Luciano Belford / Estadão
Luciano Belford / Estadão

1 em cada 4 crianças já sofreu ofensas na internet; cyberbullying desafia pais

Porcentual de vítimas cresce ano a ano: passou de 15% em 2014 para 23% no ano passado. Falta de intimidade de adultos com tecnologia – enquanto crianças são nativas digitais – é uma das explicações para a dificuldade dos pais de identificar riscos

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

17 Dezembro 2017 | 03h00

Quando entrou em um colégio novo, na zona oeste do Rio, os problemas começaram para Laura, de 13 anos. “Ela é popular. Faz amizade fácil e é bonita. Aquilo provocou a ira de um grupo de colegas”, lembra Rita, de 46 anos, mãe da jovem. Para conter as brigas na escola particular, a menina foi trocada de turno, mas a família jamais imaginaria que, mesmo distante dos antigos colegas, as agressões continuariam em outro espaço: o virtual.

“Achei que haveria um basta. Mas foi pior. Pegaram a foto dela e botaram nas redes sociais. Fizeram o horror”, conta a mãe. “Se ela abria o live (vídeo ao vivo na internet), sempre entrava um e xingava.” Laura foi ofendida com palavras como “rata” e “demônio” nas redes sociais. 

A situação ficou insustentável até que a mãe trocou a menina de escola no meio do ano. “A foto da minha filha deve andar na internet. Agora, ela está com trauma, no psicólogo. Amava publicar nas redes e não posta mais.” Os nomes de vítimas e familiares foram trocados na reportagem para preservá-los. 

Casos como o de Laura não são isolados. Pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), de outubro, mediu o comportamento online de jovens. Os dados revelam que, de cada quatro crianças e adolescentes, um foi tratado de forma ofensiva na internet, o que corresponde a 5,6 milhões de meninos e meninas entre 9 e 17 anos. O porcentual cresce ano a ano: passou de 15% em 2014 para 20% em 2015 até chegar a 23% no ano passado. 

“Nesse dado (sobre ofensas online), a criança ou adolescente foi exposto a um risco, mas não necessariamente teve alguma sequela”, pondera Maria Eugenia Sozio, coordenadora da pesquisa TIC Kids Online Brasil. 

A taxa, portanto, nem sempre corresponde a cyberbullying – quando a agressão virtual é repetida –, mas faz soar o alerta para perigos que crianças e adolescentes correm na web e a importância da atenção dos pais. 

Efeitos. Segundo especialistas, as ofensas na internet podem ter impacto ainda maior na vida das crianças. “Uma postagem atinge número incontável de pessoas e isso aumenta o sofrimento da vítima. Ela não sabe quem viu ou não”, afirma a psicóloga e pesquisadora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Luciana Lapa. 

Em casos de agressão na escola, o jovem encontra refúgio em casa. “No cyberbullying, não. Onde quer que ele vá, a agressão vai junto”, diz Luciana. Outro problema é a gravidade das ofensas, encorajadas pela distância física da vítima. Também é comum que as agressões partam de pessoas da mesma faixa etária e que fazem parte do convívio. 

Para a pedagoga e psicopedagoga clínica e institucional Denise Aragão, as ofensas podem afetar até o desempenho na escola. “As crianças ficam preocupadas em se defender e perdem o desejo de aprender.”

O uso crescente dos smartphones pelos jovens, com acesso cada vez mais particular, desafia a mediação dos pais. 

A gerente de operações Ana, de 53 anos, conhecia os riscos da internet, mas se assustou quando passou por uma situação constrangedora na família. Quando a filha tinha 14 anos (hoje ela tem 18), uma foto íntima da garota vazou entre alunos de uma escola particular na zona sul paulistana após uma brincadeira entre amigas. Os celulares facilitaram a propagação. 

“Ela ficou envergonhada. Foi uma semana de constrangimentos”, conta. “Em casa, fizemos questão de explicar o quão sério aquilo era. Mostramos que isso pode ficar no currículo dela para o resto da vida.” 

Mediação. A mãe de Helena, de 10 anos, só percebeu o problema depois que notou que a filha estava cabisbaixa e chorava pelos cantos. “Fizeram um grupo no WhatsApp (entre os colegas da escola) para xingá-la por causa da cor. Chamavam de macaca e ‘nega’ do cabelo duro”, conta a assistente administrativa Adriana, de 39 anos. 

