35 milhões de brasileiros já fizeram trabalho voluntário, diz Ibope

No Dia Internacional do Voluntário, comemorado nesta quinta, 5, conheça a história de três pessoas que se dedicam a atividades sem remuneração

Felipe Cordeiro, O Estado de S. Paulo

05 Dezembro 2013 | 15h15

SÃO PAULO - Visitas a orfanatos para levar alegria e diversão às crianças. Aulas de reforço a alunos de escolas públicas. Recolhimento de lixo da areia para a preservação das praias. O que essas atividades têm em comum é serem feitas por voluntários - pessoas que não recebem nenhum tipo de remuneração pelo trabalho. A recompensa é a satisfação em ajudar o próximo e contribuir para um mundo melhor. No Dia Internacional do Voluntário, comemorado nesta quinta-feira, 5 de dezembro, conheça a história de três brasileiros que se dedicam a trabalhos voluntários.

 

No Brasil, segundo pesquisa do Ibope, 25% da população com mais de 16 anos faz ou já fez trabalho voluntário, o que totaliza 35 milhões de pessoas, com idade média de 39 anos. "São várias as motivações: retribuir algo que recebeu, ajudar pessoas, ocupar um tempo livre, contribuir para melhorar o mundo", diz Silvia Naccache, coordenadora do Centro de Voluntariado de São Paulo (CVSP).

"As pessoas dizem que fazem projetos voluntários para os outros, mas é para elas mesmas. Isso faz bem, é apaixonante", diz a estudante de economia Raquel Coelho, de 24 anos.

Após assistir a uma palestra sobre trabalho voluntário na faculdade, Raquel se interessou pelo tema e, desde 2010, faz parte do Crea+, projeto internacional que atua em escolas públicas de Brasil, Chile e Peru.

No País, o Crea+ conta com a participação de 123 voluntários, que, aos sábados, dão aulas de reforço de matemática e coordenam atividades socioculturais e esportivas em duas escolas estaduais de São Paulo: a Professor Daniel Paulo Verano Pontes, no Rio Pequeno, zona oeste, que atende crianças e adolescentes moradores da Favela São Remo; e a Professor Odon Cavalcanti, no Ipiranga, zona sul, frequentada por moradores de Heliópolis.

Os estudantes beneficiados pelo Crea+ têm entre 10 e 15 anos e estão do 6º ao 9º ano do ensino fundamental. Raquel reconhece que não é fácil lidar com turmas que apresentam tanta disparidade. "Há alguns alunos de 6º ano que mal conseguem somar dois mais dois", afirma. Por isso, cada sala de aula tem, no máximo, 15 alunos e conta com três professores voluntários, o que garante maior atenção às dúvidas individuais.

Outro desafio é despertar nos alunos o interesse em estudar matemática em uma manhã de sábado. "A aula é bem diferente da que ocorre durante a semana. Para explicar subtração, por exemplo, costumo usar o Campeonato Brasileiro. Os meninos entendem facilmente o saldo negativo dos times", declara Raquel. Além disso, o Crea+ inclui atividades socioculturais, como culinária, música e dança, e esportivas após as aulas de reforço de matemática.

"Eu dou uma nota dez, e eles ficam superfelizes, pois nunca tinham ganhado um dez. Era isso que precisavam para ficar motivados e continuar indo", diz Raquel. "É a ideia de que são capazes, de que não existem barreiras."

Amigo Beija-Flor. A visão de que os voluntários são os mais beneficiados pelo próprio trabalho é compartilhada pela analista administrativa Brenda Laila Pinheiro, de 34 anos, que considera que eles saem das atividades "leves, alegres e aliviados por mais uma missão cumprida".

Brenda integra a Associação Amigo Beija-Flor e é responsável por organizar eventos mensais no orfanato Vila Acalanto, no bairro do Socorro, zona sul. No local, vivem crianças de até 8 anos que foram abandonadas ou que são filhas de pais em condições psicossociais ou econômicas desfavoráveis.

Os eventos ocorrem normalmente em datas festivas, como Dia das Crianças e Natal, e reúnem aproximadamente 40 voluntários. Brenda também auxilia na organização de outras atividades promovidas pela Amigo Beija-Flor, que vão de workshops e campanhas de arrecadação à distribuição de cobertores e lanches a moradores de rua.

O interesse de Brenda pelo trabalho voluntário ocorreu após ter sido convidada por uma amiga para participar de uma festa junina beneficente em Juquiá (SP), em 2000. "Me apaixonei, me senti bem, vibrei, chorei e sorri."

Para Brenda, o trabalho voluntário não ocorre apenas durante as atividades, mas também no dia a dia das pessoas. "Quando pegamos uma criança no colo, abraçamos um vovô ou despertamos um sorriso em um paciente."

De bituca em bituca. Em 1999, o emissário submarino de Ipanema se rompeu, e o esgoto in natura passou a ser despejado diretamente nas areias das praias da zona sul do Rio de Janeiro. O professor de surfe Marcelo Marinello, com 56 anos atualmente, percebeu que, se não fizesse a sua parte, correria o risco de perder o seu trabalho.

Marinello organizou uma passeata para conscientizar a população sobre a preservação das praias. Com a repercussão positiva, decidiu criar a organização não governamental (ONG) SOS Praias Brasil, que há 14 anos percorre a costa do País.

"Já fui a todo o litoral brasileiro. Chego à praia, faço a gestão ambiental de eventos e promovo gincanas ecológicas com o auxílio de voluntários", afirma Marinello. A principal tarefa é recolher o lixo que se acumula nas areias. "Os nossos maiores problemas são as bitucas de cigarro. Tenho dados de que já recolhi mais de um milhão", estima.

Para o professor de surfe, o trabalho voluntário ainda é pouco conhecido no Brasil. "Se tivesse uma divulgação maior, mais pessoas se cadastrariam como voluntárias e haveria um resultado bem melhor." Colaborou Luiz Fernando Toledo, especial para o Estado

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