Um tombo e um desabafo

Um tombo e um desabafo

Absolutamente nenhuma pessoa sequer reagiu na intenção de nos ajudar, nem mesmo o grupo de estudantes (novamente, vestindo branco) muito próximo. E todos viram o que aconteceu. Olharam para nós. Apenas olharam.

Luiz Alexandre Souza Ventura

06 Maio 2015 | 19h06

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O que você precisa saber sobre pessoas com deficiência

Foto: Luiz A. S. Ventura (06/05/2015)

Foto: Luiz A. S. Ventura (06/05/2015)

Os efeitos da Síndrome de Charcot-Marrie-Tooth interferem na minha coordenação motora, principalmente quando caminho. Um dos principais sintomas da CMT é a atrofia do músculo tibial anterior (aquele da canela) e o resultado é uma dificuldade na elevação dos pés, mesmo que mínima, alterando a marcha. Aos olhos leigos não é perceptível, mas médicos, fisioterapeutas e outros especialistas notam imediatamente. Evidentemente, essa dificuldade nunca me impediu de sair à rua. Por isso, os tombos sempre foram frequentes, desde a infância.

Em Santos, onde moro atualmente, caminhar é muito habitual, principalmente na praia. A cidade é favorável aos andarilhos, totalmente plana e geograficamente reduzida. Não há enormes distâncias. Desta forma, sempre que podemos, eu e minha esposa vamos a todos os locais andando. Hoje foi um dia de muitos compromissos. E percorremos todos os caminhos a pé. É claro que a velocidade dessa caminhada é sempre moderada, para evitar acidentes.

Já no retorno, em frente à Universidade Santa Cecília, no bairro do Boqueirão, por volta de 16h, com o local repleto de estudantes vestindo roupas brancas (alunos do curso de Fisioterapia), a ponta de uma viga de aço que rompia na calçada me surpreendeu. E não houve tempo para nada. Tropecei e fui ao chão. Minha esposa ainda tentou impedir a queda, mas tenho mais de 100 kg e não foi possível. O resultado disso está cravado em meu joelho direito: dois grandes ‘ralados’. Além de um hematoma na mão direita e uma forte dor na articulação do cotovelo direito.

A cena não me impressiona mais. O que realmente me causou espanto foi a minha invisibilidade. Absolutamente nenhuma pessoa sequer reagiu na intenção de nos ajudar, nem mesmo o grupo de estudantes (novamente, vestindo branco) muito próximo. E todos viram o que aconteceu. Olharam para nós. Apenas olharam.

Com alguma dificuldade consegui me erguer e seguir caminhando.

Não faço aqui o papel de coitado. Aliás, jamais fiz isso. Quero mesmo é dar uma boa bronca. Porque uma pessoa tropeçou e caiu na frente de muitos estudantes de fisioterapia. E nenhum, absolutamente nenhum reagiu, demostrou solidariedade, tentou socorrer ou esboçou qualquer intenção de oferecer auxílio.

Pergunto aos professores qual reflexão deve surgir dessa situação?

O artigo 4º do Código de Ética e Deontologia estabelecido pelo Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO) – resolução nº 424, de 08 de julho de 2013 (D.O.U. nº 147, Seção 1 de 01/08/2013), estabelece que “o fisioterapeuta presta assistência ao ser humano, tanto no plano individual quanto coletivo, participando da promoção da saúde, prevenção de agravos, tratamento e recuperação da sua saúde e cuidados paliativos, sempre tendo em vista a qualidade de vida, sem discriminação de qualquer forma ou pretexto, segundo os princípios do sistema de saúde vigente no Brasil”.

Em sua formatura, cada um dos estudantes que presenciaram minha queda fará o seguinte juramento. “Juro, por Deus e minha família, diante de meus mestres, que me dedicarei à Fisioterapia com honra e dignidade, respeitando a vida humana desde a concepção até a morte, jamais cooperando em ato que voluntariamente se atente contra ela, ou que coloque em risco a integridade física, psíquica e social do ser humano; dispondo todo meu conhecimento, talento e inteligência para a promoção, proteção e recuperação da saúde. Repassarei meus conhecimentos sempre que se fizer necessário e agirei com humildade e honestidade”.

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