19 das 34 cidades da Grande SP ainda jogam todo o esgoto no Tietê

Segundo Cetesb, houve maior redução no lançamento de detritos industriais no rio que dos dejetos domésticos

Sérgio Duran, O Estadao de S.Paulo

23 de fevereiro de 2008 | 00h00

Estação de tratamento de esgoto tem, rede coletora também, mas a ligação entre uma coisa e outra, não. Assim é a situação da região do ABC, Grande São Paulo, servida por uma estação da Sabesp: as cidades têm altos índices de coleta, mas os dejetos são lançados sem tratamento no Rio Tamanduateí, afluente do Tietê. Especialistas concordam que, se faltou alguma coisa ao Projeto Tietê, foi articulação entre as cidades e a estatal. Das 34 cidades que integram a bacia do Tietê na Região Metropolitana, 19 não tratam absolutamente nada do esgoto.De acordo com o Relatório das Águas da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) de 2007, das sete cidades do ABC, por exemplo, só Ribeirão Pires trata o que recolhe de dejetos domésticos (veja quadro). São Caetano, por sua vez, uma das cidades de maior qualidade de vida do País, recolhe 100% do esgoto e não trata nada. A cidade é vizinha da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) da Sabesp. No ano passado, a prefeitura investiu na construção de duas ligações com a ETE, que deverão ficar prontas ainda neste semestre, para tratar 100% do esgoto.Guarulhos é outro exemplo de corrida para recuperar o tempo perdido. Depois de ser pressionada em 2006 pela Prefeitura de São Paulo - que ameaçou recorrer à Justiça para impedir o lançamento de mil litros de esgoto por segundo na altura do Parque Ecológico do Tietê -, a cidade arrumou financiamento pelo Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) federal para a construção de estações de tratamento e entrou em acordo com a Sabesp para usar a ETE de São Miguel, zona leste da capital. Hoje, o município, o terceiro maior do Estado, não trata absolutamente nada de esgoto."A gente pode contar a história da falta de articulação metropolitana em São Paulo pelo Rio Tietê", diz Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam) e representante das entidades civis no Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema). "E não é apenas uma desarticulação política, entre Sabesp, governo do Estado e municípios, mas da sociedade como um todo", explica.Bocuhy fala sobre o setor industrial e de serviços. Houve redução do lançamento de dejetos industriais, mais que do doméstico, segundo a Cetesb - a companhia, porém, não fiscaliza as pequenas indústrias, de confecção, por exemplo, tampouco setores de serviços como lavanderias. "Considerando o gigantismo da Região Metropolitana, é um erro", afirma Bocuhy, usando o exemplo da despoluição do Rio Tâmisa, em Londres, para embasar sua teoria.Em 1610, o Tâmisa era um rio tão poluído quanto o Tietê. Muito tempo depois, os responsáveis pela despoluição disseram que foi preciso "muito dinheiro e mil cafés" com autoridades para concluir a obra (Veja box). "Aqui, estão faltando os mil cafés", diz Bocuhy.Para o ambientalista, também falta empenho ao empresariado. "Mesmo as grandes indústrias, que precisam submeter suas plantas à aprovação da Cetesb, podem contar agora com um sistema de autofiscalização, que consiste em enviar relatórios periódicos à companhia. É civilizado demais para um país como o nosso", ironiza. SEM MÁGICAO engenheiro de saneamento José Mauro Moreira da Rocha, há 36 anos à frente da empresa de consultoria Hidroconsult, participou dos primórdios do Projeto Tietê e trabalhou no Plano Diretor das Águas da Região Metropolitana. Para ele, o resultado aquém do previsto pelo projeto, seja no porcentual de tratamento de esgoto, seja na redução da mancha de dejetos, faz parte da "margem de erro"."Em se tratando de uma região como a de São Paulo, que perdeu população na área central e explodiu na periferia, onde não há rede de esgoto e onde fica mais caro levar rede de captação, o resultado foi até positivo", avalia Moreira da Rocha. "Veja bem, trabalho nisso há muito tempo, e não há mágica. A população aumenta, a produção de esgoto também, a cidade se espalha, e você vai atrás para coletar e tratar. Não tem outra coisa a ser feita."Para ele, o crescimento desordenado da cidade faz com que questões urbanísticas tenham papel preponderante na projeção da produção de esgoto. "Talvez essas áreas de estudo, como urbanismo e educação ambiental, tenham de ser mais bem trabalhadas futuramente. Isso porque, além do aumento da produção de esgoto doméstico, o grande vilão da má qualidade dos nossos rios, há a produção de lixo. E parte desse lixo também acaba nos corpos d?água."

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