Vencer Limites na Rádio Eldorado – 19

Vencer Limites na Rádio Eldorado – 19

A coluna Vencer Limites na Rádio Eldorado FM (107,3) vai ao ar toda terça-feira, às 7h20, ao vivo, no Jornal Eldorado.

Luiz Alexandre Souza Ventura

18 de janeiro de 2022 | 12h39



Neste 19º episódio da coluna Vencer Limites na Rádio Eldorado FM, falo sobre arte inclusiva e o combate ao racismo.

Quando nós falamos sobre uma peça de teatro inclusiva e acessível para pessoas com deficiência auditiva, isso precisa ser entendido como algo que tem vários recursos, não apenas Libras, porque o universo da surdez vai muito além da Língua Brasileira de Sinais. Já é possível, por exemplo, inserir legendas, mesmo ao vivo, nos espetáculos, com o uso de óculos de realidade virtual, o que representa um avanço substancial.

A proposta do grupo Ciclistas Bonequeiros com a peça infantil ‘Histórias Gregas em Sinais e Imagens’ é uma nova evolução, com apresentação simultânea do espetáculo em português e Libras, mas não naquele formato habitual do tradutor e intérprete no canto do palco, direcionado ao público surdo que se comunica em Libras. A trupe propõe um ‘casamento’ da Língua Brasileira de Sinais com a Língua Portuguesa, expostas de maneira simultânea, unindo as duas narrativas.

O grupo usa uma técnica japonesa chamada Kamishibai, que significa ‘teatro de papel’, surgiu nos templos budistas japoneses lá no século 12, na qual um contador usava uma caixa-cenário, visitava povoados e narrava histórias para crianças que jamais haviam visto uma encenação artística.

Os Ciclistas Bonequeiros usam uma bicicleta e uma caixa que se transforma em cenário, e duas personagens apresentam mitos gregos como ‘A Caixa de Pandora’, ‘Asas de Ícaro’, ‘Prometeu Acorrentado’ e ‘Ulisses e as Sereias’.

Até o fim de janeiro, se apresentam nos Centros Educacionais Unificados (CEUs) da cidade de São Paulo. No blog tem a agenda completa, com endereços e horários. E também um vídeo com trechos da peça.


Encenação do espetáculo 'Histórias Gregas em Sinais e Imagens' em uma sala. Duas atrizes se apresentam para um grupo de crianças. Atrás da artistas está a bicicleta com a caixa-cenário.

Trupe usa a técnica japonesa Kamishibais, com uma caixa-cenário. Foto: Divulgação / Gustavo Guimarães Gonçalves.


O governo brasileiro promulgou a Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância, firmada na Guatemala, em 5 de junho de 2013.

Essa promulgação foi publicada na terça-feira da semana passada, dia 11 de janeiro, no Diário Oficial da União (DOU), com o Decreto nº 10.932, assinado pelo presidente Jair Bolsonaro no dia anterior.

“Discriminação racial é qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência, em qualquer área da vida pública ou privada, cujo propósito ou efeito seja anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício, em condições de igualdade, de um ou mais direitos humanos e liberdades fundamentais consagrados nos instrumentos internacionais aplicáveis aos Estados Partes. A discriminação racial pode basear-se em raça, cor, ascendência ou origem nacional ou étnica”, diz o artigo 1.

Em dezembro do ano passado, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu que o crime de injúria racial pode ser equiparado ao de racismo e, por isso, ser considerado imprescritível.

Agora, resta saber como tudo isso será aplicado no dia a dia, na abordagem à população negra, principalmente de baixa renda, pobre, que vive nas comunidades, na periferia. E também como isso se encaixa nas reações aos ataques cometidos contra pessoas negras na internet, qual será o reflexo disso na construção de políticas públicas, no mercado de trabalho, na representatividade.

É, claro, uma conquista da luta contra o racismo, mas que precisa ter resultados efetivos nesse combate.


No Rio de Janeiro, em 20/11/2021, integrantes de movimentos contra o racismo se reuniram em frente ao monumento em homenagem a Zumbi dos Palmares. Foto: Frente Nacional Antirracista.

No Rio de Janeiro, em 20/11/2021, integrantes de movimentos contra o racismo se reuniram em frente ao monumento em homenagem a Zumbi dos Palmares. Foto: Frente Nacional Antirracista.


Na dica de livro, ‘Clínica do Impossível: Linhas de Fuga e de Cura’, primeiro livro do psicólogo Lucas Veiga, tem dez textos escritos pelo autor a partir de experiências clínicas com pessoas negras.

Quando fala em impossível, ele se refere à prática terapêutica com pessoas pretas que expõem suas questões individuais, mas têm uma igualdade no entendimento de que é impossível destruir o racismo de maneira imediata.

“Todos os meus pacientes, negros e negras, continuarão lidando com a violência do racismo, inclusive eu”.

Nesse sentido, o psicólogo destaca a sensação de impotência e insuficiência, lembrando como era impossível para a população negra sobreviver ao projeto de extermínio do colonialismo e, atualmente, sobreviver ao que o autor chama de “genocídio ainda presente no Brasil”, mesmo que as pessoas negras ocupem seus espaços nas ciências, na música, na literatura, na filosofia, na política, nas artes, nos esportes.

Ele fala da convivência com a “máquina mortífera” do racismo.

Tem um capítulo sobre os efeitos da pandemia de covid-19 na saúde mental dos indivíduos e como tudo isso gera uma dificuldade radical em lidar com os ambientes externos.

Livro: Clínica do Impossível: Linhas de Fuga e de Cura
Autor: Lucas Veiga (psicólogo)
Editora: Telha
Data de lançamento: novembro de 2021


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Clique na imagem para comprar o livro. Crédito: Divulgação.


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