Um homem surdo e de muitas palavras

Um homem surdo e de muitas palavras

José Antonio Figueiredo trabalha há nove anos na área administrativa do Poupatempo, em São Paulo, mas não em uma função criada por causa de sua deficiência. Está verdadeiramente incluído porque seus conhecimentos e habilidades garantem essa colocação. Um exemplo do acesso real ao mercado de trabalho, sem 'drible' ou 'superação'. É a competência que faz a diferença.

Luiz Alexandre Souza Ventura

28 de junho de 2016 | 10h26

José Antonio Figueiredo explicando como funciona o aplicativo do Poupatempo em vídeo para as redes sociais. Imagem: Divulgação

José Antonio Figueiredo explica como funciona o aplicativo do Poupatempo em vídeo para as redes sociais. Imagem: Divulgação

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No mundo do silêncio absoluto, olhos e mãos ‘falam’ tanto ou mais do que a boca. A comunicação existe de outras formas. E funciona, talvez até melhor do que em ambientes onde todos ouvem, mas ninguém se preocupa em escutar o que diz o outro. Para pessoas surdas, nem sempre ler e escrever em português garantem a interação. A Língua Brasileira de Sinais (Libras) e a leitura labial são ferramentas fundamentais, que proporcionam acesso e inclusão de fato.

Nesse mundo encontramos José Antonio Figueiredo, de 57 anos, funcionário da coordenadoria do e-poupatempo, em São Paulo, onde trabalha há nove anos. Atua no acompanhamento da operação do projeto que oferece acesso a serviços públicos eletrônicos e contribui para a melhoria na prestação desses serviços. Faz tabulações das estatísticas dos atendimentos e outros serviços administrativos.

Figueiredo é surdo. Perdeu a audição ainda no primeiro ano de vida, por causa de uma meningite. Mas sua função no local onde trabalha não foi criada como uma adaptação à sua deficiência. Está no cargo porque é competente, porque seus conhecimentos e habilidades criaram um diferencial competitivo. E a empresa pública teve a capacidade de entender que ele era a melhor opção entre os candidatos. É a inclusão verdadeira, de fato, que deve ser exemplo para gestores que precisam cumprir a Lei de Cotas, mas não acreditam na acessibilidade.

Vez ou outra, ele fica ‘incomodado’ e levanta um cartaz no qual escreveu “Falem mais baixo, estou trabalhando”. Uma brincadeira com os colegas, forma de interromper o tal silêncio absoluto, de estabelecer a interação, de manter o contato, descontrair o ambiente. Para se comunicar, faz leitura labial. Seus colegas aprenderam sinais básicos ou procuraram cursos de Libras, exemplo de outro paradigma ultrapassado, no qual foram as pessoas ‘sem deficiência’ que precisaram buscar conhecimento para serem incluídas.

A história de José Antonio Figueiredo em busca da inclusão e da acessibilidade tem semelhanças com outras tantas de pessoas com deficiência no Brasil. Ainda bebê, até 1 ano de idade, passava o dia na escola, onde participava de atividades de pintura. Depois, também na escola, começou a fazer tratamento de fonoaudiologia. Aos 12 anos, frequentava o período da tarde em um colégio para estudantes surdos. Nessa época, a Libras não tinha o alcance atual e os colegas se comunicavam por mímica, gestos e sinais ‘caseiros’.

“A criança surda, hoje, tem mais facilidade, porque a comunicação melhorou. E a criança cresce mais esperta. Atualmente, as crianças surdas são até mais ágeis na sinalização. E têm mais acesso às tecnologias. Antigamente, era só pular corda e jogar bolinha de gude”, comenta Figueiredo.

Mais velho, mudou de escola, onde era o único surdo, e não havia intérprete. Por isso, passava o maior tempo copiando. Tinha dificuldade na leitura labial, havia palavra que escrevia e não entendia. Ele explica que a irmã ajudava, em casa, a entender o significado da palavra que havia escrito. Parou de estudar no terceiro ano do ensino médio porque começou a se preocupar com o casamento. Com a esposa, também é surda, teve dois filhos, de 25 e 28 anos, que escutam muito bem.

