cyrela e Projeto Serendipidade. Os valores doados financiam pesquisas de diagnóstico, cursos de educação inclusiva e diversidade para docentes e funcionários de escolas e, ainda, atendimentos psicólogos, jurídicos e assistenciais para as famílias que precisarem de apoio, especialmente aquelas que têm crianças com deficiência.

No ano passado, o projeto foi apresentado no painel de educação do Nexus Global Youth Summit, evento sobre filantropia, investimento de impacto e inovação social realizado na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque (Estados Unidos), o que gerou um convite para participação da Turma do Jiló no grupo de trabalhos sobre direitos humanos.

Em entrevista ao #blogVencerLimites, Carolina Videira destaca os benefícios da inclusão para a formação de todos os alunos, avalia a situação dos estudantes com deficiência no Brasil e a contribuição da Lei Brasileira de Inclusão para esse cenário, além de chamar atenção para políticas públicas urgentes no País.


Descrição da imagem #pracegover: Carolina Videira rodeada de estudantes com e sem deficiência. Crédito: Divulgação.


#blogVencerLimites – Qual é a sua avaliação sobre a inclusão de estudantes com deficiência no Brasil, em escolas públicas e particulares?

Carolina Videira – Existe um desconhecimento sobre o assunto e sobre a legislação. Toda e qualquer escola deve estar apta a receber e desenvolver qualquer criança. Quando colocamos a lupa nas crianças com deficiência, sabemos que a maioria está matriculada no ensino público, em classes regulares, ocorrendo o contrário nas escolas privadas, que privilegia o ensino segregado.

Apesar do aumento de matrículas na rede regular de ensino, que se deu devido à Lei Brasileira de Inclusão (LBI), a maior parte dos alunos com necessidades educacionais especiais está segregada em escolas especiais e muitos ainda fora desse ambiente.

#blogVencerLimites – Qual é a contribuição da Lei Brasileira de Inclusão para esse cenário? A LBI ajuda realmente ou é uma mera formalidade que não é obedecida?

Carolina Videira – A LBI contribui muito para o cenário da inclusão, trazendo mais informação e fiscalização a fim de garantir a entrada dos estudantes com deficiência nas escolas regulares, a formação continuada dos professores, a acessibilidade pedagógica e arquitetônica dos espaços, atendimento educacional especializado no contra turno escolar, o direito ao plano de desenvolvimento individual, entre outros direitos que só trazem muitos benefícios a todos os envolvidos da comunidade escolar.

Ou seja, a Lei, mesmo que de forma lenta, está trazendo benefícios.

Escolas que ainda não trabalham dentro da lei, muitas vezes alegam que não há vagas para novas matrículas, porém, a grande barreira é a falta de atitude, pois não ter informações adequadas e disposição para gerar ações transformadoras acaba impedindo que todos tenham direito à educação.

#blogVencerLimites – Quais políticas públicas para educação inclusiva são mais urgentes no País? Aquelas já em vigor têm resultado efetivo?

Carolina Videira – É urgente a necessidade de inclusão obrigatória de disciplinas e competências em educação inclusiva nos currículos do ensino superior. A formação é de extrema importância para redução das desigualdades, do problema da invisibilidade e do preconceito relacionado as diferenças.

A política pública atual garante o ensino básico e prevê a formação continuada dos professores. Porém, nem sempre o professor aprende durante a sua formação profissional a lidar com as diferenças, e isso faz com que eles sofram com as questões relacionadas às dificuldades de aprendizagem das crianças, quando há também um problema anterior, que é a dificuldade de ensinar.

Quando eles entendem e sabem a forma de alcançar todos os alunos, esse processo fica mais fácil.

Incluir não é apenas garantir a matrícula na escola. As pessoas com deficiência devem ser formadas para terem autonomia, para serem economicamente ativas e participarem da sociedade como qualquer outra pessoa.


Descrição da imagem #pracegover: Arte com fases do método de trabalho da Turma do Jiló. Crédito: Divulgação.


#blogVencerLimites – Quais são os benefícios da educação inclusiva para a formação dos estudantes?

Carolina Videira – A educação inclusiva faz valer o direito adquirido do qual todas as pessoas dispõem: terem acesso, de modo igualitário, ao sistema de ensino, combatendo qualquer tipo de discriminação, seja de gênero, etnia, religião, orientação afetiva, classe social, condições físicas, sensoriais, intelectuais ou psicológicas.

Portanto, seus benefícios são: desenvolver e transmitir valores, conhecimento, humanização e preparo para o exercício da cidadania e para o exercício de uma política inclusiva que contribua com uma sociedade mais justa.

#blogVencerLimites – Muitas escolas afirmam que são inclusivas. Quando isso é real e quais itens precisam estar presentes para garantir essa inclusão de verdade?

Carolina Videira – Uma escola inclusiva é aquela que atende todos os seus alunos e, assim, ela deve se adequar ao aluno e não o aluno a escola. O Projeto Político Pedagógico (PPP) deve contemplar a flexibilização do currículo, sendo necessário conhecer a individualidade de cada aluno e suas habilidades e, para isso, existe um documento nomeado como Plano de Desenvolvimento Individual (PDI).

A partir do PDI as adequações curriculares são estruturadas pelo professor regente, com auxílio do professor do AEE (Atendimento Educacional Especializado).

É importante destacar que o trabalho realizado no AEE é específico à deficiência do aluno, ocorre no contraturno e nesse espaço com o profissional especializado em educação especial são trabalhados aspectos que diminuem ou eliminam as barreiras que os alunos possuem para acompanhar a turma na sala de aula.

As adequações curriculares são diferentes das atividades diversificadas. As adequações requerem planejamento e partem do conteúdo trabalhado, no qual o aluno com deficiência participa e acompanha, de acordo com suas limitações, o conteúdo junto com a turma.

Já as atividades diversificadas são descontextualizadas, não planejadas e utilizadas para que o aluno se mantenha ocupado, ou seja, ele pode estar em aula de matemática por exemplo, e fazer uma atividade de outro segmento, como preencher uma cruzadinha.

O PDI deve e pode ser utilizado também para o aluno que apresenta alguma dificuldade de aprendizado. A utilização de estratégias pedagógicas que contribuem para a participação de todos, na qual trabalhem com os diferentes tipos de inteligências, devem ser levadas em consideração, e programas antibullying precisam ser exercidos para combater o preconceito e assim promover uma educação inclusiva.

#blogVencerLimites – É favorável à denúncia de escolas que recusam matrícula, boicotam ou discriminam alunos com deficiência?

Carolina Videira – Somos favoráveis a que todas as escolas sigam a Lei Brasileira de Inclusão e, caso isso não aconteça, é legitimo o direito de usar os meios legais disponíveis para que a lei seja cumprida.

Assim, é possível garantir o acesso dos estudantes no ensino regular e oferecer as mesmas oportunidades para se desenvolverem e se tornarem cidadãos ativos na sociedade.

O Ministério Público só pode atuar se a denúncia chegar, por isso Turma do Jiló é a favor e encoraja a denúncia sempre que necessário.

A sociedade precisa avançar no entendimento de que a educação não é favor, mas sim um direito de todos. Só dessa forma poderemos garantir o acesso dos estudantes no ensino regular e oferecer as mesmas oportunidades para se desenvolverem e se tornarem cidadãos ativos na sociedade.

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