Ela procurou os pais dos agressores. “Fazia uma semana que um deles tinha dado um celular para uma das meninas. Foi aí que ele descobriu. Acho que os pais deveriam prestar mais atenção ao que o filho faz na internet”, desabafa. 

Apesar de 23% das crianças e adolescentes terem relatado à pesquisa que foram vítimas de ofensas na internet, só 11% dos pais disseram que os filhos passaram por incômodos. 

A falta de intimidade de adultos com a tecnologia – enquanto as crianças são nativas digitais – ajuda a explicar a dificuldade das famílias em identificar riscos. “O gap existe, mas é preciso revertê-lo. Uma sugestão é estar disponível, querer saber o que a criança faz na internet”, diz Heloisa Ribeiro, da Childhood Brasil, entidade de proteção a crianças e adolescentes.

Regras para cuidar melhor

1. Início. Identifique se seu filho está pronto para acessar a internet. A web oferece possibilidades e riscos. “É a maior rua do mundo. Se a criança não tem maturidade para andar sozinha na rua, também não tem para ficar sozinha na internet”, diz Rodrigo Nejm, psicólogo e diretor de educação da SaferNet.

2. Diálogo. Negocie com as crianças as regras de acesso, tempo e tipo de uso desde o primeiro clique. 

3.Limite. Respeite a idade mínima de acesso definida pelas redes sociais. Para Facebook e Instagram, por exemplo, é de 13 anos. “É importante não permitir criar perfis pondo data de aniversário errada. É quebrar a 1.ª regra”, diz Heloisa Ribeiro, da Childhood Brasil.

4. Presença. Participe da vida digital do seu filho. No caso de crianças, acesse a internet ao lado delas e peça para mostrarem o que fazem. É sempre importante orientar sobre comportamentos inadequados. Envolva a escola e outros pais na discussão. 

5. Restrição. Para crianças mais novas, colocar filtros para conteúdos impróprios pode ser útil. “Os programas de filtro ajudam, mas não substituem o acompanhamento dos pais”, pondera Rodrigo Nejm, da Safernet. 

6.Reação. Nos casos de agressões online, aja e ampare seus filhos. “Bloqueie o agressor também e procure ajuda. Salve evidências, denuncie, faça um print”, enumera Sara Bottino, psiquiatra e pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Mais conteúdo sobre:

Encontrou algum erro? Entre em contato

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

17 Dezembro 2017 | 03h00

Inquietos com o uso da internet de forma massiva – e nem sempre adequado – por colegas mais novos, estudantes do ensino médio do Colégio Equipe, na região central de São Paulo, resolveram fazer estatísticas para entender como as crianças se comportam no ambiente virtual. “Conversávamos com eles e pedíamos para responderem questionários. Eles diziam quanto tempo usavam a internet, o que achavam do cyberbullying”, diz o estudante Caetano de Andrade, de 17 anos. 

Ele e outros colegas do ensino médio foram às turmas do fundamental (de crianças de 6 a 14 anos) para aplicar os questionários depois de participarem de um grupo de discussão sobre o assunto no contraturno, durante o segundo semestre.

Segundo Caetano, surpreendia a forma como a vivência online afetava o humor até dos mais novos. “Eles chegavam furiosos à escola por uma coisa que tinha acontecido na internet”, conta.

A percepção é compartilhada pelos gestores da escola. “Nossa impressão é de que as redes sociais causam um nível de ansiedade, amplificam questões da convivência. Por isso propusemos a criação de um grupo de estudo”, explica a diretora do Equipe, Luciana Fevorini. 

Mesmo com pouca diferença de idade em relação às crianças, o jovem nota variações no uso. “Parece que eles têm um encantamento maior com a imagem. Por exemplo, nós, do ensino médio, usamos muito o Facebook. Já eles não chegam nem a criar um Facebook, criam direto um Instagram e, para se falarem, usam o WhatsApp”, conta ele. 

Até a privacidade ao acesso mudou. “Eu me lembro que computador, no começo, era da família toda, ficava na sala”, afirma Caetano.

Análise. Os dados da pesquisa serão tabulados pelos próprios alunos, sob orientação de professores, no ano que vem e vão dar subsídio para novas discussões sobre o tema. “A partir da pesquisa, os alunos vão propor intervenções”, diz Luciana. 

Mais conteúdo sobre:
internet

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.