Durante 24 anos exerceu a mesma função em três empresas diferentes, na área de microfilmagem. “Um colega que tinha mais paciência falava pausadamente para que eu fizesse a leitura labial e entendesse o serviço”, conta. “O mercado de trabalho ainda precisa melhorar. Há dificuldade em participar de cursos e, infelizmente, nem sempre nos conteúdos oferecidos são acompanhados por alguém com conhecimento básico em Libras”.

Figueiredo avalia como “muito difícil” para uma pessoa com deficiência conseguir trabalho. “Pedem muitos cursos e até existem escolas, como o Senai, que oferecem esses cursos gratuitos, mas exigem que o surdo pague intérprete. Muitas instituições financeiras demitiram funcionários surdos, contribuindo para o aumento do desemprego. Muitos amigos estão se lamentando”, afirma Figueiredo.

Seu primeiro contato mais profundo com a Língua Brasileira de Sinais surgiu aos 27 anos, quando seu amigo Juscelino, também surdo, viajou do Rio de Janeiro a São Paulo para estudar. “Havia na época professores nos achavam malucos por nos comunicávamos em sinais. Sofremos um pouco para provar que não era um problema psiquiátrico, mas sim a Libras. A diretora da escola foi chamada na sala de aula para verificar o que estava acontecendo com os alunos se comunicando em sinais, e perguntou onde o visitante havia aprendido aquela língua”, relembra.

Juscelino, o amigo de Figueiredo, havia aprendido na Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (FENEIS). “A Libras melhorou muito a minha vida porque possibilitou que me preocupasse menos com a oralidade e passasse a me identificar mais com a comunidade surda. No FENEIS fiz o curso básico, intermediário e cheguei a começar o de instrutor”.

José Antonio Figueiredo avalia alguns temas importantes no universo da pessoa com deficiência.

Acessibilidade no Brasil – “Não há acessibilidade em vários espaços públicos. Já enfrentei problemas em bancos, tive que tentar me comunicar por escrito. Hospitais e bancos são locais onde a acessibilidade é muito importante. Já aconteceu também de eu ir à padaria e as pessoas não compreenderem o que eu queria, e também precisei escrever. Fui maltratado em algumas consultas médicas, não havia atendimento adequado. Hoje, confio em três médicos e vou sempre neles, mas essas dificuldades fazem com que as surdas fiquem com medo de lutar”.

Relacionamentos – “Para namorar, o surdo é rápido. É mais rápido que um ouvinte. O ouvinte fala muito, liga, pensa, para depois firmar um compromisso”.

Preconceito – “Existe tanto de ouvinte como de surdo. Pessoas com deficiência, pessoas com cicatrizes, tem gente que olha e já trata com diferença. Até na comunidade surda existe preconceito, porque pois há surdos com alguma deficiência na face, e outros acreditam que isso atrapalhe na comunicação”.

Internet e redes sociais – “Podemos pode ver muitos vídeos em Libras, nos comunicar com outros surdos, fazer amizades com pessoas distantes. Penso em if para os Estados Unidos porque mantenho contato com amigos de lá pelo Facebook. A comunicação ainda é difícil, porque Libras é diferente de ASL (American Sign Language), mas já aprendi alguns sinais”.

LBI – É sempre importante lembrar que a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (nº 13.146/2015) estabelece em seu capítulo IV, artigo 27, que “A educação constitui direito da pessoa com deficiência, assegurados sistema educacional inclusivo em todos os níveis e aprendizado ao longo de toda a vida, de forma a alcançar o máximo desenvolvimento possível de seus talentos e habilidades físicas, sensoriais, intelectuais e sociais, segundo suas características, interesses e necessidades de aprendizagem”. E no artigo 28 incumbe ao poder público “assegurar, criar, desenvolver, implementar, incentivar, acompanhar e avaliar (parágrafo XI) a formação e disponibilização de professores para o atendimento educacional especializado, de tradutores e intérpretes da Libras, de guias intérpretes e de profissionais de apoio”.

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