14 homens e um destino, serem heróis

Corpo de Bombeiros em Ilhota é voluntário e foram eles os primeiros a chegar no Morro do Baú

Eduardo Nunomura, O Estadao de S.Paulo

29 Novembro 2008 | 00h00

Eram 14 homens e um destino: virarem heróis da pior tragédia de Santa Catarina.Pedro Paulo, Patrício Zuccki, Leandro Minuzzi, Pedro de Abreu, Sidnei Coninck, Regiane Gabriela Cunha, Ednilson José de Carvalho, Josimar Deluqui, Ederson José da Silva, Fabio Geovane Costa, Jonas Maciel, Paulo Minuzzi, Julio e Jean Carlos Benaci são bombeiros voluntários de Ilhota. A brigada socorrista tem um efetivo de 35 pessoas e outro tanto que vai se incorporando quando há necessidade. Na segunda-feira, 14 deles aceitaram a missão de chegar ao Morro do Baú.   Leia íntegra do texto do enviado especial Eduardo NunomuraO relato de uma moradora era sombrio: mortes, desaparecidos, o Braço do Baú revirado do avesso. A comunidade que vivia na montanha achando ter encontrado o paraíso na terra parecia ter sido transportada sem escalas para o inferno. Os 14 bombeiros tiveram de pedir emprestados dois barcos. A partir de um ponto, os bombeiros tiveram de caminhar por 1,5 quilômetro, pegar um trator emprestado, atravessar parte alagada e chegar à comunidade. O cenário lembrava a destruição do tsunami, a onda gigante que dizimou países na Ásia. Ou partes bombardeadas na Guerra do Iraque.Três vítimas já estavam sendo veladas pela população que decidiu criar sua própria lógica de sobrevivência. Sem luz, água ou telefone, só podiam inventar uma nova realidade. Na igreja, moradores estavam construindo caixões. No cemitério, um senhor que cavava as covas perguntou se os salvadores já tinham encontrado mais corpos. "Pode ser que sejam minha mulher e meu filho", disse. Ele já havia fabricado dois caixões.O primeiro socorro foi o de duas senhoras, mãe e filha de 89 e 60 anos. Só elas sobraram de uma família de oito. Com uma motosserra emprestada dos moradores, eles tiveram de cortar um eucalipto para fazer uma ponte. Uma cachoeira se formou na parte detrás, ilhando o imóvel. No último imóvel da rua, o grupo encontrou 36 pessoas. "Uma pessoa gritava: ?Meu pai morreu? Meu pai morreu?? Sabíamos que ele não, mas a mãe dele sim", lembra Zuccki.Um senhor abrigou os socorristas com outros desabrigados. Um senhor apareceu segurando firme nas mãos uma Nossa Senhora Aparecida. Ele dizia que nunca mais soltaria a imagem da santa. No sábado, um deslizamento avançou sobre casas do Braço do Baú, os estalos só aumentavam e o fiel católico rezou. A avalanche de terra se abriu ao meio a um passo de destruir sua casa.Naquela noite de segunda-feira, ouviram relatos assustadores dos moradores. Como a de uma jovem que ficou presa nos destroços da casa que desabou, com lama da cintura para baixo. Sem conseguir ajudá-la, a jovem morreu cinco horas depois.Foram resgatadas de helicóptero quase 200 pessoas até quinta-feira, quando veículos começaram a chegar até o Braço do Baú. Os 14 socorristas voltaram muitas mais vezes. Eles sobrevivem com R$ 3.800 por mês, sendo R$ 2 mil da prefeitura e o restante da doação. "Se tivesse de escolher entre perder o meu serviço e continuar bombeiro, preferiria salvar pessoas", diz Pedro Paulo. Vereador que encerra agora o mandato, ele e os outros voluntários já fizeram sua escolha: serem heróis.

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