Vencer Limites na Rádio Eldorado – 44

Vencer Limites na Rádio Eldorado – 44

A coluna Vencer Limites na Rádio Eldorado FM (107,3) vai ao ar toda terça-feira, às 7h20, ao vivo, no Jornal Eldorado.

Luiz Alexandre Souza Ventura

12 de julho de 2022 | 07h01

Foto preta e brfanca do humorista Leo Lins com uma fita na boca e algemas nos pulsos. À frente da imagem, a frase 'capacitismo recreativo'.

Clique na imagem para ouvir a coluna. Foto: blog Vencer Limites.


Neste 44º episódio da coluna Vencer Limites na Rádio Eldorado FM (107,3), comento a repercussão da fala de Leo Lins sobre uma criança com hidrocefalia e a ação do Ministério Público do Ceará contra o humorista. Na dica de leitura, indico um livro que será lançado em breve sobre a vida de um menino que tem atrofia muscular espinhal.

A fala de Leo Lins sobre o Teletonn e a criança do Ceará com hidrocefalia, além de provocar a demissão do comediante pelo SBT e de motivar uma ação civil pública pelo Ministério Público do Ceará, gerou um debate nas redes sociais, principalmente no Twitter, sobre a tal liberdade de expressão e sobre as funções da Justiça e do judiciário em casos desse tipo.

“Eu acho muito legal o Teleton, porque eles ajudam crianças com vários tipos de problema. Eu vi um vídeo de um garoto do interior do Ceará com hidrocefalia. O lado bom é que o único lugar na cidade onde tem água é a cabeça dele. A família nem mandou tirar, instalou um poço. Agora o pai puxa a água do filho e todos estão felizes e tomam banho”, disse o humorista (ouça abaixo).



Presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência da OAB Ceará, Emerson Maia Damasceno, esclarece os motivos da representação contra Leo Lins.


“A ação visa coibir que o humorista continue fazendo piadas de cunho preconceituoso contra pessoas com deficiência, idosos e outras minorias. Lins tem show agendado em Fortaleza no próximo dia 30 de julho. Também pede que a Justiça determine a aplicação de multa no valor de R$ 20 mil por cada menção desrespeitosa a quaisquer minorias que eventualmente seja feita durante o show”, diz o comunicado oficial do MPCE.

As reações que acusam um suposto ataque à liberdade de expressão aparecem aos montes. Muita gente afirmou que a Justiça, o judiciário e o Ministério Público têm mais o que fazer, que há muitos “bandidos de verdade” soltos por aí e que esses sim precisam ser encontrados, processados e presos.

Para responder a essas afirmações, nós precisamos ler o que está escrito na representação assinada pelo presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência da OAB Ceará, Emerson Maia Damasceno, além do presidente e da vice-presidente da secção, José Erinaldo Dantas Filho e Christiane do Vale Leitão.

“Ressaltamos que apoiamos a liberdade de expressão, mas é necessário afirmar que “piadas” dessa natureza são indignas, reiterada falta de sensibilidade e de respeito demonstrada pelo artista, e que fatos dessa natureza não podem ficar imune à lei”.

O termo ‘capacitismo’ identifica manifestações de discriminação voltadas às pessoas com deficiência, de preconceito. E nesse caso, a OAB Ceará cita o ‘capacitismo recreativo’, ou seja, a discriminação e o preconceito que pretendem fazer rir.

Também tem muitos comentários sobre censura e o tal limite do humor.

Discordo totalmente desse pensamento, de que as ações oficiais contra Leo Lins são censuras ou uma tentativa de impor limites ao humor. Aliás, entendo que estabelecer limites ao humor é inúltil e perigoso, mas esse mesmo humor não está acima da diginidade de qualquer pessoa, com ou se deficiência, e há consequências.

Não há impedimentos aos shows de Leo Lins, mas há reações. E como não poderia haver reações, uma vez que a meta de Leo Lins é sempre o escárnio. Essas reações contrárias à tal piada, nas redes sociais, por parte das instituições que defendem as pessoas com deficiência – principalmente a AACD -, do SBT, da OAB Ceará, do Ministério Público do Ceará e da Justiça, talvez, provavelmente, não são as reações que Leo Lins e outros do tipo esperam de suas piadas.

Ao que parece, Leo Lins e seus semelhantes não sabem conviver com o contraditório nem com reações que não sejam de aplauso e concordância. Quando recebem de volta algo com a mesma proporção que lançam, mas discordante, sempre dão chilique, faniquito.

A liberdade de expressão nunca foi tão forte e a profissão de comediante não está criminalizada.

Leo Lins exerce essa liberdade de expressão, declara todo tipo de bobagem e sobrevive da polêmica que provoca, mas nunca aceita as consequências. Ele zombou de uma criança com hidrocefalia que é atendida pela AACD e zombou do Teleton, que é a principal campanha de arrecadação da AACD, fundamental para os trabalhos da instituição na reabilitação de crianças com deficiência, evento transmitido há 25 anos pelo SBT, empresa onde trabalhava. A importância do Teleton para o SBT é muito maior do que a presença de Leo Lins nos quadros da emissora. Então, ele foi demitido pelo SBT. Uma consequência.

Figuras como Leo Lins e outros tantos ‘defensores da liberdade de expressão’ chamam a reação às suas bobeiras de ‘mimimi’, mas são os reis desse ‘mimimi’ porque projetam acusações para todo lado, afirmam que somente o ‘politicamente correto’ é aprovado, tratam tudo com descaso e não conseguem conviver com os resultados contraditórios.


Desenho de um menino emuma cadeira de rodas, rodeado pela frase 'gianlucca, um herói contra a ame'.

Editora do livro ‘Gianlucca, um herói contra a AME’ ainda não foi definida. Foto: Reprodução.


Será lançado em breve o livro que conta a vida de Gianlucca Trevellin e sua luta contra a atrofia muscular espinhal. Acompanho essa trajetória há alguns anos e sei bem como tem sido essa batalha, liderada Renato Trevellin, pai do Gianlucca, e de sua família.

O livro terá aproximadamente 200 páginas e vai relatar todos os passos, desde os primeiros sintomas, os exames, as dúvidas, a confusão com outras doenças e os detalhes objetivos que explicam o que é a AME, como é o diagnóstico, o que a família Trevellin fez, como os pais e a irmã se sentiram diante dessa condição.

Escrito pelo jornalista e psicanalista Giovanni Cesar Silva, é o resultado de longas conversas do autor com familiares, médicos, advogados, autoridades da saúde, parlamentares, outros jornalistas e também religiosos.

Está na fase final de revisão dos textos, nas etapas que antecedem a impressão e ainda falta definir qual será a editora. A meta é fazer um lançamento simultâneo em São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro e outras capitais, com debates sobre doenças raras, o papel do Estado e da sociedade.

Para saber mais, acesse GianluccaHeroiContraAME.com.br.


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