1/4 dos motoristas de ônibus põe passageiros em risco

Fiscais aplicaram aos condutores 105 mil infrações em 2008, 27% a mais do que em 2007

Naiana Oscar, O Estadao de S.Paulo

12 de março de 2009 | 00h00

Quem anda de ônibus na cidade sabe que tirar um cochilo quando se está sentado ou não se segurar firme quando se está em pé pode ser um risco. As estatísticas da São Paulo Transporte (SPtrans) comprovam a impressão. Em 2008, a cada quatro motoristas de ônibus e lotação, um foi multado por colocar em risco a segurança dos passageiros. Cerca de 28 mil profissionais conduzem os veículos do sistema de transporte. E as autuações desse tipo foram aplicadas a 7.560 deles.Os 700 fiscais da SPtrans aplicam as multas de acordo com o Regulamento de Sanções e Multas (Resam) definido pela Prefeitura em 2005 e atualizado em 2007. Conduzir o veículo comprometendo a segurança do usuário está entre as infrações gravíssimas e compreende, entre outras coisas, desrespeito ao sinal vermelho e freadas bruscas. O Estado mostrou ontem que, por meio de duas portarias, o secretário de Transportes, Alexandre de Moraes, flexibilizou as punições administrativas aplicadas por meio do Resam a cooperativas de perueiros e empresas de ônibus. Na prática, foram beneficiadas duas viações de ônibus (Consórcios Plus e Vip) e quatro cooperativas que poderiam ter sido excluídas do sistema por excesso de infrações.No ano passado, os fiscais da SPtrans aplicaram 105 mil multas - 27% a mais que em 2007. A infração mais flagrada do ranking é de cunho administrativo e diz respeito ao descumprimento do horário de partida - representa cerca de 33% das autuações. Dirigir comprometendo a segurança dos passageiros está em segundo lugar (7,2%). Depois seguem problemas no letreiro, no cinto de segurança e na sinalização. Todas essas multas, que variam de R$ 45 a R$ 700, dependendo da gravidade, são encaminhadas pela Prefeitura às empresas. Quando a infração é cometida pelo motorista, o valor é descontado do salário. Mesmo com a punição, eles admitem que, com frequência, desrespeitam mesmo algumas regras: por conta dos congestionamentos, da carga horária, da pressa em cumprir a viagem em tempo e até "para preservar os passageiros". "Se o sinal fica amarelo e vejo que brecar vai ser pior, sigo em frente", disse o motorista José Severino, de 50 anos, há 15 na profissão. "Isso todo motorista faz." O professor de engenharia de transportes da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), Jaime Waisman, concorda que os condutores de ônibus trabalham em condições estressantes. "Isso explica o alto índice de infrações cometidas por eles, mas não justifica", afirma. "Em geral, são faltas graves e a vítima é o passageiro." Um exemplo é o que ocorreu com a atendente de supermercado Ana Lúcia Custódia, de 25 anos, há uma semana. Assim que embarcou no ônibus, ela foi jogada contra o ferro de um dos bancos. Bateu com as costas antes de alcançar a catraca e conseguir se segurar. "Eles dirigem ônibus com uma irresponsabilidade e ignorância que nem parece que estão carregando gente", disse.Embora considere uma utopia imaginar que o número de autuações aplicadas a esses profissionais chegue próximo de zero, o superintendente da Associação Nacional de Transportes Públicos, Marcos Bicalho, defende que essa seja a meta do poder público. "Quem trabalha no trânsito o tempo todo devia ser o primeiro a perceber e a ter um comportamento mais seguro. E isso se conquista em grande parte com treinamento e educação." Já o diretor de Fiscalização da São Paulo Transporte, Guilherme Benazzi, garante que, mensalmente, 100% das linhas são fiscalizadas com o intuito de intimidar e reduzir o número de autuações. COMO RECLAMARPara se queixar do sistema de transporte coletivo, o cidadão precisa anotar o número da linha, o prefixo do ônibus, o local, a data e o horário da ocorrência. Com esses dados em mãos, a reclamação pode ser feita gratuitamente pelo telefone 0800-771-0118 ou pelo site www.sptrans.com.br. Após 30 dias, pode-se ligar novamente para saber o que ocorreu. Se preferir fazer uma nova reclamação, é preciso ligar na Ouvidoria da Prefeitura, no telefone 0800-17-5717

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