Vencer Limites na Rádio Eldorado – 41

Vencer Limites na Rádio Eldorado – 41

A coluna Vencer Limites na Rádio Eldorado FM (107,3) vai ao ar toda terça-feira, às 7h20, ao vivo, no Jornal Eldorado.

Luiz Alexandre Souza Ventura

21 de junho de 2022 | 07h00

Foto em preto e branco de suas mulheres sorrindo. À frente, a frase 'não mexa nos meus privilégios'.

Clique na imagem para ouvir a coluna. Foto: blog Vencer Limites.


Neste 41º episódio da coluna Vencer Limites na Rádio Eldorado FM (107,3), falo sobre o vídeo das duas influenciadoras de Anápolis que ridicularizaram a vaga para autistas em um estacionamento. Também comento os índices de acessibilidade digital da internet brasileira, que são os piores da história, segundo dois estudos divulgados neste mês. E, na dica de livro, indico ‘Deficiência e os Desafios para uma Sociedade Inclusiva’.

O exercício da empatia, quando nos colocamos no lugar de outra pessoa e tentamos entender as dificuldades que ela enfrenta, passa pelo reconhecimento dos nossos privilégios e por uma autoavaliação a respeito da nossa disposição em abrir mão desses privilégios.

Há um discurso comum, quando os acessos para pessoas com deficiência são obtidos pela força da lei, de que esses acessos são vantagens. Coloque nessa lista as cotas no mercado de trabalho, as vagas reservadas nas universidades, os recursos de acessibilidade nas escolas, as isenções de impostos para comprar carro novo e, claro, os espaços específicos nos estacionamentos.

Essa avaliação não tem base apenas no desconhecimento, no preconceito, no capacitismo, é fruto também de um sentimento de exclusividade, de querer ser alguém maior, mais importante, que ocupa e frequenta espaços onde quase ninguém mais pode entrar.

A reação das duas influencidoras de Anápolis, em Goiás, registrada no vídeo que viralizou na semana passada, é mais uma demonstração do pensamento: ‘não mexa nos meus privilégios’. Larissa Rosa, que se apresenta como maquiadora, tem 36 mil seguidores no Instagram. Vania Rosa, identificada como professora e consultora de etiqueta, tem 75 mil seguidores, também no Instagram. Filha e mãe que foram juntas ao shopping e decidiram mostrar uma indignação contra a existência de uma única vaga para autistas no estacionamento.

Essa vaga existe porque assim está determinado na Lei nº 12.764/2012, que instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista.

Note no vídeo que, além da zombaria e das ofensas a pessoas obesas, LGBTQIAP+ e pessoas com deficiência, a Larissa pergunta ‘cadê a minha vaga?’, ou seja, cadê o meu privilégio, a minha vantagem, essa exigência elitista asquerosa de ter tudo. E que ninguém mais tenha nada.

Ambas pediram desculpas, mas isso não foi feito porque elas entenderam a necessidade daquela vaga para autistas no estacionamento, porque essa explicação já foi apresentada um milhão de vezes. E quantas milhões de vezes mais precisaremos explicar? O mea culpa é parte do pacote, mas a conduta não afeta o sucesso das duas influenciadoras na redes, até porque o número de seguidores de ambas aumentou.

A polícia de Anápolis informou que pretende indiciar Larissa e Vania por praticar, induzir ou incitar discriminação de pessoa em razão de sua deficiência, com base no artigo 88 da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (nº 13.146/2015), mas isso ainda vai demorar para ser concluído.

Enquanto isso, no mundo que não é repleto de privilégios, as pessoas com deficiência continuam excluídas, como demostram, por exemplo, os índices de acessibilidade digital da internet brasileira, que são os piores da história, segundo dois estudos divulgados neste mês.

O primeiro levantamento da TIC Web Acessibilidade / Ceweb.br mostra que somente 0,7% dos portais e páginas sob o domínio gov.br (federais, estaduais e municipais) são plenamente acessíveis. E a quarta edição da pesquisa BigDataCorp / Movimento Web Para Todos constatou que apenas 0,46% dos 21 milhões de websites do País estão livres de barreiras para pessoas com deficiência, o nível mais baixo já registrado desde a estreia desse trabalho, em 2019.

O resultado é a exclusão em massa da população com deficiência, com impedimentos para solicitação de serviços públicos, compras online, consumo de informações – inclusive notícias – e navegação em geral pela web. Além da afronta direta à Lei Brasileira de Inclusão.



Na dica de livro, indico ‘Deficiência e os Desafios para uma Sociedade Inclusiva’ (2022, Editora Foco), que reúne artigos de 93 especialistas em direitos da pessoa com deficiência. O prefácio foi escrito pela ministra do Superior Tribunal da Justiça (STJ) Nancy Andrighi. E a senadora Mara Gabrilli (PSDB-SP) assina o posfácio.

A ideia dessa coleção partiu do Igor Lima da Cruz Gomes, um advogado de 26 anos que tem paralisia cerebral. Em 2018, publiquei uma reportagem sobre as dificuldades que o Igor, ainda estudante, enfrentava para chegar à faculdade na cadeira de rodas motorizada.

Igor é um dos organizadores dessa série, junto com Leonardo Rocha de Almeida, da procuradoria geral da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), e João Pedro Leite Barros, do Instituto Ibero-americano de Estudos Jurídicos (IBEROJUR).

O lançamento oficial será em 16 de agosto, com evento presencial no Espaço Cultural do STJ, em Brasília (DF), mas a coleção de três volumes já está em pré-venda (clique aqui).


Arte com imagens dos três livros da coleção 'Deficiência e os Desafios para uma Sociedade Inclusiva' e fotos dos três coordenadores.

Clique na imagem para acessar a página da editora. Foto: Reprodução.


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