“Vivemos rodeados de hidrelétricas, mas não temos luz”

“Vivemos rodeados de hidrelétricas, mas não temos luz”

Artigo de Kérsia Celimary, cega, socióloga, moradora de Macapá, exclusivo para o #blogVencerLimites. "Condomínios de luxo têm energia o dia inteiro, mas quem mora na periferia, apenas duas horas de luz".

Luiz Alexandre Souza Ventura

17 de novembro de 2020 | 11h38

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Kérsia Celimary tem 35 anos, é morena, tem cabelos pretos, longos e ondulados. Está sentada em frente ao computador, com as mãos no teclado. Crédito: Arquivo pessoal / Kérsia Celimary.

Descrição da imagem #pracegover: Kérsia Celimary tem 35 anos, é morena, tem cabelos pretos, longos e ondulados. Está sentada em frente ao computador, com as mãos no teclado. Crédito: Arquivo pessoal / Kérsia Celimary.


Moradores do Amapá enfrentam as consequências de um apagão que atinge todo o estado desde a noite de 3 de novembro, provocado por um incêndio em uma subestação de transmissão de energia. A população é submetida a um revezamento no fornecimento de luz e o governo federal, depois de ignorar a situação por dias, contratou energia de termelétricas.

Em artigo exclusivo para o #blogVencerLimites, a socióloga Kérsia Celimary, que é cega e mora em Macapá, descreve a situação.


Kérsia Celimary tem 35 anos, é morena, tem cabelos pretos, longos e ondulados. Está sentada, com as mãos unidas sobre as pernas. Crédito: Arquivo pessoal / Kérsia Celimary.

Descrição da imagem #pracegover: Kérsia Celimary tem 35 anos, é morena, tem cabelos pretos, longos e ondulados. Está sentada, com as mãos unidas sobre as pernas. Crédito: Arquivo pessoal / Kérsia Celimary.


Workshop apocalítico
por Kérsia Celimary*

É inadmissível que, em pleno século XXI, os interesses de poucos sejam colocados acima da população de um estado inteiro, mais de 800 mil pessoas.

É o que acontece no Amapá, onde começa o Brasil, considerado por muitos como um ‘estado pobre’.

Desde 3 de novembro, se estabeleceu o caos.

Em meio a uma tempestade, caiu o blecaute. Pensávamos que era uma simples falta de luz, que logo voltaria. Engano. O dia seguinte chegou, e nada.

Começaram os primeiros transtornos, alimentos estragando nos refrigeradores, comerciantes perdendo mercadorias perecíveis, telefonia e internet fora do ar. Ninguém sabia o que estava acontecendo. O apagão continou pela segunda noite.

No dia seguinte, começaram a surgir as primeiras notícias. ‘Um raio caiu na subestação que fornece energia ao Amapá, não tem previsão de quando a luz voltará, 14 dos 16 municípios do estado estão no escuro’.

Pessoas se desesperaram, estocaram água e alimentos não perecíveis.

No terceiro dia, mais notícias. ‘A energia vai demorar, no mínimo, 15 dias para começar a ser restabelecida’.

Então, foi determinado um racionamento. E as desigualdades se mostraram. Condomínios de luxo com 24 horas de energia, mas quem mora em pontos periféricos do estado tem apenas duas horas de luz por dia.

A tabela do racionamento não é cumprida.

Quando começamos a crer que esse workshop apocalíptico não iria trazer mais surpresas, as eleições municipais foram adiadas aqui na capital, Macapá.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, irmão de Josiel Alcolumbre, candidato à prefeitura de Macapá, disse que “Josiel foi o único prejudicado com o apagão”.

Desde o blecaute, o nome de Josiel caiu nove pontos percentuais nas pesquisas de intenção de voto.

Não deveria haver eleição em todo o estado porque, além do apagão, segundo Davi Alcolumbre, “existem milícias ameaçando a população”. Então, é um questão lógica.

A iluminação proporcionada pela eletricidade não me faz falta, vivo sem ela desde que nasci, mas percebo o desespero de tantas pessoas que se orientam pela luz. Minha família, meus amigos, que dependem dessa energia para sobreviver, com conforto e qualidade de vida.

Pessoas com ou sem deficiências, sofremos com o descaso das empresas responsáveis pela fiscalização dos geradores.

É inadmissível uma empresa privada continuar a comandar as subestações no Amapá e chega a ser irônico viver em um lugar com quatro hidrelétricas ao redor, mas não ter luz.

Se não tivesse vivenciado essa situação e me contassem, eu custaria a acreditar.

*Kérsia Celimary Silvestre Ferreira, de 35 anos, é cega, socióloga, cofundadora do Instituto Inclusão no Meio do Mundo (IIMM), em Macapá (AP), e apresentadora da Rádio Inclusão no Meio do Mundo.



Vídeo produzido pela Helpvox com a versão da reportagem na Língua Brasileira de Sinais.

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