3ª fase prevê coletar esgoto de 400 mil famílias

Sabesp lança em julho nova etapa do Projeto Tietê e quer ajuda do Japão para captar R$ 3 bi em investimentos

Diego Zanchetta, O Estadao de S.Paulo

23 de fevereiro de 2008 | 00h00

No barraco de 20 metros quadrados da dona de casa Juliana Vitória, de 32 anos, nas ruas de terra do Jardim Presidente Dutra, Guarulhos, um cano com remendos conecta o vaso sanitário ao Córrego Baquirivu, que passa ao lado. "Com as chuvas da semana passada, o rio subiu e a lama entrou na sala, ficou mau cheiro em casa quase dois dias", conta Juliana, mãe de cinco filhos, grávida do sexto.Às margens do Baquirivu, Juliana vê passar pela janela do quarto parte das 66 toneladas de esgoto produzidas todos os dias por Guarulhos e arrastadas para o Rio Tietê sem tratamento. A família da dona de casa é uma das 400 mil da Região Metropolitana que vivem sem coleta de esgoto.Na terceira etapa do Projeto Tietê, prevista para ter início em julho e término em 2018, a Sabesp planeja universalizar a coleta de esgoto e atacar a poluição dos afluentes do rio. "Existe uma carga residual de poluição indo para o Tietê por meio de outros rios, poluídos com a descarga de esgoto de casas sem coleta", afirma Gesner Oliveira, presidente da Sabesp. Gesner diz ter iniciado as negociações com o Japan Bank For International Corporation para conseguir a captação de mais R$ 3 bilhões para os próximos dez anos de intervenções no Tietê. "O que eu posso dizer para o morador da Grande São Paulo, que ainda não vê tantas melhoras no rio aqui na capital, é que o problema da poluição não vai se agravar." Os trabalhos para a despoluição de 42 córregos da capital já é realizado desde janeiro, numa parceria entre a Sabesp e 18 subprefeituras. No segundo semestre, com o início da terceira etapa do Projeto Tietê, o objetivo é estender a parceria a outras 300 prefeituras paulistas.CUSTOMas mesmo nas regiões da Grande São Paulo atendidas pela rede de esgoto da Sabesp, moradores resistem à conexão, com receio do aumento na conta de água. "Eu já pago R$ 20 de água; se for pagar esgoto também, vai para R$ 40", diz a dona de casa Jeanette Xavier, de 42, moradora do Jardim Japão, zona norte da capital.Sem a coleta, moradores que ligam suas fossas sanitárias em córregos acabam mais suscetíveis a doenças, afirma o sanitarista Odair Bongiovanni. "O morador acaba ficando rodeado pelo próprio esgoto, em áreas cheias de ratos. E quando esses córregos sobem com toda a poluição, na época das chuvas, quem mais sofre é a própria população, com o risco de contrair leptospirose."Nas margens do Baquirivu, por exemplo, os moradores do Jardim Presidente Dutra falam da leptospirose como algo tão comum quanto a catapora. "Minha mãe quase morreu no mês passado com a doença desses ratos. Não tem jeito, em toda família existe alguém que já teve leptospirose", afirma o marceneiro Jaime Maximiliano, de 33.VILÃOUm dos principais vilões da poluição do Tietê, o Baquirivu sofre todo tipo de agressão, do lançamento do esgoto doméstico de uma população de quase 1,2 milhão de habitantes às pilhas de entulho depositadas nas margens por caçambeiros clandestinos. Depois do Rio Pinheiros, ele é o afluente que mais carrega poluição para o Tietê.A sujeira do Baquirivu derruba até boi, conta Paulo Monteiro, de 33, caseiro que comanda toda semana a travessia de 52 cabeças de gado pelo córrego. "Tem boi que fica doente depois de passar pela água, mas fazer o quê? Tenho de passar por aqui uma vez por semana", diz Monteiro. A prefeitura de Guarulhos diz que o córrego será canalizado até o fim do ano.

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