''18 anos depois, mais uma trapalhada''

"Pai, viu que mataram a menina?", indagou Renata Caringi, na visita ao hospital. Seu pai, Pedro, de 78 anos, ficou internado por uma semana e não conseguiu acompanhar as 100 horas de seqüestro de Eloá Pimentel. Como toda a família, queria saber se desta vez o final seria feliz ou se aconteceria uma tragédia, como a que abalou os Caringis em março de 1990. Quando soube que podem ter existido erros na ação da Polícia Militar, Renata desabafou: "Dezoito anos depois, eles fizeram mais uma trapalhada." Quando o casal Gilberto Palhares e Regiane dos Santos invadiu a residência dos Caringis em Perdizes, na zona oeste de São Paulo, viveu-se um drama semelhante. Os dois levaram para o andar de cima os pais Pedro e Anna e a filha mais nova, a professora de Educação Física Adriana, de 23 anos. Os cinco permaneceram trancados em um quarto. Quando Palhares ia perto da janela fazer exigências, colocava o revólver na cabeça de Adriana e ameaçava matá-la. Em determinado momento, o cabo Marco Antônio Furlan disparou um tiro de fuzil que, segundo o Instituto Médico-Legal, acertou a cabeça do seqüestrador e atravessou o corpo de Adriana, que morreu nos braços da mãe. Depois da tragédia, o ex-comandante do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) Diógenes Viegas Dalle Lucca se aproximou da família e se desculpou pelo episódio, em nome da corporação. Há dois anos, em uma das conversas que manteve com os Caringis, Lucca disse que os policiais estavam trabalhando forte para aprimorar as técnicas e impedir que se repetissem tragédias. "Eu só condeno a equipe que tirou a vida da minha filha, então não vou julgar o último trabalho. Só digo uma coisa: eles tiveram chances de atirar no rapaz, mas não fizeram, por causa do nome Adriana Caringi. A polícia tem receio de repetir o que fez naquela noite", diz Pedro. A família ainda mora na mesma casa da tragédia e fotos de Adriana estão em praticamente todos os cômodos. No chão da escada, há buracos dos tiros do revólver 38 de Palhares e só recentemente foi retirada a marca no armário da bala de fuzil que matou a jovem. "Meu pai sempre fala que não adiantava fugir, porque essa história iria nos acompanhar", diz Renata. O Estado foi condenado a pagar à família uma indenização de 3 mil salários mínimos. Uma parte desse dinheiro foi doada para instituições de caridade e outra foi usada para custear os gastos com advogados na longa luta para que os culpados fossem responsabilizados. Nenhum policial acusado chegou a ser preso. O atirador de elite Marco Antônio Furlan foi condenado pela 3ª Auditoria Militar a 2 anos e 2 meses de prisão, mas teve a pena reduzida pelo Tribunal de Justiça Militar (TJM) para 1 ano. O crime prescreveu. Furlan nunca mais fez parte da equipe de atiradores do Gate - desempenhou serviços administrativos até se aposentar, no início desta década.

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