Universidades federais têm apenas 0,3% de estudantes transexuais

Universidades federais têm apenas 0,3% de estudantes transexuais

"Informações sobre a população trans brasileira são diminutas, pontuais, não oficiais e, em geral, associadas à violência", dizem pesquisadores. Falta de dados impede a construção de políticas eficazes.

Luiz Alexandre Souza Ventura

03 de março de 2021 | 11h25

Use 26 recursos de acessibilidade digital com a solução da EqualWeb clicando no ícone redondo e flutuante à direita, ouça o texto completo com Audima no player acima, acione a tradução em Libras com Hand Talk no botão azul à esquerda ou acompanhe o vídeo no final da matéria produzido pela Helpvox com a interpretação na Língua Brasileira de Sinais.


Foto de duas pessoas trans negras estudando em uma biblioteca. Crédito: Divulgação.

Descrição da imagem #pracegover: Foto de duas pessoas trans negras estudando em uma biblioteca. Crédito: Divulgação.


Somente 0,3% dos estudantes matriculados em universidades federais do Brasil são pessoas transexuais, diz a V Pesquisa Nacional de Perfil Socioeconômico e Cultural dos Estudantes de Graduação das Instituições Federais de Ensino Superior Brasileiras, organizada pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) e analisada pelo Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa (GEMAA), do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ).

Apesar dos resultados, os pesquisadores afirmam que há muitos impedimentos para a construção de uma análise mais ampla. “As informações sobre a população trans brasileira são diminutas, pontuais, não oficiais e, em geral, associadas a dados de violência”, afirma João Feres Júnior, coordenador do GEMAA e do Observatório Legislativo Brasileiro (OLB).

“Se nem mesmo sabemos quantas pessoas trans existem no País, como podemos discutir caminhos para construção de políticas que deem conta das suas vulnerabilidades? Essa é a primeira conclusão que tiramos ao longo da pesquisa”, diz Feres Júnior, que é cientista político, professor e diretor do IESP/UERJ.

“O fato de termos menos de três mil pessoas trans em mais de um milhão de estudantes matriculados em universidades federais é um reflexo da marginalização e invisibilidade relegadas a esse grupo”, avalia o pesquisador. “Nesse sentido, os resultados da pesquisa indicarem que pessoas trans são duas vezes mais engajadas em movimentos sociais que pessoas cis é algo a ser realçado”, comenta.

“Hipotetizamos que esse engajamento é o que, muitas vezes, proporciona o ingresso na universidade. Uma vez que grande parte da população trans sofre discriminação dentro de casa, é expulsa e costuma abandonar a escola, essas redes são fundamentais para que construam trajetórias educacionais de sucesso”, destaca o coordenador.

“Mulheres trans negras são as de perfil mais vulnerável no cenário observado. Elas são maioria entre as pessoas trans nas universidades, mas também são as que, proporcionalmente, mais dependem de assistência estudantil (40%) e as que apresentam o maior percentual de renda per capita familiar de até 1,5 salário mínimo (85%)”, completa João Feres Júnior.


Foto de várias pessoas caminhando em uma área livre. Em destaque, duas mulheres. Uma delas está coberta por uma bandeira de cores rosa, branca e azul, com o símbolo da igualdade entre as identidades de gênero. Crédito: Divulgação.

Descrição da imagem #pracegover: Foto de várias pessoas caminhando em uma área livre. Em destaque, duas mulheres. Uma delas está coberta por uma bandeira de cores rosa, branca e azul, com o símbolo da igualdade entre as identidades de gênero. Crédito: Divulgação.


O que fazer? – “O primeiro passo é desenvolver estatísticas relacionadas à população trans, tanto dentro das pesquisas já existentes (Censo, PNAD etc.) quanto a partir de estudos focados no perfil e demandas desse grupo. Construir políticas às cegas é sempre um risco”, alerta a socióloga Poema Portela, pesquisadora do GEMAA.

