2 mil desalojados após reintegração

No confronto em favela da zona sul, um PM foi atropelado e moradores foram atingidos por balas de borracha

Elvis Pereira e Renato Machado, O Estadao de S.Paulo

25 Agosto 2009 | 00h00

Fotos: Galeria de imagens do confronto PM mantém 240 agentes em reintegração de posse em SP Fotógrafo do ?Estado? é roubado durante reintegração de posse Um grupo com cerca de 1,2 mil pessoas permaneceu acampado com os pertences na calçada, na noite de ontem, após elas terem sido desalojadas pela reintegração de posse de um terreno na região do Capão Redondo, zona sul de São Paulo. Pela manhã, houve confronto entre esses moradores, que eram da antiga Favela Olga Benário, e a Polícia Militar (PM). Resultado: três pessoas detidas, moradores atingidos por balas de borracha e um policial atropelado. O processo de reintegração do terreno, que pertence à Viação Campo Limpo, começou por volta de 6 horas, quando os policiais chegaram para acompanhar dois oficiais de Justiça. No local, havia 800 barracos, onde viviam cerca de 2 mil pessoas. Participaram da operação aproximadamente 250 agentes, entre integrantes do 37º Batalhão da PM e da Tropa de Choque, além de unidades dos bombeiros. Um grupo de moradores montou barricadas nos dois extremos da Rua Ana Aslan, principais entradas da favela. Pneus e dois automóveis foram incendiados para dificultar a entrada - um deles estava com dois botijões de gás e explodiu a poucos metros dos policiais. Além disso, os moradores atiraram pedras, rojões e coquetéis molotov contra os agentes. O foragido Henrique José Oliveira, de 21 anos, tentou furar um bloqueio da PM e jogou a moto contra um soldado, que teve uma fratura na perna. Oliveira era procurado por tráfico. Outros dois jovens, cujos nomes não foram revelados, assinaram termos circunstanciados por terem sido surpreendidos com coquetel molotov. "Fomos atacados. Por isso precisamos dispersar o grupo, mas somente utilizamos armas não letais na operação, bombas de gás e armas com balas de borracha", disse o coronel Augusto Botelho, um dos responsáveis pela operação. Inicialmente, no entanto, os comandantes haviam informado que não havia sido utilizada bala de borracha, discurso alterado após moradores mostrarem marcas de tiro. Os invasores afirmam que um grupo de fora da favela iniciou o confronto para evitar a entrada dos policiais. A própria PM reconhece que traficantes podem ter organizado o protesto. Alguns barracos foram incendiados, obrigando moradores a sair, deixando para trás todos os seus pertences. "Eles começaram a tocar fogo em tudo e não consegui tirar nada. Olha lá minha geladeira, meus móveis e minhas roupas todas queimadas", diz a auxiliar de serviços gerais Selenita Ferreira dos Santos, de 47 anos. Equipes dos bombeiros apagavam os focos de incêndio, que surgiram ao longo de toda a tarde. A PM afirma que foram os moradores atearam fogo, para dificultar a reintegração de posse. Os moradores, por outro lado, afirmam que os barracos começaram a queimar por causa das bombas. DESESPERO Em alguns casos, o fogo avançava quando ainda havia gente dentro dos barracos, até mesmo crianças. O aposentado Edivaldo Manoel Correia estava com o filho de uma amiga em sua casa, quando o fogo começou a destruir o casebre. Paraplégico desde que caiu de uma obra, ele teve de pedir ajuda, gritando, a quem passava. "Dei sorte que um amigo voltou para tentar recuperar a televisão e me viu. Ele saiu empurrando minha cadeira no meio de madeiras queimando", diz o aposentado, que iria passar a noite na rua. "Só conseguiram salvar meu colchão de água e uma televisão. O resto foi tudo perdido. Minha casa vai ser a calçada", completa. As pessoas que conseguiram retirar pertences os amontoaram em uma calçada em frente à antiga favela. A Viação Campo Limpo disponibilizou caminhões para transportar os materiais para um depósito da Prefeitura, no Parque Lídia. No entanto, a maioria precisou passar a noite na calçada. A Secretaria Municipal de Habitação informou que tentou, sem sucesso, adiar a desocupação. A pasta assegurou que a operação não prejudicará as negociações com as famílias para a concessão de verba para aluguel por seis meses e para os programas para o financiamento de imóveis populares. Os moradores agora despejados rejeitaram vagas em albergues oferecidas pela Secretaria Municipal de Assistência Social, assim como passagens para voltarem às cidades de origem. "Como o terreno é propriedade particular, nosso trabalho é de apoio", ressaltou a pasta, em nota. A decisão pela reintegração de posse foi emitida após um recurso impetrado pela Viação Campo Limpo no Tribunal de Justiça (TJ). O primeiro pedido de liminar havia sido negado. Mas os problemas judiciais do terreno podem não ter terminado, pois também corre na Justiça uma ação da Defensoria Pública contra a reintegração. Os defensores afirmam que o terreno "é reconhecido legalmente como não utilizado ou subutilizado". "No Plano Diretor, ele está cadastrado como Zeis (Zona Especial de Interesse Social), então ele não poderia voltar para a empresa. Temos informação de que está desocupado há 20 anos", diz o defensor Carlos Henrique Loureiro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.