Vencer Limites na Rádio Eldorado – 15

Vencer Limites na Rádio Eldorado – 15

A coluna Vencer Limites na Rádio Eldorado FM (107,3) vai ao ar toda terça-feira, às 7h20, ao vivo, no Jornal Eldorado.

Luiz Alexandre Souza Ventura

21 de dezembro de 2021 | 11h00


Neste 15º episódio da coluna Vencer Limites na Rádio Eldorado FM, falo sobre o relatório ‘Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para o Comportamento Agressivo no Transtorno do Espectro do Autismo’, publicado pela Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde – SUS), vinculada ao Ministério da Saúde.

Na página 24, a comissão cita como opção de tratamento, a eletroconvulsoterapia, ou ECT, que é um procedimento de estimulação cerebral por meio de corrente elétrica, de choque elétrico na cabeça, e que provoca convulsões. Na página 25, a comissão diz que não recomenda a eletroconvulsoterapia.

Em 7 de dezembro, a Conitec abriu uma consulta pública sobre esse relatório e já deu um parecer favorável à aprovação.

A citação da eletroconvulsoterapia acendeu todos os sinais de alerta das instituições que defendem as pessoas com deficiência, principalmente que defendem as pessoas autistas.

A Abraça, que é a Associação Brasileira para Ação por Direitos das Pessoas Autistas, e o Fórum Gaúcho de Saúde Mental, lançaram uma petição online exigindo o cancelamento dessa consulta pública.

Essa petição tem a participação de mais de 500 instituições, já ultrapassou 10 mil assinaturas, chama atenção para as pouquíssimas evidências de uso da ECT nos casos de comportamento agressivo de autistas ou de pessoas com deficiência intelectual, faz muitas críticas à bibliografia e às referências apresentadas, afirma que o PCDT tem uma “definição vaga e contestável do que são comportamentos agressivos”, entre outras muitas avaliações negativas do documento.

O deputado federal Danilo Cabral (PSB-PE), ingressou com representação no Ministério Público Federal (MPF), encaminhada à Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, pedindo a suspensão da consulta pública.

A liderança do PSOL na Câmara protocolou um Requerimento de Informação, cobrando do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, explicações a respeito da consulta pública, perguntado quais foram os especialistas e representantes de pacientes consultados, quais entidades médicas e de assistência social, quais estudos, artigos, teses, pesquisas dão base ao protocolo.

E os deputados federais Felipe Rigoni (UNIÃO BRASIL-ES) e Luiz Antonio Teixeira Jr, o Dr. Luizinho (PP-RJ), apresentaram um Projeto de Decreto Legislativo que pede para sustar a consulta pública.

O ministério da Saúde divulgou nota para reafirmar que o relatório não recomenda a eletroconvulsoterapia. E as pessoas que defendem o documento afirmam que todas as instituições, pessoas e parlamentares contra a consulta pública estão acreditando em fake news e sendo engadas.

Leia as reportagens sobre esse caso:

https://brasil.estadao.com.br/blogs/vencer-limites/deputados-querem-sustar-consulta-publica-sobre-protocolo-que-cita-choque-eletrico-para-tratar-autistas/

https://brasil.estadao.com.br/blogs/vencer-limites/instituicoes-e-parlamentares-repudiam-protocolo-da-saude-que-cita-choque-eletrico-para-tratar-autistas/

https://brasil.estadao.com.br/blogs/vencer-limites/documento-da-saude-cita-choque-eletrico-para-tratar-autistas-de-comportamento-agressivo/


Foto de uma mulher de cabelos loiros deitada em um leito hospitalar, descordada, sendo submetida a uma eletroconvulsoterapia.

Eletroconvulsoterapia (ECT) gera estimulação cerebral por corrente elétrica e provoca convulsões. Foto: Reprodução.


E na dica de livro, falo sobre ‘Crianças de Asperger: As origens do autismo na Viena nazista’, publicado em 2019 pela editora Record, escrito pela historiadora americana Edith Sheffer, especialista em história da Alemanha e da Europa Central, consultora da Universidade da Califórnia, em Berkeley.

É aterrorizante e muito forte, detalha como Johann “Hans” Friedrich Karl Asperger, austríaco, psiquiatra que nasceu em 1902 e morreu em 1980, médico que dá nome à Síndrome de Asperger, cientista celebrado por sua defesa das pessoas com deficiência, que introduziu, junto com o colega Leo Kanner, o termo ‘autismo’ para definir determinados comportamentos, teve participação no extermínio de crianças com deficiência, principalmente com deficiência intelectual, durante o regime nazista na Europa.

O título de um dos capítulos mais chocantes é ‘Asperger e o sistema de assassinatos’, fala sobre a sociedade do médico com os diretores da clínica infantil Spiegelgrund, em Viena, onde, segundo registros, aproximadamente 800 crianças foram submetidas à eutanásia porque tinham deficiências com sequelas severas e eram consideradas impossíveis de ensinar, de tratar, porque não havia nenhuma possibilidade de oferecer a elas qualquer benefício.

É também um livro que evidencia de que maneira a sociedade avalia, rotula e trata pessoas com deficiência.

Está à venda na internet, é fácil de achar.



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