“No âmbito da educação, é necessário pensar medidas de não discriminação desde as primeiras séries escolares, fator que muitas vezes pesa para o abandono”, defende a especialista. “No Ensino Superior, vemos iniciativas pontuais de universidades de reservar vagas e conceder assistência estudantil para pessoas trans, na graduação e na pós-graduação. A sistematização de uma política nesse sentido, que garanta o acesso de pessoas trans ao ensino superior em todo território nacional, seria ainda mais eficiente para reverter o quadro de sub-representação que se encontra nessas instituições”, explica a socióloga.

“É central o papel dos gestores das universidades nesse processo. Devem ficar atentos para como se dá o acolhimento dessas pessoas, seja no uso do nome social como regra por todo o corpo técnico, seja na abertura de canais de denúncia para quaisquer casos de assédio que por ventura ocorram. Além disso, ainda que não haja informações de amplitude nacional, as universidades podem fazer seus próprios mapeamentos de estudantes trans e construir políticas de acordo com as demandas apresentadas”, conclui Poema Portela.


Pessoas trans representam 0.3% da população universitária federal do Brasil. A maior parte, 58%, é negra.

Pessoas trans representam 0.3% da população universitária federal do Brasil. A maior parte, 58%, é negra.


30% são mulheres pretas e pardas, 28% são homens pretos e pardos, 20% são mulheres brancas e 22% são homens brancos.

30% são mulheres pretas e pardas, 28% são homens pretos e pardos, 20% são mulheres brancas e 22% são homens brancos.


Quanto à renda familiar, independentemente da raça ou gênero, há uma concentração de 76% na faixa até um e meio salário mínimo per capita.

Quanto à renda familiar, independentemente da raça ou gênero, há uma concentração de 76% na faixa até um e meio salário mínimo per capita.


Pessoas negras têm percentuais menores nas faixas de renda acima de 1,5 salários. 29% têm ou tiveram acesso a algum programa de assistência estudantil durante a graduação, 38% entre pessoas trans negra. As políticas de assistência mais utilizadas pelas pessoas trans estão relacionadas à permanência na universidade e a cuidados com a saúde mental.

Pessoas negras têm percentuais menores nas faixas de renda acima de 1,5 salários. 29% têm ou tiveram acesso a algum programa de assistência estudantil durante a graduação, 38% entre pessoas trans negra. As políticas de assistência mais utilizadas pelas pessoas trans estão relacionadas à permanência na universidade e a cuidados com a saúde mental.


Ciências Humanas (21%), Ciências Sociais Aplicadas (17%) e Ciências Exatas e da Terra (15%) acumulam mais da metade (54%) de pessoas trans universitárias.

Ciências Humanas (21%), Ciências Sociais Aplicadas (17%) e Ciências Exatas e da Terra (15%) acumulam mais da metade (54%) de pessoas trans universitárias.


No que se refere a ativismo, pessoas trans se engajam quase duas vezes mais que pessoas cis. Enquanto o segundo grupo tem adesão de 28% em algum tipo de organização social, a proporção chega a 45% entre pessoas trans. Entre homens trans, a participação em movimentos sociais alcança 50%. Os movimentos LGBTQIA+ são os que agregam mais participantes, reunindo 29% da amostra. Movimentos estudantis (10%) e feministas (9%) completam o topo.

No que se refere a ativismo, pessoas trans se engajam quase duas vezes mais que pessoas cis. Enquanto o segundo grupo tem adesão de 28% em algum tipo de organização social, a proporção chega a 45% entre pessoas trans. Entre homens trans, a participação em movimentos sociais alcança 50%. Os movimentos LGBTQIA+ são os que agregam mais participantes, reunindo 29% da amostra. Movimentos estudantis (10%) e feministas (9%) completam o topo.


Vídeo produzido por Helpvox com a versão da reportagem na Língua Brasileira de Sinais pela tradutora e intérprete Milena Silva.


Para receber as reportagens do #blogVencerLimites no Telegram, acesse t.me/blogVencerLimites.



Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.