Itaan Arruda/Estadão
Itaan Arruda/Estadão

26 detentos fogem de penitenciária do Acre; polícia investiga relação com fuga no Paraguai

Presidiários escaparam quebrando local onde fica a ventilação de um dos pavilhões do presídio Francisco de Oliveira Conde, em Rio Branco

Itaan Arruda, Especial para o Estado

20 de janeiro de 2020 | 16h23
Atualizado 22 de janeiro de 2020 | 18h25

RIO BRANCO - A Polícia Federal e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) foram acionadas pelo governo do Acre para ajudar com informações sobre a fuga de 26 presos do presídio Francisco de Oliveira Conde na madrugada desta segunda-feira, 20, em Rio Branco, capital do Acre.

A informação foi confirmada durante coletiva de imprensa realizada no Gabinete Civil do Governo do Estado do Acre. O objetivo é saber se há relação com a fuga de integrantes do PCC no Paraguai. Um dos fugitivos foi recapturado, escondido em uma área de mata próximo ao complexo.

O Pavilhão L, onde ocorreu a fuga e estavam os presos ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Bonde dos 13, grupo regional associado à facção paulista, foi o mesmo pavilhão onde morreram cinco pessoas em uma rebelião ocorrida em 2016.

A fuga desta madrugada ocorreu por meio da quebra do local onde fica a ventilação do pavilhão, feito de concreto. É uma espécie de “janela de concreto”. Os presos quebraram e pularam a muralha usando “teresas” (cordas improvisadas, feitas de lençóis).

O plantão no complexo penitenciário, incluindo nas três guaritas instaladas na muralha de sete metros, estava sob responsabilidade da Polícia Militar até hoje. “Foi o último plantão da PM hoje”, lamenta o presidente da Associação dos Policiais Penais do Acre, Eden Alves Azevedo, que defende a permanência do efetivo de 187 policiais militares que atuam na segurança do complexo.

O governo estadual não vai recuar e vai manter o cronograma de retirada de policiais do complexo. “Eu não concordo e vai piorar muito a situação”, opina a juíza Luana Campos. Ela atuou durante oito anos na Vara de Execuções Penais e manteve, durante esse período, a postura de cobrar do poder público providências para que a Lei de Execuções Penais fosse aplicada.

O último relatório elaborado pela equipe foi feito em dezembro do ano passado. O relatório aponta falhas na infraestrutura do prédio que possibilitam construção de túneis e buracos.

“Essa fuga decorre da forma como está sendo conduzida a penitenciária, sem que o preso tenha seus direitos legais garantidos e, em contrapartida, o Iapen adotou política repressora. Não há um equilíbrio entre direitos e deveres. Não há estudo, trabalho e eles (presos) falam que são torturados diariamente. A Vara de Execuções Penais, na minha gestão, sempre enfatizou o quadro de poucos agentes penitenciários e a possibilidade de rebelião. Aliado à estrutura velha dos pavilhões, que, sem reforma, podem ser facilmente cavados buracos na parede”.

Atualmente, são 1.170 policiais penais que atuam no Sistema Penitenciário do Acre para garantir a vigilância de aproximadamente 8 mil presos. Mais da metade deles está no Presídio Francisco de Oliveira Conde.

Intervenção

O Governo do Acre já realizou dois pedidos de intervenção federal no Estado em função da segurança pública, mas não foi atendido. Um terceiro pedido será formalizado para que o Exército e a Polícia Rodoviária Federal atuem em áreas estratégicas da fronteira.

O Acre vive aumento no número de homicídios. Só este ano já foram 30 assassinatos, a maior parte com envolvimento de facções, incluindo uma chacina de sete pessoas na zona rural de Rio Branco neste fim de semana.

O governador do Estado, Gladson Cameli, em declaração feita ano passado na imprensa local, adiantou que o Governo do Acre iria solicitar apoio dos Estados Unidos, via DEA (Agência de Segurança Nacional) para ajudar a combater o narcotráfico na região do Acre, estado limítrofe com os dois maiores produtores de cocaína do mundo, Peru e Bolívia.

Acre convive com conflito entre facções

O Estado mostrou em agosto que a Região Norte do País convive com o clima instável da disputa entre ao menos 17 facções criminosas. O racha nacional entre Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), evidenciado desde o fim de 2016, potencializa conflitos regionais pela disputa da rota de tráfico de cocaína cuja importância é crescente, segundo policiais e pesquisadores.

O Acre, com a terceira menor população do País (869 mil pessoas), ocupou em 2017 o posto de segundo mais violento, com uma taxa de 63,9 homicídios por 100 mil habitantes - a taxa nacional naquele ano, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, foi 30,8. Na capital Rio Branco, a taxa chegou a 83,7, a maior do período. Por trás dos números acreanos estava uma briga do CV com membros do PCC e seus aliados locais do Bonde dos 13 e da Irmandade Força Ativa Revolucionária Acreana.

A rota do Rio Juruá é disputada pelas facções por permitir a entrada de drogas, especialmente cocaína, para a região. O Juruá nasce no Peru, cruza a fronteira, passa por Cruzeiro do Sul, segunda maior cidade do Estado, e corta o Amazonas até desaguar no Rio Solimões. /COLABOROU MARCO ANTÔNIO CARVALHO

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