Vencer Limites na Rádio Eldorado – 29

Vencer Limites na Rádio Eldorado – 29

A coluna Vencer Limites na Rádio Eldorado FM (107,3) vai ao ar toda terça-feira, às 7h20, ao vivo, no Jornal Eldorado.

Luiz Alexandre Souza Ventura

29 de março de 2022 | 12h15

Quem representa as pessoas com deficiência?

Clique na imagem para ouvir a coluna. Foto: blog Vencer Limites.


Neste 29º episódio da coluna Vencer Limites na Rádio Eldorado FM (107,3), falo sobre o aparelhamento do Conade, a postura do LinkedIn diante de uma vaga inclusiva de trabalho e as ameaças ao escritor Jeferson Tenório, autor de ‘O Avesso da Pele’.

A nova formação do Conade, o Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, foi divulgada na semana passada. São 15 integrantes, não remunerados, para o mandato de 2022 a 2025.

Instituições e entidades de classe que não participaram, por decisão própria, do processo de seleção para o Conade, afirmam que o Conselho está aparelhado pelo governo Bolsonaro e que, desta forma, não representa mais os interesses da população com deficiência. Representa apenas os interesses do governo e das instituições selecionadas.

Essa afirmação tem base na modificação do processo de escolha dos integrantes, que era feito por meio de eleição, com votação de várias pessoas e instituições, e que, a partir de um decreto de 2019, se tornou um processo seletivo, e essa seleção é feita exclusivamente pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, comandado por Damares Alves. Faz parte desse ministério a Secretaria Nacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência.

Além da mudança no formato, de eleição para seleção, também é criticada a exclusão dos conselhos estaduais, municipais e distrital, considerada uma prova de que o governo quer realmente extinguir a participação social e política das pessoas com deficiência na elaboração e implementação de legislações, programas e projetos voltados a essa população.

Isso, inclusive, é uma violação da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, que o Brasil assinou em 2009.

Essas instituições que falam sobre o aparelhamento do Conade já tomam como certa a aprovação pelo Conselho do Modelo Único de Avaliação Biopsicossocial da Deficiência para regulamentação do artigo 2º da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (nº 13.146/2015). Já falei sobre isso. Esse modelo foi elaborado com base em um relatório divulgado no ano passado pelo MMFDH, o documento recebeu muitas críticas por ter sido feito sem a participação efetiva das pessoas com deficiência.

O governo nega que haja aparelhamento e diz que as instituições insatisfeitas nem se inscreveram para o processo seletivo.



Na semana passada, a rede social LinkedIn derrubou uma publicação do Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo sobre uma vaga para coordenação do setor administrativo e financeiro, que dava prioridade a pessoas negras e indígenas.

É uma ação afirmativa, algo fundamental diante da desiguldade brasileira, especialmente no que diz respeito à inclusão no mercado de trabalho.

O LinkedIn derrubou o post e argumentou que contrariava as políticas de publicação de vagas, que não permitem exclusão ou demonstração de preferência por profissionais, seja por idade, gênero, raça, etnia, religião ou orientação sexual.

No mundo de Bob, no País das Maravilhas, em Nárnia ou em Etérnia, talvez essa reação do Linkedin tenha sentido, mas no Brasil, dependendo da empresa ou até de quem escolhe a pessoa na empresa, idade, gênero, raça, etnia, religião ou orientação sexual simplesmente impedem a evolução profissional das pessoas.

Também na semana passada, o escritor Jeferson Tenório, homem negro, premiado, foi ameaçado de morte depois que a presença dele foi confirmada em uma palestra numa escola de Salvador, na Bahia.

As ameaças diziam que ele teria o “CPF cancelado” ou que “teria de fugir do país” para não ser metralhado.

Jeferson Tenório é autor de ‘O Avesso da Pele’ (2020, Companhia das Letras), vencedor do Prêmio Jabuti de 2021, um romance sobre identidade, relações raciais, violência e negritude.

Conta a história do personagem Pedro, que tem o pai assassinado em uma abordagem policial e sai em busca do passado da própria família para refazer os caminhos paternos. É uma obra sobre racismo e a falência do sistema educacional, e também sobre as relações entre pais e filhos.


Jeferson Tenório é autor de 'O Avesso da Pele' (2020, Companhia das Letras), vencedor do Prêmio Jabuti de 2021, um romance sobre identidade, relações raciais, violência e negritude.

Jeferson Tenório é autor de ‘O Avesso da Pele’ (2020, Companhia das Letras), vencedor do Prêmio Jabuti de 2021. Foto: Reprodução.


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