25 comunidades ''sumiram'' do mapa

Um em cada 5 desabrigados jamais voltará a morar na área da antiga residência; procura por casas cresce 700%

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

04 de dezembro de 2008 | 00h00

Os primeiros balanços da tragédia em Santa Catarina mostram que alguns problemas estão apenas começando. Das 35.325 pessoas que ainda dormem em abrigos ou com familiares, pelo menos 8 mil tiveram as residências totalmente destruídas. Talvez nunca mais voltem para casa - em pelo menos 25 comunidades condenadas pela Defesa Civil, não haverá reocupação. Todas as cidades afetadas cancelaram eventos tradicionais de Natal e fim de ano para realocar o dinheiro no socorro às vítimas. O solo está saturado e o lençol freático permanece elevado - por isso, análises da Universidade Federal de Santa Catarina indicam que, após a chuva recorde de novembro, o solo só vai se estabilizar em seis meses. Até lá, haverá risco de deslizamentos.As imobiliárias da região atingida já acusam um aumento de quase 700% na procura por residências, mas a maioria não conta com levantamentos sobre a condição atual dos imóveis que estão à venda ou para alugar. Pior: Itajaí ainda tem cinco bairros sem água e sem luz e 46 das 91 escolas da cidade não poderão mais ter aulas. As estradas só serão liberadas no dia 19. Dois abrigos que até segunda-feira eram seguros em Luiz Alves ontem tiveram de ser evacuados. Em Gaspar, o Corpo de Bombeiros sabe a exata localização de oito corpos soterrados, mas não pode trabalhar nos morros, porque estão cedendo. Blumenau sofre com uma névoa de poeira que se formou quando a lama secou. Até os técnicos do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) de São Paulo tiveram de voltar à estaca zero no Morro do Baú, depois das chuvas que caíram na região na noite de anteontem e na manhã de ontem.São famílias, bairros e cidades em estado de suspensão. Ao longo de toda a região do Vale do Itajaí, em áreas totalmente varridas do mapa como o Alto do Baú até lugares turísticos como Blumenau, os personagens dessa tragédia sempre terminam de contar suas experiências com um ponto de interrogação. "Mas, e agora, o que vou fazer daqui para frente?" São pessoas como Uniberto Hausmann, que dorme em um abrigo em Ilhota com outras 200 pessoas desabrigadas e teve a casa de madeira que ele mesmo construiu reduzida a destroços pelas enchentes. Ou Mariana Franceschini, dona de uma lanchonete em Navegantes que acumula contas e perdeu 80% do faturamento. Ou o estampador André de Oliveira, que perdeu em um desabamento a mulher, Débora, a filha, Ester, o filho, Elienai, a sogra, Maria, a cunhada Franciele e a prima Jéssica. Débora estava grávida - já haviam até escolhido o nome, Eliá se fosse menino, Elisama se fosse uma garota. "Perdi a vontade de viver também", desabafa. "Vou para a casa de um parente, mas, e daí, o que faço? Nada é pior que isso. A gente perdeu o chão."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.