Vencer Limites na Rádio Eldorado – 27

Vencer Limites na Rádio Eldorado – 27

A coluna Vencer Limites na Rádio Eldorado FM (107,3) vai ao ar toda terça-feira, às 7h20, ao vivo, no Jornal Eldorado.

Luiz Alexandre Souza Ventura

15 de março de 2022 | 15h19

Quem liga para as pessoas com deficiência?

Clique na imagem para ouvir a coluna. Foto: blog Vencer Limites.


Neste 27º episódio da coluna Vencer Limites na Rádio Eldorado FM (107,3), celebro seis meses da coluna e volto a falar sobre a situação da população com deficiência na Ucrânia.

Decidi fazer essa cobertura, aqui do Brasil, à distância, online, acompanhando instituições internacionais, em contato com pessoas da Ucrânia, para mostrar que a exclusão na exclusão, a invibilidade entre os invisíveis, a negligência entre os negligenciados e a discriminação entre os discriminados define o destino das populações com deficiência.

Pessoas negras são segregadas, selecionadas e impedidas de entrar nos países. Na imprensa de EUA e Europa, ao falar sobre a violência e a morte sem razão de civis, âncoras e repórteres repetiram que “não está acontecendo na África ou Oriente Médio. Crianças loiras, de olhos azuis, estão morrendo”. Até o Príncipe William, da Inglaterra, disse isso.

É o valor da vida de uma pessoa de acordo com a cor da pele e o lugar onde ela mora. É a morte irrelevante, insignificante, de crianças que não são loiras e não têm olhos azuis, por exemplo, no Afeganistão, na Síria, no Iraque, no Iêmen, na Somália, onde é impossível conseguir informação sobre as populações com deficiência.

Na Ucrânia, as últimas semanas mostram que a população com deficiência, mais uma vez, está no etcetera da história.

Publiquei duas matérias sobre idosos com deficiência que permaneciam em uma casa de repouso, em Bucha, na região de Kiev. Pelo Telegram, conversei com a Victoria Stasiv, jovem que está em Lviv, e Igor Kovalenko, diretor da casa de repouso.

A região foi bombardeada, funcionários conseguiram retirar às pressas quem ainda tem mobilidade, mas algo entre 35 e 40 idosos, com deficiência visual, Alzheimer, demência, Parkinson, sequelas de AVCs e outras condições, ficaram no local, sozinhos. Os funcionários não conseguiam voltar. Nada sobre isso foi publicado pela imprensa internacional ou da Ucrânia.

Fiz a matéria assim que soube da situação e, para pressionar o poder público de Bucha, os voluntários e até a Cruz Vermelha, Victoria usou minha reportagem sobre essa situação, porque era a única sobre a situação daqueles idosos com deficiência.

Victoria disse que um jornalista do Brasil era a única pessoa que se importava com aqueles idosos e perguntou aos governates ucranianos, aos voluntários e à Cruz Vermelha por que ninguém dava qualquer importância para aqueles idosos. Até que todos foram resgatados.

Quem liga para as pessoas com deficiência? Da Ucrânia, do Afeganistão, da Síria, do Iraque, do Iêmen, da Somália? Quem liga para as pessoas com deficiência do mundo, principalmente dos países que são destruídos por guerras?

A situação dos idosos com deficiência mostra que, definitivamente, quando ninguém se importa, ninguém liga e ninguém age, o destino das pessoas com deficiência do Brasil, da Ucrânia e do mundo será o mesmo: a invisibilidade e, no caso da guerra, a morte.



Na dica de livro, ‘Torre das Guerreiras e outras memórias’, de Ana Maria Ramos Estevão, publicado em 2022 pela Editora 106 com a Fundação Rosa Luxemburgo, com prefácio da ex-presidenta Dilma Rousseff, é uma obra sobre a ditadura no Brasil, escrito por quem foi alvo da violência desse período.

Em 1969, a autora tinha 20 anos e morava em uma república de estudantes, em São Paulo. O local foi invadido por homens com metralhadoras, sob o argumento de que ali funcionava um abrigo clandestino.

Eram agentes da OBAN, a Operação Bandeirante, membros da Aeronáutica, da Marinha, da Polícia Federal, do Serviço Nacional de Informações, da Secretaria de Segurança Pública, do Departamento de Ordem Política e Social, da Força Pública do Estado de São Paulo e da Guarda Civil. OBAN foi o maior centro de tortura e assassinatos da ditadura.

Ana Maria foi levada para o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e depois para o Presídio Tiradentes, que ficava no Bom Retiro.

Nesse presídio, a ala que abrigava as mulheres, as presas políticas, era chamado internamente, pelos detentos homens, de Torre das Donzelas, mas as próprias mulheres mudaram esse nome para Torre das Guerreiras. Quem já estava presa na Torre quando Ana Maria chegou era Dilma Rousseff.

O livro conta essa história, também detalha dois encontros da autora com o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra e descreve as muitas sessões de tortura que Ana Maria enfrentou.


Capa do livro Torre das Guerreiras.

Uma obra sobre a ditadura no Brasil, escrita por quem foi alvo da violência desse período. Foto: Reprodução.


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