20 anos depois, vítima de cratera ainda não foi indenizada

Vinte anos após o "Buraco de Cajamar", como ficou conhecida a cratera de 50 metros de diâmetro e 13 metros de profundidade que engoliu oito casas na cidade da grande São Paulo, algumas das vítimas nunca receberam indenização, seja financeira ou material. "Somente houve uma troca de casas, injusta. Ninguém recebeu retorno financeiro", afirma Ilda Freitas Souza, 61 anos, em cuja casa o buraco começou. Eram 9 horas da manhã de 12 de agosto de 1986 quando um forte estrondo, semelhante explosão de uma bomba, foi ouvido pela vizinhança da rua Barão de Rio Branco, atual Valdomiro dos Santos. Abriu-se, de repente, um buraco no meio da horta do quintal da casa de Ilda. O buraco cresceu e começou a engolir as residências ao redor, e até mesmo um sobrado de dois andares, recém-construído, foi tragado pelo solo. Como ninguém foi responsabilizado judicialmente pelo surgimento da cratera, Ilda nada recebeu de indenização. "Eu dei a escritura da minha casa inteira à prefeitura e recebi, tempo depois, uma casa pequena, bem diferente da minha. Eu pago IPTU e todos os impostos, mas até hoje não recebi a escritura", relata. A informação foi confirmada pelo atual prefeito, Messias Cândido da Silva, que diz estar consciente da situação irregular das residências ´trocadas´ com algumas famílias atingidas.Messias explica que, para resolver o problema o quanto antes - pois 2,4 mil pessoas ficaram desabrigadas no primeiro momento, sendo levadas para colégios, casas de parentes e igrejas - a prefeitura construiu as casas em uma área pública municipal, por isso a situação ainda não foi regularizada. "Eu tenho consciência de que existem traumas. As pessoas tinham as casas de seus sonhos e construímos casas padrão. Mas todos foram reassentados e os outros voltaram para onde moravam. A maioria está feliz hoje", acredita.Ilda e o marido, Hélio Ribeiro Souza, 58 anos, ´ganharam´ uma das casas construídas pela prefeitura, mas não foram morar no local, porque é uma área um pouco afastada da cidade. Segundo Hélio, a casa demorou três anos para ser alugada pela primeira vez, e isso só ocorreu após quebrarem o vidro da janela e deixarem um bilhete com uma ameaça: "Uma casa abandonada enquanto tantos precisam de uma".O casal reclama que, na época do buraco, o então prefeito Aristides Ribas de Andrade prometeu construir "uma nova Cajamar", mas que nada do que foi prometido até hoje saiu do papel. Houve assembléias, projetos, fotos de uma nova cidade e até uma pedra fundamental foi lançada. "O prefeito brincava nas reuniões que daria para todo mundo o que tinham no exato momento que houve o buraco, se tivesse um galinheiro, iria fazer o galinheiro na casa", diz Ilda.O atual prefeito, que também teve a casa atingida pelo buraco na época, esclarece que "a nova Cajamar" prometida era para caso houvesse a necessidade da reconstrução de toda a cidade. "O governo federal nos deu uma área para que fosse construída a cidade, se fosse necessário. Só que esta região estava sob judice com o Grupo Abdalla e eles conseguiram reverter a decisão, tirando a terra do governo", informa o prefeito. "O governo federal nos doou o que nem era deles".Ilda e Hélio contam que pagaram mensalidades à Sociedade Amigos de Cajamar, entidade formada pela população para discutir possíveis indenizações. O dinheiro era para advogados que atuariam em prol das vítimas. Contudo, eles, que estão entre os mais atingidos pelo buraco, nunca receberam nada e há anos não têm notícias do grupo.Acidente em obra do metrô relembra tragédiaCom lágrimas nos olhos, Ilda diz que o desabamento nas obras da Linha Amarela do metrô da capital paulista a fez relembrar a tragédia da cidade. "Fiquei impressionada, o medo voltou. Ainda bem que em Cajamar não morreu ninguém diretamente no buraco, como aconteceu na cratera do metrô. Mesmo assim, quando eu vejo qualquer trincado ou rachadura em casa, eu tenho medo de que um buraco se abra e tudo seja engolido. Imagina se tivesse alguém na horta no momento que o buraco se abriu. Teria sido tragada pelo solo, como ocorreu com a van em São Paulo", diz ela, que trabalha em um lar de assistência a crianças soropositivas.Para pôr fim à cratera, o prefeito Antonio Carlos Ribas mandou tapá-la em 1990 com 5,6 mil metros cúbicos de terra - o equivalente a 1.200 caminhões. Atualmente, o lugar abriga a deserta praça Alfredo Sória, mais conhecida entre a população como "praça do buraco". Ilda conta que nunca passa perto da praça e, convidada pelo portal Estadão.com.br para visitar o local, recusou. "Não sei se tenho medo, mas fica aquele ranço, aquela mágoa. A gente sempre lembra com tristeza e tudo pode acontecer novamente", afirma.A aposentada Geni Cardoso, 76 anos, reside desde os anos 80 em frente ao terreno onde o solo cedeu. Ela lembra que foi retirada com urgência de sua casa, mas decidiu voltar, pois não tinha medo. A residência pendeu para o lado direito e algumas rachaduras e buracos ocorreram, mas foram tapados pela prefeitura."Eu nunca esqueço, mas depois do buraco de São Paulo voltei a ter medo. Tá tudo na mão de Deus. Pode nunca mais acontecer, mas pode voltar a acontecer de novo", teme Geni.Cavernas no subsoloLogo após o surgimento da cratera, uma área de 30 mil m2 foi isolada, com temor de que o buraco se expandisse. O buraco, no entanto, não aumentou. Após alguns meses, as pessoas retiradas da área ao redor da cratera começaram a voltar para as suas casas. O Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) detectou na época que o afundamento ocorreu porque havia cavernas no subsolo da cidade, além de uma camada de rocha calcária. Influenciaram também na formação do buraco a retirada de água do subsolo pela Companhia de Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp) e por uma fábrica de bebidas, além de detonações realizadas por uma pedreira próxima ao local, informa o laudo que o geólogo Fernando Luiz Prandini fez na época e ao qual o portal Estadão teve acesso.O laudo, de setembro de 1986, apontava que "o buraco não acabará e que continua evoluindo vários vazios no solo". "Isso dava medo na gente. Achávamos que o buraco iria engolir a cidade inteira", conta Ilda.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.