12 convidados e um jantar às escuras

Chef atrai cliente até do Norte do País

, O Estadao de S.Paulo

03 de maio de 2009 | 00h00

De início a situação é instigante, depois um pouco constrangedora e, no final, deliciosa. Um grupo de mais de mil pessoas recebe por e-mail um convite para uma degustação gastronômica. A isca principal é o cardápio, intitulado Sucessos Lá de Casa, que alardeia gostosuras como lombo ao vinho tinto. O convite deixa claro que apenas 12 pessoas poderão participar. Surge então a segunda isca: trata-se de um encontro às escuras.Depois de inscritos, os convidados recebem o endereço no dia do jantar - um evento que se repete quatro vezes por mês no apartamento do chef Demian Figueiredo, de 27 anos, desde que lançou o Les Amis de Portas Fechadas no meio do ano passado. Na quarta-feira, Demian abriu a porta de casa cinco vezes, para que entrassem duas amigas, três casais e uma família de quatro pessoas. Sentados na sala do chef, com aquela cara de posso ter caído numa roubada, a timidez imperou pelo menos até o primeiro cosmopolitan.No sofá maior, está a advogada paraense Paula Frassine, de 51 anos, que veio de Belém para o aniversário do filho mais velho, estudante de Direito. Ele estava lá comemorando 23 anos também ao lado da irmã caçula, de 18, e de um amigo, que moram em São Paulo. Felizes, tiravam fotos e conversavam sobre o excesso de comida que a mãe trouxe da terra natal. Bastou alguém perguntar a origem de Paula para os 12 convidados, amantes da gastronomia, se integrarem. A advogada começou a descrever as receitas que costuma cozinhar, entre elas pato no tucupi e maniçoba, uma espécie de feijoada de origem indígena, feita com folhas da mandioca. "As folhas ficam quatro dias no fogo, cozinhando lentamente. O cheiro se espalha pelo apartamento e pelo prédio. Mas ninguém reclama. É uma delícia." Depois falou de suas técnicas para cozinhar muçuã, uma tartaruga pequena. "Você tem de jogá-las vivas na água fervendo. Em seguida, numa água limpa, devem ser fervidas até o casco descolar."Pronto. Paula virou a rainha da noite, num grupo com afinidades, mas bem heterogêneo, composto por publicitários, galerista, jornalista e estudante de Moda. Demian entrou na sala e pediu que todos se sentassem à mesa. O serviço era à francesa. De entrada, o mini folhado de brie com compota de figo maduro e mix de folhas verdes foi a certeza de que o chef era mesmo dos bons. O prazer do paladar, a mesa bem colocada e a curiosidade de desfrutar tão bons momentos com estranhos fizeram com que, aos poucos, o grupo entrasse em harmonia. Quando o segundo prato foi servido - raviolone de aspargos, mascarpone e gema de ovo na manteiga de trufas e amêndoas -, todos já pareciam amigos de infância. "Eu sou galerista, mas faço de tudo, até prego quadro na parede", disse um dos convidados, que simpaticamente não queria parecer esnobe pelo fato de trabalhar numa das melhores galerias da cidade. SEGREDOSNo terceiro prato - caçarola de frutos do mar ao molho de coral com batatas ao forno e lascas de limão siciliano -, segredos começaram a ser revelados, num total clima de entrega. Descobriu-se, por exemplo, que a elegante e viajada Paula tem um certo receio de andar de escada rolante. "Menina, se você cai, acabou o passeio", disse, justificando o medo. No quarto prato - lombo de vitela ao vinho tinto e suflê de gruyère - nada mais abalava o grupo, nem mesmo o comentário inconveniente de que "carioca é folgado". O que poderia ser uma saia-justa, pois havia um carioca à mesa, virou motivo de uma série de histórias engraçadas sobre o jeitinho carioca e a rigidez paulistana. No final, depois da sobremesa, a empolgação era tanta que, quando o chef finalmente saiu da cozinha, Paula avisou. "Vocês estão convidados para o Les Amis ao Pato no Tucupi. Será lá em casa, daqui a um mês." Demian adorou.

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