Ucrânia é potência paralímpica que tem população com deficiência invisível

Ucrânia é potência paralímpica que tem população com deficiência invisível

País está em terceiro lugar nos Jogos Paralímpicos de Inverno e ficou em sexto nas Paralimpíadas de 2021, mas na guerra contra a Rússia, a maior parte dos 2,7 milhões de habitantes com deficiência está abandonada.

Luiz Alexandre Souza Ventura

09 de março de 2022 | 13h43

Montagem com duas fotos. No lado esquerdo, um rapaz em cadeira de rodas ao lado de uma ambulância, em uma área da Ucrânia. No lado direito, uma atleta paralímpica ucraniana comemora a medalha de ouro.

Cucesso paralímpico da Ucrânia é um paradoxo para um país com altos níveis de institucionalização e infraestrutura acessível limitada. Fotos: Reprodução / Montagem: blog Vencer Limites.


Instituições internacionais afirmam que o abandono das pessoas com deficiência da Ucrânia durante os ataques da Rússia e o perigo real dessa população, aproximadamente 2,7 milhões de habitantes, ser dizimada na guerra, expuseram ao mundo a antipatia dos ucranianos aos indivíduos com deficiência.

Enquanto isso, no esporte paralímpico, a Ucrânia é uma potência. Ocupa neste momento a terceira posição nos Jogos Paralímpicos de Inverno, disputados até 13 de março em Pequim, na China, e usa essa competição para reafirmar sua resistência ao governo russo. No ano passado, ficou em sexto lugar nas Paralimpíadas de Tokyo.

Nessa contradição, é fácil entender que, não apenas na Ucrânia, uma pessoa com deficiência só tem valor quando sustenta uma mensagem positiva de superação e resiliência. Aqueles que precisam de apoio constante, demandam cuidados específicos, sem a possibilidade de serem produtivos (ou impedidos), usados como reforço ao estigma do herói, de nada servem e são isolados, esquecidos, deixados para trás.

Em artigo publicado pelo National Observer, do Canadá, a escritora, palestrante e mulher com deficiência Emily Macrae explica de que maneira a história mostra por que pessoas com deficiência na Ucrânia e na Rússia são negligenciadas.

O texto de Macrae é uma ataque direto ao governo russo e relembra que, em 1980, quando Moscou sediou as Olimpíadas, a União Soviética se recusou a incluir eventos paralímpicos sob o argumento de que não havia ‘inválidos’ na URSS.

“A discriminação profundamente enraizada contra pessoas com deficiência é apenas um exemplo de como a Rússia opera fora do Estado de direito. No entanto, poderia ter servido como uma dica para outros abusos de poder. A Rússia assinou a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência em 2012, mas a implementação continua limitada”, ressalta a escritora.

Considerando a absorção da Ucrânia pela União Soviética em 1922 e a recuperação da independência em 1991, com a desintegração da URSS, fica evidente a semelhança entre as duas nações no que diz respeito ao preconceito contra as pessoas com deficiência e ao capacitismo.

“O sucesso paralímpico da Ucrânia é um paradoxo para um país que, como a Rússia e outros países pós-comunistas, luta com altos níveis de institucionalização e infraestrutura acessível limitada. Apesar desses desafios, uma rede de programação de esportes adaptados em todas as regiões do país cria talentos para os Jogos Paralímpicos e contribui para uma cultura vibrante de eventos esportivos acessíveis”, observa Macrae.

Países vizinhos já receberam quase 2 milhões de cidadãos ucranianos, mas a presença de pessoas com deficiência nesse grupo é mínima. Além disso, não há nenhuma informação oficial sobre a quantidade específica.

Ações isoladas para tentar resgatas crianças, jovens, adultos e idosos com deficiência, de todos os tipos e diferentes sequelas, leves a severas, têm obtido algum sucesso.

A organização Inclusion Europe informou nesta terça-feira, 8, que a Polônia já recebeu ao menos 500 crianças orfãs com deficiência da Ucrânia. Outra instituição, a Joni and Friends, divulgou a chegada de mais 42 pessoas com deficiência às fronteiras nos últimos dias.

É fundamental, para nós aqui no Brasil, avaliar de maneira muito mais profunda e abrangente o que a guerra entre Rússia e Ucrânia está impondo às pessoas com deficiência. Não se trata de um episódio histórico distante, do outro lado do mundo, que jamais vai bater na nossa porta. Ao contrário, é sim uma importante comprovação dos reflexos da discriminação, da invisibilidade, da falta de acessibilidade, do preconceito e do capacitismo na vida de todas as pessoas com deficiência, principalmente em momentos de violência.


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